Em meio à tensão na península da Criméia, região da Ucrânia ao norte do Mar Negro, invadida por tropas russas na semana passada, soldados ucranianos chutaram uma bola amarela que estava de bobeira para aliviar o estresse. O futebol sempre participa, de um jeito ou de outro, do que acontece ao redor do mundo, e a crise no leste europeu não escapa dessa regra.

Na semana passada, o presidente Viktor Yanukovich foi retirado do poder pelo parlamento ucraniano, depois de pelo menos 77 manifestantes serem assassinados, inclusive com tiros de sniper, em protestos contra a decisão do político de se aproximar da Rússia, em detrimento de acordos comerciais com a União Europeia.

Yanukovich, aliado a Vladimir Putin, refugiou-se na Rússia, que aproveitou a conjuntura para invadir a península da Criméia, de maioria étnica russa, onde mantém uma base militar desde a época da União Soviética. Tudo isso faz parte do plano de Putin de reconstruir a influência rússia nas ex-repúblicas soviéticas e criar um bloco econômico que concorra com os Estados Unidos, União Europeia e a China.

Com toda essa efeverscência política, o retorno do Campeonato Ucraniano, que estava marcado para 1° de março, foi adiado. A partida da Liga Europa entre Dínamo Kiev e Valencia foi transferida para o Chipre. O amistoso entre a seleção ucraniana e os Estados Unidos, também no Chipre, precisou ser confirmado pelo presidente da federação, Anatoliy Konkov.

“Concordamos em jogar contra os Estados Unidos, apesar de tudo. Eles estão do nosso lado para proteger os interesses nacionais e a integridade territorial da Ucrânia”, disse, em um comunicado. Impossível deixar de notar que a Federação Ucraniana, nessa briga, está ao lado do grupo pró-ocidente.

A Ucrânia é dividida entre o oeste, da capital Kiev, sede da Federação, com uma população mais aliada com a Europa, a Otan e os Estados Unidos. O leste mantém as raízes soviéticas. Tem o russo como língua principal e até elegeu um novo premier, sem seguir a constituição do país, depois que Yanukovitch foi deposto. Essa rivalidade se estende ao futebol.

Donetsk fica no leste, e o Shakhtar é propriedade de Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia, e aliado político de Yanukovitch. Foi membro do parlamento pelo Partido das Regiões, o mesmo do ex-líder ucraniano, entre 2006 e 2012. Em Kiev, o Dínamo é presidido por Igor Surkis, irmão de Grigory Surkis, ex-presidente do clube e chefe da Federação Ucraniana até setembro de 2012. Quando Anatoily Konkov assumiu o cargo, ele virou presidente honorário da entidade.

Deu para ver como os dois lados discordam também nas questões do futebol quando houve a possibilidade de unir as ligas da Rússia e da Ucrânia, no ano passado. Akhmetov foi um grande entusiasta da ideia e afirmou que via vantagens por todos os pontos de vista. Konkov, por sua vez, disse que o Campeonato Ucraniano é “forte sozinho” e não vê porque ele deveria se juntar ao Russo.

Por isso tudo, impressionou a união das torcidas de todos os clubes do país, simboilizada pela pelada entre os ultras de Dínamo Kiev e Shakhtar Donetsk, no último domingo. Como o campeonato foi suspenso, eles, com a anuência da administração do estádio, jogaram uma partida de futebol no Olímpico de Kiev, que terminou empatada por 1 a 1.

Em 13 de fevereiro, um dos dias mais movimentados dos protestos, os ultras de todos os 15 times da primeira divisão e mais dezenas das ligas menores assinaram um acordo para suspender praticas corriqueiras, como brigar, queimar as bandeiras dos rivais, cantos ofensivos, entre outras coisas. Disseram que o inimigo era “a polícia e o governo” e precisavam “evitar um crime contra o futuro brilhante do país”.

Ao menos os torcedores organizados dos clubes, de todas as regiões, estão alinhados a favor do oeste. E, obviamente, também há interesses políticos. Muitos ultras ucranianos são ligados ao partido de extrema-direita Svoboda, de influência neonazista, que assumiu três ministérios no novo governo liderado por Arseniy Yatsenyuk.

A bola não rola oficialmente na Ucrânia desde o segundo dia de dezembro do ano passado, mas o futebol do país está ativo no conflito que matou cerca de uma centena de ucranianos, deixou quase 600 feridos e colocou o país à beira de uma guerra com a Rússia.