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O futebol também foi uma obra faraônica dos militares, e sofremos com isso até hoje

O futebol brasileiro é um gigante. Possui clubes tradicionais e abundância de talento. Está fincado em um país populoso, economicamente forte e de dimensões continentais. Mesmo assim, a organização do esporte nunca engrenou. A situação que chega a ser risível quando comparada com as ligas de nações bem menores. A ladainha de problemas é extensa, e não vem de hoje, tornando quase uma tradição nacional. Atravessaram mais de um século, aprendendo a conviver com os mais diferentes gêneros de cartolas e políticos. Mas que, ainda assim, possuem amplas raízes durante os 21 anos em que a ditadura militar regeu o Brasil, quando exatamente o excesso de gigantismo atrapalhou o desenvolvimento das estruturas.

>>> Tema da semana: Como a ditadura militar se apropriou do futebol brasileiro

A forma como o regime utilizou o futebol para legitimar alguns de seus dogmas é evidente. O tricampeonato da Seleção na Copa de 1970 é o exemplo mais óbvio. Mas também determinou diversas diretrizes que influenciaram os clubes. A criação do Campeonato Brasileiro em 1971 veio na esteira do Plano de Integração Nacional do presidente Emilio Garrastazu Médici – e que será aprofundada na terceira matéria desta série. Entretanto, muitas das mazelas que travam o futebol brasileiro atualmente têm origem na forma como o regime utilizou os times para manobras políticas.

O auge desse processo aconteceu na década de 1970. Médici não escondia seu apreço pelo futebol e tentava mesmo passar sua imagem como um torcedor de estádio, que ficava em pé na arquibancada com o radinho de pilha na orelha. E as ações do governo se estenderam também à Confederação Brasileira de Desportos. João Havelange era o presidente da entidade. “Criou-se um monstrengo. É um modelo do Havelange, reproduzido de certa maneira na Fifa. Uma superestrutura desnecessária. É importante salientar que grande parte dos problemas são anteriores ao golpe militar, vem do período de Getúlio Vargas no poder. Mas o futebol ainda padece de questões posteriores”, contextualiza o jornalista Juca Kfouri, chefe de reportagem e diretor de redação da Revista Placar durante a ditadura.

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Havelange dançava de acordo com a música tocada pelo governo, mas não era tão querido pelos militares. Diante das denúncias de corrupção (que, sim, já datavam daquela época), começou a ser vigiado pelo regime e até mesmo convocado para depor. Saiu da CBD em 1975, substituído pelo Almirante Heleno Nunes, de forte atuação política no regime. Uma época em que o inchaço do Brasileirão e a construção de estádios gigantescos tomaram conta do futebol. Não apenas para tornar o esporte realmente nacional, mas para agradar os caciques políticos também em regiões onde o futebol não era exatamente uma potência.

“A utilização política do futebol é contínua, não é exclusividade do regime militar. Acontecia antes e continua hoje, pela própria representatividade que o futebol tem para a população. O que a ditadura fez, outros também fizeram”, explica o jornalista e historiador Marcos Guterman, autor do livro O futebol explica o Brasil. “Mas foi o momento em que houve o maior incentivo, que isso ficou mais claro com a construção de grandes estádios e o inchaço do campeonato para satisfazer as alianças políticas. Era uma tentativa de trazer os cartolas para a órbita política dos militares”.

As obras faraônicas no futebol brasileiro

Para dimensionar melhor a maneira como o regime militar se apossou do futebol brasileiro, basta olhar os números. Quando o Campeonato Brasileiro surgiu, em 1971, apenas 20 equipes formavam a elite. A edição de 1972 já contou com 26 times. E o número de participantes do Brasileiro só cresceu a partir de então. Teve entre 40 e 42 participantes nas três edições seguintes. Chegou a 54 em 1976, quando todos os Estados da federação passaram a contar com pelo menos um representante na liga. A prática do famoso lema “onde a Arena vai mal, mais um time no nacional” chegava ao seu ápice no início da gestão de Heleno Nunes, tentando contornar as crises políticas do partido do regime através do futebol. Na sequência, foram 62 clubes em 1977, 74 em 1978 e o recorde absoluto de 94 integrantes na primeira divisão em 1979 – quando São Paulo e Santos preferiram desistir da competição excessivamente inchada.

Já a construção de estádios gigantescos também se intensificava com Geisel e Médici no poder. “Eram construções vistosas. Estádios para menos de 70 mil pessoas eram considerados pequenos. E era um período em que os torcedores lotavam as arquibancadas, fazia sentido. O dinheiro no período do regime militar não tinha fim. Não havia controle sobre os gastos públicos. Depois que houve a mudança política, não havia como os clubes manterem aquilo. Muitos desses estádios apodreceram. O caso da Fonte Nova é emblemático”, comenta Guterman.

Ao mesmo tempo, as manobras políticas

Não era apenas nos centros periféricos que a ditadura exercia sua influência através do futebol. Também havia uma ação direta dentro das administrações do futebol. Enquanto a seleção brasileira passou por uma militarização em sua comissão técnica, também existia uma forte presença de pessoas ligadas ao regime no controle das federações. E, em mais uma ação com pano de fundo político, a Lei 6.251 foi aprovada em 8 de outubro de 1975, centralizando as decisões na CBD e nos poderes locais.

Os clubes passaram a ter ainda mais autonomia em suas ações, sobretudo na organização do Campeonato Brasileiro. Uma situação que não se difere tanto da atual, com as votações da CBF restritas apenas aos presidentes das entidades estaduais. É o que analisa Guterman: “De fato, a centralização do futebol brasileiro está toda nas federações. Há uma dívida dos clubes com esses chefes, a maioria deles é dependente e existem muitas histórias que jamais saberemos sobre isso”.

Havia (e, muitas vezes, ainda há) uma clara dependência financeira dos clubes em relação ao governo. Não eram raros os episódios em que clubes, não necessariamente só os grandes, enviavam cartas a Brasília pedindo pela amortização de dívidas e até mesmo por empréstimo de dinheiro. Em uma época na qual dinheiro não era exatamente um problema para o Estado, que não precisava prestar contas para ninguém, ser benevolente com os times era uma maneira de negociar apoio político.

Se os governadores biônicos eram comuns na época, também existiam os ‘dirigentes biônicos’. As principais entidades tinham cartolas que só chegavam ao poder graças à influência dos militares, ao mesmo tempo em que muitos clubes também eram administrados por colaboradores do regime. Enquanto isso, os principais agentes de toda essa engrenagem, os jogadores, não apresentavam uma organização para serem representados na década de 1970 – quanto mais para lutarem por mudanças no país.

O petróleo ajudou a afundar os clubes brasileiros

A derrocada das benesses financeiras ao futebol brasileiro aconteceu na virada da década de 1970. A Crise do Petróleo, que abalou a economia mundial a partir de 1973, teve efeito retardado no Brasil. Os militares bancaram o congelamento do preço da gasolina, mas sentiram os efeitos colaterais com o estouro da crise econômica nos anos 1980. Clubes e federações, presos a esse cordão umbilical, sentiram na pele o agravamento da situação.

Quem explica é Marcos Guterman: “Entre o final dos anos 1970 e o começo dos 1980, a fonte secou. O governo empurrou com a barriga o choque do petróleo, fez o país viver uma fantasia. Perceberam só quando a água estava batendo no queixo. Não havia o dinheiro que ajudou a sustentar essas relações promíscuas entre clubes, federações e militares. E isso afetou todos os times, os grandes e os pequenos. Com a diferença é que os grandes tiveram torcida, visibilidade e nome para se recuperar”.

Os anos 1980 também marcaram uma ligeira modernização do futebol brasileiro. Em setembro de 1979, a CBD deu origem à CBF, que passaria a tratar apenas dos interesses da modalidade. Logo no ano seguinte, Giulite Coutinho assumiu a presidência da entidade no lugar de Heleno Nunes. Um empresário, dirigente do America, encarregado de reorganizar as estruturas e diminuir os impactos da crise econômica. Entre suas promessas ao assumir, estava o enxugamento do Brasileirão, o planejamento de um calendário trienal, e a instituição um tribunal de contas que fiscalizasse a administração dos clubes.

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Obviamente, nem todas as ideias vingaram. Não era tão simples encerrar as relações de clientelismo vigentes por tanto tempo. Mesmo assim, alguns avanços foram notados. Para Guterman, uma transformação parecida com a reabertura política desencadeada por Geisel e João Baptista Figueiredo: “Dá para fazer um paralelo com o que aconteceu com o governo, um retorno negociado. A própria CBF mudou naquele período, facilitou essa ousadia da Copa União. Mas estacionou, morreu ali. Os clubes se acomodaram”.

A Copa União, aliás, nasce justamente de um processo de cisão. A dificuldade econômica foi o principal motivo para que o presidente da CBF, Octávio Pinto Guimarães, abrisse mão da organização do Campeonato Brasileiro em 1987. Era a brecha para a união das equipes e a criação do Clube dos 13. “A criação da Copa União se dá em um momento no qual não havia mais medo da repressão. Mas é importante dizer que havia ali claramente uma motivação negocial. Prevaleceu o capitalismo”, aponta Juca Kfouri. Surgia um torneio enxuto, apoiado por grandes empresas para se sustentar financeiramente.

A modernização não abandonou o clientelismo

O modelo da Copa União deu certo. E por isso mesmo ruiu. Demorou apenas algumas semanas para que a CBF se aproveitasse do sucesso comercial do torneio e passasse a negociar a criação de mais módulos com outras empresas. Ao menos, a elite do Campeonato Brasileiro (por ora) não voltaria a inchar. Então como satisfazer as federações, que perderam as benesses dadas antes pelos militares, mas seguiam no centro nevrálgico da CBF? De certa maneira, a fonte dos recursos financeiros mudou-se de Brasília para o Rio de Janeiro. Do Palácio do Planalto para a sede da confederação.

“As derrotas nas Copas, assim como as dívidas dos clubes, levaram à conclusão de que o futebol brasileiro precisava de uma administração tecnocrata, que soubesse gerir melhor a escassez de recursos. E isso dentro e fora de campo. Entendo a vitória na Copa de 1970 como um processo que veio como consequência de 1958, com a valorização dos craques. Depois disso, o futebol brasileiro passou a viver uma crise técnica e econômica”, explica Guterman.

Nesse contexto é que Ricardo Teixeira chega ao poder. Era o genro de João Havelange, mas que também recebia créditos por sua fama como administrador. Uma ascensão política conquistada graças aos laços com as federações. Antes mesmo de ser eleito, Teixeira bancava os custos de seus eleitores no pleito da CBF com o dinheiro de sua própria empresa. Quando assumiu a CBF, em 1989, passou à entidade a postura patriarcal de sustentar as suas filiais estaduais, o que antes era encargo do governo militar. Tornou a confederação uma máquina de fazer dinheiro e instituiu seu império a partir disso, mantendo o poder longe dos clubes. Enquanto isso, as negociatas por privilégios, que antes tomavam conta do Brasileirão, passaram a ser parte da recém-criada Copa do Brasil.

“A CBF manteve sua tradição nas relações políticas, algo que já acontecia com Havelange. Ricardo Teixeira sabia manobrar como Heleno Nunes. E tornou a seleção brasileira uma supercampeã, vencedor em todos os níveis. Havia um acúmulo de poder político, mas com méritos incontestáveis no campo esportivo”, pontua Guterman. “Nos últimos 40 anos, a geração de cartolas se acostumou a mamar nas federações e no governo. Eles têm que ganhar dinheiro através da política, não com o futebol. É muito difícil mudar essa mentalidade, mas hoje existe uma reticência para isso”.

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A partir de então, a história do futebol brasileiro passa a ser um pouco mais aberta. E nada que tenha mudado tanto. Afinal, parte dos dirigentes que seguem na ativa tem um passado ligado ao regime militar ainda muito vivo – como o ex-governador e atual presidente da CBF, José Maria Marin, deixa bem claro. As federações continuam sendo os principais entraves para mudanças no calendário, especialmente por conta do medo de perderem terreno com os estaduais. Só agora os atletas esboçam um movimento de lutar por direitos. Os grandes clubes convivem com gestões obsoletas e dívidas enormes. Os pequenos estão falindo por não terem como se sustentar. Os estádios, antes suntuosos, são verdadeiros ônus para a máquina pública. Mas as perspectivas, ao menos, dão esperanças.

“Por mais que os clubes tenham se modernizado, é difícil romper com os laços. Mas eu acredito que o futuro é bem melhor. Os times estão morrendo. É algo que eu vejo como inevitável. O descontentamento é crescente, os clubes poderiam se juntar com a Globo para organizar as mudanças, como já aconteceu na Europa. O dinheiro da televisão é o que vai ajudar a mudar essa equação de crise”, finaliza Guterman. Muitas expectativas que se parecem com as que o futebol brasileiro criou décadas atrás. E que, com o enfraquecimento cada vez maior das raízes cultivadas durante o regime militar, tendem a finalmente vingar.