Peter Shilton possui um dos recordes mais aclamados do futebol britânico. A lenda da seleção inglesa soma 1249 partidas competitivas por clubes. A marca, segundo a RSSSF, é a maior do mundo. Mas talvez não dure tanto assim, com um compatriota prestes a quebrá-la, mesmo passando longe do estrelato. Aos 47 anos, Paul Bastock iniciou sua carreira em 1988, mas continua na ativa. O goleiro nunca foi além da quarta divisão inglesa e atravessou a maior parte de sua carreira na chamada Non-League. Ainda assim, igualou os 1249 jogos de Shilton nesta quarta e espera superar o veterano no próximo final de semana. Atualmente, ele defende a meta do Wisbech Town, da nona divisão.

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Formado pelas categorias de base do Coventry City, Bastock fazia parte de uma formação histórica do clube. Em 1987, conquistou a FA Youth Cup, principal torneio de base do futebol inglês. Derrotou na decisão o Southampton, que tinha em seu ataque Alan Shearer e Matt Le Tissier. O goleiro, entretanto, não ficou nos celestes, também campeões da Copa da Inglaterra naquela temporada. Seguiu ao Cambridge United, antes de iniciar anos como andarilho, passando até pela Malásia. A partir de 1992, ele se encontrou no Boston United. E faria longa carreira na equipe do litoral, acumulando 12 temporadas consecutivas. Inclusive, ajudou o time a entrar para a Football League em 2002, com o acesso na quinta divisão. É considerado o maior ídolo da história.

Bastock deixou o Boston United em 2004 e até voltaria em 2010. Contudo, sua trajetória foi muito mais repleta de descaminhos, passando por nove times diferentes nos últimos 13 anos, algumas vezes como reserva. Já nesta temporada, desembarcou no Wisbech Town – os nanicos que agora ganham projeção nacional graças ao que o goleiro está prestes a completar. Nesta quarta, a equipe sofreu, mas venceu o Sleaford Town. E o veteraníssimo alcançou o tal recorde de Shilton.

“Minha carreira foi um passeio de montanha-russa. Nunca alcancei o nível que eu queria no futebol. Mas me aproximar do recorde agora é algo que eu nunca sonhei”, declarou, em entrevista à BBC Sport. “Você só pensa em não se machucar. Na última noite, estive envolvido em um pequeno acidente de carro, que foi minha culpa. Meu primeiro pensamento foi se a senhora no outro carro estava bem, mas depois comecei a me preocupar com meu corpo. Na próxima quarta, darei ao meu filho o presente de 21 anos, uma viagem à Turquia para jogar golfe. Então, estou tentando deixar tudo no lugar, porque esta semana, tirando o acidente, será uma das melhores da minha vida”.

Por muito pouco, Bastock não pendurou as luvas antes do recorde. Ele pensou em se aposentar semanas atrás, desmotivado com o futebol: “Eu estava cheio do futebol em geral. As pessoas só ofendem quem trabalha com futebol e não há respeito. Eu soube disso por anos, mas quando começa a acontecer com você, se questiona se vale a pena. Mas o nosso técnico entrou na minha cabeça e disse que esse recorde precisa ser quebrado por mim. Falei que ninguém saberia desta marca, mas logo isso se tornou uma loucura”.

E o nome de Shilton tem um significado especial a Bastock, que cresceu admirando o goleiro presente em três Copas do Mundo: “Superar Shilton me dá um pouco de vergonha, porque ele era meu ídolo de infância. Como ele, por não ser tão alto, eu costumava passar um tempão pendurado no travessão tentando me alongar. Eu tinha 15, 16, 17 anos. Quando eu cheguei ao milésimo jogo, esperava que ele entrasse em contato, mas ele não fez. Então, acho que não parece tão bom para este recorde agora”.

Difícil dizer se há jogadores em outras partes do mundo que atuaram em tantas partidas oficiais quanto Bastock. Mas não é por isso que ele deixa de ser um verdadeiro herói.