Uma decisão é sempre um divisor de águas. Não importa o que aconteceu nas fases anteriores: as palavras finais, que serão escritas na antologia da competição, são ditadas ao longo de 180 minutos. A atmosfera das partidas ganha uma aura diferente. Cada jogador precisa estar sintonizado na frequência máxima, e cada participação ao longo do jogo fará a diferença. Nenhum nível de concentração abaixo dos 100% é aceitável, e ainda mais em uma Libertadores – um torneio que não se joga, apenas, mas se sente. E o grande trunfo do Grêmio nesta noite decisiva foi entender o que se passava na Arena. Não exibiu o seu melhor futebol e nem se impôs em campo durante todo o tempo. Porém, compreendeu o confronto com o Lanús. Soube encontrar os atalhos e virar o tabuleiro. Contou com um treinador que, se prefere afastar de si a pecha de “estudioso”, possui doutorado na escola da bola. E teve uma leitura veloz para, mexendo nas peças, conquistar a vitória por 1 a 0, passo fundamental rumo à taça que tanto se almeja. A taça que os tricolores esperam há 22 anos.

A concentração do Grêmio se via desde a entrada dos times em campo. Via-se a partir daquilo que acontecia nas arquibancadas. A Arena é diferente do velho Olímpico. Ainda assim, proporcionou uma recepção trepidante aos gremistas. Pulsou entre bobinas, fogos de artifício e fumaças, nas três cores que regiam Porto Alegre nesta quarta. A área da Geral, sobretudo, era a que melhor lembrava as melhores festas da antiga casa. Da Libertadores de sempre.

Renato Portaluppi não tinha o que inventar em sua escalação inicial, confiando na base que tem disputado as últimas partidas da Libertadores. Da mesma forma, Jorge Almirón preservou a espinha dorsal do Lanús. Era uma ocasião para os dois times jogarem ao seu máximo, em seus estilos, confiando em suas virtudes. E, embora o duelo não tenha sido dos mais vistosos, foi interessante ver como os dois times lidaram com as diferentes fases do jogo. Como conseguiram se refazer e reordenar seus conceitos ao longo dos 90 minutos.

Os primeiros 15 minutos do jogo estiveram nos pés do Grêmio. Os tricolores tiveram a postura que se esperava dos anfitriões. Jogaram muito bem no início, de maneira fluida, trocando passes no campo de ataque, pressionando os visitantes ao redor de sua própria área. Faltava um pouco mais de penetração, de criação de jogadas. Ainda assim, nem todos apostavam que os gremistas pudessem acuar o Lanús desta maneira. Os grenás preferiam se resguardar mais. Mantinham a paciência em uma decisão que seria longa, se desenrolando por 180 minutos. A calma do time de Jorge Almirón impressionava, especialmente pela maneira como trocava passes em sua defesa, no limite do perigo. Os argentinos erraram algumas vezes, é verdade, diante da pressão incessante dos gaúchos no início. Era o caminho de maior ameaça dos anfitriões. E nem assim os visitantes abandonavam sua cartilha.

Com o passar dos minutos, o Lanús começou a se soltar. Não encontrava a mesma pressão alta do Grêmio e o volante Iván Marcone ditava o ritmo da equipe. Aos poucos, a tensão aumentava na Arena. Era perceptível a maneira como o Granate crescia em campo. E encontrou as brechas na defesa tricolor, que mal conseguia ameaçar quando recuperava a bola. Neste momento, surgiu aquele que, desde já, pode ser considerado o melhor goleiro da Copa Libertadores: Marcelo Grohe. Não há como recontar a trajetória gremista sem mencionar o goleiro. Mais uma vez, ele teve participações fundamentais.

Em um lance talhado artesanalmente, entre o pivô de José Sand e o trabalho de Alejandro Silva na linha de fundo, Román Martínez criou a primeira chance concreta aos 33. Chutou rasteiro e, mesmo com a visão encoberta, o camisa 1 espalmou brilhantemente. Mas o melhor viria seis minutos depois, após cobrança de escanteio. Diego Braghieri cabeceou firme, consciente, rumo ao chão. A bola quicou no gramado e tomou o caminho das redes. Mas esbarrou no antebraço salvador de Grohe, perfeito na leitura do lance e na execução de seu movimento, para cair no momento exato de concretizar o milagre. Mais um à sua longa lista, pronta para a santificação.

Antes do intervalo, porém, o Grêmio daria as suas respostas. Esteban Andrada, goleiro do Lanús, era bastante acionado na saída de bola, mas via várias de suas linhas de passe bloqueadas pelos gremistas. Errou mais de uma vez. E em um desses lances, Arthur roubou a bola, ficando a um triz de abrir o placar. Já nos acréscimos, um lance de pressão do Tricolor acabou em reclamação. Ramiro foi deslocado dentro da área e reclamou de pênalti, não marcado pelo árbitro Júlio Bascuñán. O chileno, aliás, saiu para os vestiários bastante questionado pelos brasileiros, também pelo cartão amarelo dado a Kannemann por um agarra-agarra na área – e que tirará o zagueiro do jogo de volta.

Desencontrado em boa parte da primeira etapa, o Grêmio voltou com outra postura ao segundo tempo. Não era mais o time que tentava jogar com a bola ao chão, o que não vinha dando ao certo, principalmente com a marcação cerrada sobre Luan – que recuava bastante para ajudar na construção, mas não conseguia criar jogadas mais agudas. Os tricolores passaram a explorar mais o jogo aéreo e a arriscar de fora da área. Aos 13 minutos, Andrada precisou salvar o Lanús pela primeira vez. Bruno Cortez soltou uma bomba de fora da área e parou na ponta dos dedos do arqueiro, desviando para escanteio.

O jogo ficava mais pegado, e o Grêmio demonstrava uma enorme competência para bloquear os ataques do Lanús. Os tricolores fecharam as portas nas laterais, principais alternativas de saída, além de chegarem firme no centroavante Pepe Sand. E as substituições feitas por Renato renovaram as energias para dificultar a troca de passes do Granate na defesa. O primeiro a sair foi Fernandinho, dando lugar a Everton. Depois, o amarelado Jaílson saiu e Cícero ocupou sua lacuna. E a última cartada veio com Jael, sacando o extenuado Lucas Barrios, que lutou muito, mas não criou perigo aos argentinos. As mudanças de Renato selariam a alegria na Arena.

A insistência do Grêmio pelo alto aumentava. Andrada não conseguia transmitir confiança, especialmente pelas vezes em que ficou no meio do caminho. Até que a bola certeira veio aos 37, compartilhada entre os heróis inesperados. Edílson mandou o chuveirinho da intermediária. Jael subiu e ajeitou de cabeça. Cícero foi mais inteligente ao ler o lance e fuzilou na saída do goleiro, que nada pôde fazer. Um gol das apostas, desde as contratações às substituições de Renato. Um gol deste Grêmio, que joga com a bola, não necessariamente com os nomes. E vê vários jogadores ressurgirem com a camisa tricolor.

O tento inflamou de vez a Arena. A torcida, que por vezes se contraía, tomada pela tensão, desta vez explodiu. A festa ecoava alto, ao mesmo tempo em que os sinalizadores acendiam. Mas a fumaça tomou o campo e o árbitro preferiu paralisar a decisão. Isso limou um pouco do ímpeto do Grêmio. Quando a bola voltou a rolar, cerca de cinco minutos depois, o Lanús amarrava, os jogadores se estranhavam. Estava claro que os minutos finais estavam mais abertos para o segundo gol tricolor. E ele poderia ter vindo nos acréscimos, em mais um cruzamento na área, que Andrada afastou no soco. Jael, entretanto, havia sido claramente empurrado por Nicolás Aguirre. Bascuñán, que dera apenas cinco minutos a mais e não considerou as outras paralisações, preferiu apitar o final.

Ao Grêmio, apesar da festa pela vitória, também restou um sabor agridoce por aquilo que se desenrolou nos minutos derradeiros. Os jogadores voltaram a cercar o juiz, irritados com as decisões – não só pelos reclamados pênaltis, mas também pela falta de critério na distribuição de cartões. E a pergunta que fica é apenas uma: qual a função do árbitro de vídeo na Libertadores? Ao menos nesta quarta, pareceu que o recurso eletrônico era apenas para “inglês ver”. Para os dirigentes da Conmebol se anunciarem na vanguarda do esporte, mas não arcarem com as consequências que sua utilização pode trazer. De nada adianta se o árbitro principal é fraco, como Bascuñán. Os tricolores têm sua razão para o descontentamento.

De qualquer maneira, a vantagem inicial é importante ao Grêmio. Um passo fundamental para que encarem La Fortaleza com mais confiança. Há seus entraves na visita a Lanús, sobretudo com a ausência de Kannemann na zaga, seja pela ótima dupla com Geromel ou pela liderança que ajudaria a exercer em campo contra os seus compatriotas. Além do mais, o próprio Granate deverá fazer um jogo totalmente diferente. Ao contrário do que se viu em Porto Alegre, os grenás não costumam aguardar em seu campo quando atuam em casa, partindo bem mais para cima e apostando nas trocas rápidas de passes em progressão. Renato Portaluppi precisará primar em sua compreensão da final por ao menos mais 90 minutos. Os 90 minutos finais que exigem ainda mais concentração. E são ainda mais definitivos para consagrar o campeão da Libertadores 2017.

Ficha técnica

Grêmio 1×0 Lanús

Local: Arena do Grêmio, em Porto Alegre
Público total: 55.188 presentes
Árbitro: Júlio Bascuñán (CHI)
Gol: Cícero, aos 37’/2°T
Cartões amarelos: Kannemann, Jaílson e Cícero (GRE); Velázquez, Braghieri, García e Acosta (LAN)

Grêmio: Marcelo Grohe, Edílson, Geromel, Kannemann e Bruno Cortez; Jaílson (Cícero, aos 27’/2°T) e Arthur; Fernandinho (Everton, aos 12’/2°T), Luan e Ramiro; Barrios (Jael, aos 29’/2°T). Técnico: Renato Portaluppi.

Lanús: Esteban Andrada, José Luis Gómez, Rolando García, Diego Braghieri e Maxi Velázquez (Nicolás Aguirre, aos 34’/2°T); Iván Marcone, Nicolás Pasquini e Román Martínez; Alejandro Silva, José Sand e Lautaro Acosta. Técnico: Jorge Almirón.