O Grêmio transbordou autoridade para bradar: Eu sou tricampeão da América

A Libertadores da América corre nas veias do Grêmio. É o torneio que tão bem representa a identidade tricolor. Que preenche os devaneios durante as noites febris de futebol. Que auxiliou o clube a proclamar seu gigantismo em 1983, a reafirmá-lo em 1995. E que, através daquelas duas conquistas, construiu o entendimento do torcedor sobre si e sobre o sentimento pelo clube. Desde o início do século, porém, o gremista precisou admitir uma nova concepção de sua realidade, bem mais penosa. Que, enfim, acaba liberta justamente pelo messias de 34 anos atrás, o responsável por encerrar a espera de 22 anos: Renato Portaluppi. O título da Copa do Brasil havia desatado a consciência de ser tricolor. Para, enfim, se transformar em completo orgulho nesta noite em La Fortaleza. Foi um novo Grêmio, moderno, de futebol bem jogado. Mas sem esquecer de seu passado copeiro, aguerrido. E que, por isso, deu tanto gosto de se ver jogar. Entre a arte e a vontade, o Tricolor viveu seu ápice. Demoliu o Lanús com a vitória por 2 a 1, somada ao triunfo por 1 a 0 em Porto Alegre. Feito imponente e cheio de autoridade, que reluz no irrepreensível tricampeonato tricolor. A América novamente é dos gremistas, e o Mundial de Clubes volta ao horizonte.

O Grêmio começou a viver intensamente a segunda partida da decisão muito antes do pontapé inicial. Mais de 48 horas antes, quando a massa tomou o Aeroporto Salgado Filho na segunda-feira, dando todo o apoio do mundo aos seus heróis. A partir de então, as horas passavam em contagem regressiva. Não havia o que tirasse da cabeça tricolor a obsessão pelo tricampeonato. Porto Alegre, Buenos Aires ou qualquer outra cidade do mundo em que houvesse um gremista apaixonado já se adornava em três cores. Por fim, nesta quarta, à medida em que o horário do jogo se aproximava, a multidão tomava as ruas. Uma erupção de gente passou a ocupar a Avenida Goethe, a Arena ou qualquer local que se unisse em corrente de fé pelo título. Todos em conexão com La Fortaleza.

A casa do Lanús, afinal, se preparou da maneira devida para uma final de Copa Libertadores, a primeira de sua história. O estádio modesto, mas extremamente tradicional, ofereceu uma festa digna de competição sul-americana. A multidão grená cantou e pulou, se misturando aos papéis picados, às bobinas, às fumaças e aos fogos de artifício. De qualquer maneira, haviam outras cores que tomavam as arquibancadas. O azul, o preto e o branco pulsantes em um setor limitado, mas não menos barulhento. Cerca de cinco mil gremistas estiveram presentes na Argentina para serem testemunhas oculares da história.

A escalação inicial não trouxe grandes novidades. Tanto Lanús quanto Grêmio contaram com os seus desfalques já sabidos. Os argentinos não teriam Diego Braghieri no miolo de zaga, assim como Kannemann era a ausência sentida na defesa gremista. De resto, os demais protagonistas estavam todos em campo. Jorge Almirón confiava principalmente em José Sand e Lautaro Acosta, responsáveis por outras alegrias do Granate. Renato Portaluppi, por sua vez, tinha as suas próprias armas, calcadas no talento da espinha dorsal formada por Grohe, Geromel, Arthur e Luan. Mais do que isso, tinha seu plano de jogo, que funcionou à perfeição.

O primeiro tempo do Grêmio foi impecável. Renato se mostrou um perfeito estrategista, ainda que prefira se afastar destes rótulos. Usou toda a inteligência de quem atravessa uma vida em campo, e conhece os atalhos como poucos. Se o Lanús abraçava sua filosofia de manter a posse de bola e trabalhar os passes desde o campo de defesa, o Tricolor tratou de sufocá-lo. Demonstrou uma fome de quem só vê em seu horizonte a taça. Uma voracidade de quem parecia jogar em seus domínios. E uma coragem que se nota apenas nos grandes campeões. Assim, o Granate sofria. Claramente nervoso, errava demais. Via um adversário melhor e mais capaz à sua frente.

Foram cerca de 15 minutos com o Grêmio totalmente postado no seu campo de ataque. Aos poucos, o Lanús começou a se soltar. Mas não que incomodasse. Os tricolores eram seguros de si para fechar o espaço, para evitar construção dos grenás. E por mais que os gaúchos não fossem tão criativos no ataque, sabiam que jogavam por alguns lances certeiros. Estavam à espreita de decidir a partida. Algo que não demoraria a acontecer.

Como uma digna final de Libertadores, o jogo era bastante pegado. Desde os primeiros minutos os dois times trataram de apresentar as travas da chuteira, mostrando que não aliviariam nas entradas. Mas a rispidez ressaltava mais a vontade de vencer do que qualquer descontrole. E, na bola, o Grêmio era bastante superior. Em um coletivo engrenado, os destaques individuais se sobressaíam. Geromel e Bressan, este mesmo sob desconfianças, eram soberanos na defesa. Jaílson se desdobrava na proteção, enquanto Arthur mandava prender e soltar no meio. Luan, por sua vez, chamava a responsabilidade, muito ligado e participativo. O roteiro neste Tricolor, todavia, nem sempre segue o óbvio. E o placar se abriu aos 27 minutos, com Fernandinho.

Olhando para trás, o ponta parecia uma das contratações mais frustradas do Grêmio nos últimos anos. Chegou, ficou pouco e acabou emprestado ao Verona. Voltou, também não deu certo na segunda chance e foi repassado ao Flamengo. Até manifestou sua intenção de ficar na Gávea, mas aceitou a proposta do Tricolor e de Renato para compor o elenco em um ano tão importante. Não era titular. Ganhou espaço apenas depois da venda de Pedro Rocha. E não era exatamente o jogador mais querido, por mais que tenha feito algumas boas atuações, sobretudo contra o Botafogo. Na última quarta, não se saiu bem na Arena. Mas era uma arma útil em La Fortaleza, Renato sabia disso. E assim se cumpriu. Após um erro de Jose Luis Gómez, o camisa 21 partiu em disparada. Arrancou do campo de defesa. Correu mais do que todo mundo. Só parou dentro da área, para fuzilar o goleiro Andrada e celebrar. Era o gol que ratificava a superioridade gremista.

O Lanús tentou responder logo na sequência. Então, apareceu uma das grandes estrelas desta conquista: Marcelo Grohe. Fundamental na maioria dos jogos decisivos, o goleiro deu sua contribuição mais uma vez. Saltou para buscar uma cobrança de falta de Maxi Velázquez. E o Granate ficaria limitado a isso. Não daria sustos na confiança gremista. Aos poucos, os visitantes voltaram a se soltar. Avisaram em bola desviada por Arthur dentro da área e tentaram de novo em bom avanço de Luan. Até que o craque do time pegasse a bola e dissesse: “Deixem que eu resolvo. Deixem que eu eternizo o monstro que fui nesta campanha”. Aos 41, ele marcou o segundo gol.

A defesa não deu a devida importância ao passe longo de Jaílson. Luan, pelo contrário, acreditou e muito. Avançou num misto de elegância e total controle da situação. Passou por dois marcadores com a facilidade de quem dribla cones no treinamento. Não sentiu pressão de final de Libertadores, de rivalidade argentina, do alçapão em La Fortaleza. Teve o sangue gelado para, diante de Andrada, ainda tripudiar com uma belíssima cavadinha, para fazer a bola morrer mansa nas redes. Só então é que ele ferveu, na comemoração explosiva diante da torcida gremista. Craque, com todas as letras em maiúsculo.

E se os torcedores do Grêmio já cantavam mais alto que os grenás desde antes, as músicas tricolores ecoaram ainda mais no Ciudad de Lanús. Antes do intervalo, o Granate chegou com perigo uma vez, mas não teve a melhor pontaria para definir. O filme visto contra o River Plate, ao menos neste aspecto, não se repetiria com um tento que oferecesse injeção de ânimo ao final do primeiro tempo. Os tricolores eram senhores da noite, e só precisavam manter a mesma seriedade nos 45 minutos finais. A espera de 22 anos estava muito próxima de se encerrar.

O Grêmio não teria boas notícias no início do segundo tempo. Fazendo uma partida estupenda, Arthur sentiu lesão sofrida ainda na primeira etapa e precisou sair. No banco, chorou, como se não quisesse abandonar o campo por nada. Diante da vantagem, os tricolores se postavam um pouco mais na defesa, sem se expor tanto ao ímpeto dos argentinos. O Lanús, de qualquer forma, era inócuo. A zaga gaúcha mantinha a coesão, enquanto raras vezes os anfitriões ameaçavam a meta de Grohe. Sand foi quem mais assustou, em tiro para fora. Mas logo Barrios responderia, desperdiçando oportunidade melhor para o terceiro.

O tempo demorava a passar ao Grêmio. O time de Renato tinha que lidar com a insistência do Lanús, um adversário morno, mas do qual não se pode descuidar. Exatamente o que aconteceu aos 25. Um passe cirúrgico de Sand projetou Lautaro Acosta dentro da área e o ponta acabou derrubado por Jaílson. Pênalti claro. Na cobrança, Pepe Sand teve a tarimba que seus 37 anos sugerem, apenas deslocando Grohe. Neste momento, o Granate ainda precisaria de dois gols, com pouco mais de 20 minutos no relógio.

A reta final da partida se arrastou mais. O Lanús se postava inteiro no campo de ataque e, mesmo assim, tinha extremas dificuldades para abrir a defesa do Grêmio e finalizar. A entrada de mais atacantes pouco adiantou. Além disso, o Tricolor sabia travar o jogo, gastava o tempo, fazia a sua cera. Teve seus problemas também, especialmente quando Bressan, precisou ser substituído. E uma ponta de temor surgiu aos 37, quando Ramiro foi expulso ao se desentender com o árbitro. Com um a mais, o Granate partiu com tudo. Fez quase nada. Não tinha forças para tal. Melhores ainda eram os gremistas, que poderiam ter feito o terceiro aos 44, em mais uma cavadinha desaforada de Luan, que passou raspando a trave. Seriam mais cinco minutos de acréscimos. Cinco minutos mais até que o grito de tricampeão da América, enfim, rompesse os ares.

O que se viu na comemoração nada mais era do que a ânsia gremista pela Libertadores. O fervor que o clube tem por essa competição, e o orgulho em erupção após tanto tempo guardado no peito. A festa era dos cinco mil enlouquecidos nas arquibancadas. Do grupo que se abraçava êxtase dentro do gramado. Alguns jogadores, criticados antes mesmo de jogar. Mas que, no fim das contas, formaram realmente o melhor time do torneio continental em 2017. Que jogou bem, que agradou os olhos, que dignificou o futebol brasileiro após quatro anos de seca. Que, acima de tudo, apresentou uma vontade descomunal por erguer a taça. O direito merecido que tiveram ao final da noite em La Fortaleza, bem guardado nas mãos de Geromel.

O Grêmio consagra um elenco que, no papel, talvez parecesse pouco provável para ser campeão. Mas que, no campo, colocou a faixa no peito como senhor de seu destino. É um Grêmio que confirma em sua história nomes como Grohe, Geromel, Luan, Arthur e outros mais. E é um Grêmio que torna a grandeza de Renato Portaluppi incomparável. Uma lenda, cuja importância não se mede por 1983 ou 2017, mas apenas por aquilo que preenche o coração da nação tricolor. A multidão comemora nesta quarta, vai varar a madrugada rumo à quinta e atravessará dias extravasando os seus sentimentos. Porém, também consciente que o sonho não para aqui. Ele se expande e, dentro de algumas semanas, transbordará em Abu Dhabi.

Ficha técnica
Lanús 1×2 Grêmio

Local: Estádio La Fortaleza, em Lanús (ARG)
Árbitro: Enrique Cáceres (PAR)
Gols: Fernandinho, 27’/1°T; Luan, 41’/1°T; José Sand, 27’/2°T.
Cartões amarelos: Velázquez, García e Silva (LAN); Grohe, Edílson, Cortez, Jaílson e Ramiro (GRE)
Cartões vermelhos: Ramiro (GRE)

Lanús: Esteban Andrada, José Luis Gómez, Rolando García, Marcelo Herrera (Marcelino Moreno, aos 21’/2°T) e Maxi Velázquez (Germán Denis, aos 43’/2°T); Iván Marcone, Nicolás Pasquini e Román Martínez; Alejandro Silva (Matías Rojas, aos 33’/2°T), José Sand e Lautaro Acosta. Técnico: Jorge Almirón.

Grêmio: Marcelo Grohe, Edílson, Geromel, Bressan (Rafael Thyere, aos 37’/2°T) e Bruno Cortez; Jaílson e Arthur (Michel, aos 6’/2°T); Fernandinho (Everton, aos 12’/2°T), Luan e Ramiro; Barrios (Cícero, aos 31’/2°T). Técnico: Renato Portaluppi.