O Raja Casablanca teve uma grande exibição contra o Atlético Mineiro. O jogo de transição rápida no ataque, troca de passes constante, dribles curtos e até algumas jogadas de efeito surpreendeu a muitos, especialmente pelo fato de que os verdes só estão no Mundial porque são os atuais campeões do país anfitrião. No entanto, o estilo de jogo dos marroquinos não é nenhuma novidade para seus torcedores. Pelo contrário, é uma das marcas registradas da história do clube e que ajudou a torná-lo um dos times mais populares do país.

Fundado em 1949, o Raja passou a viver sua era do ‘jogo bonito’ seis anos depois. Considerado o maior técnico da história das Águias, foi Père Jégo quem introduziu a inovação. Filho de um comerciante, o tunisiano se acostumou a viajar pelo mundo desde criança. Tanto é que, na adolescência, já dominava cinco línguas diferentes: árabe, francês, espanhol, inglês e português. Depois, se tornou o primeiro jornalista esportivo em um veículo marroquino. E passou a se envolver ainda mais com o futebol quando fundou o Wydad Casablanca, em 1939.

Foi no maior rival do Raja que Père Jégo passou a trabalhar como técnico. Porém, ele entrou em atrito com outros dirigentes do clube e acabou expulso. Em 1955, começaria sua redenção e sua vingança ao assumir o comando dos verdes. E decidiu aplicar na nova equipe os conhecimentos que havia adquirido em uma de suas viagens mais recentes, por diferentes países da América do Sul.

Assistindo aos clubes sul-americanos, Jégo avistou a chance de transformar o jogo que se praticava em seu país. O treinador considerava que as capacidades fisiológicas dos marroquinos se assemelhavam às dos sul-americanos, o que facilitaria a adaptação. Assim, era mais lógico se inspirar mais em um jogo de toque de bola e técnica do que em um de bolas longas e correria como o inglês – ao qual seguiu a cartilha quando estava no Wydad.

Nascia assim o ‘Raja Lfraja’, que, em árabe, significa ‘Raja do Espetáculo’. O estilo fluido ajudou a encantar multidões, embora não tenha rendido títulos em seu início – somente em 1974 é que a equipe levantaria sua primeira taça, enquanto a primeira conquista do Campeonato Marroquino aconteceu em 1988. Père Jégo deixou as Águias em 1968, mas sua ideia rege a montagem das equipes em Casablanca até hoje.

É claro que os sul-americanos estariam melhor representados na final do Mundial de Clubes com o Atlético Mineiro. Entretanto, quem foi mais competente e se classificou com todos os méritos foi o Raja Casablanca. Mesmo que seja difícil pensar na queda do Bayern de Munique, o estilo sul-americano ajudará a fazer a final mais disputada. Os rápidos contra-ataques puxados por Iajour e Moutaouali podem ser uma arma diante da lentidão de Boateng. E, com vitória ou com derrota, o espetáculo precisa continuar.