Enquanto os jogadores do Eintracht Frankfurt aguardavam no gramado do Estádio Olímpico de Berlim, ansiosos pela cerimônia que coroaria a reconquista da Copa da Alemanha após 30 anos, um senhor de sessenta e poucos anos entrou em cena, carregando o prêmio maior. E a empolgação era visível no rosto ou em qualquer gesto do veterano. A taça parecia se encaixar perfeitamente em suas mãos, mesmo quando ele a chacoalhava e festejava como se fosse mais um campeão. Nunca deixará de ser. Em sua juventude, aquele homem havia levantado o troféu quatro vezes. Antes que a bola rolasse, um bandeirão com sua imagem, capitão erguendo o Graal do Fussball justamente naquela celebração de 30 anos atrás, cobriu a torcida nas arquibancadas. Cada torcedor conhece a lenda que se materializou no pódio. Sabe o que ela representa à instituição. É Karl-Heinz Körbel, o ídolo que esteve presente nas quatro conquistas anteriores do clube na DFB Pokal. É o homem que encarna tudo o que o Eintracht Frankfurt significa.

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Há uma tentação de resumir Körbel aos números. É uma maneira fácil de dimensionar o jogador mais fiel da história do Eintracht Frankfurt. Foram 19 anos honrando a camisa do clube, e só dele; 720 jogos ao longo desta trajetória, recorde absoluto na agremiação; 602 aparições pela Bundesliga, que também é a maior marca da competição; cinco títulos, quase todos os importantes já conquistados pelas Águias. O mito, porém, não se erige na frieza da aritmética. Ele se constrói no dia a dia, de boca em boca, coração a coração. É um quadro que se cria com pinceladas vagarosamente sutis. E o emblema de Körbel se teceu a cada partida, passando por todos os títulos na Pokal.

Körbel não participou do principal título nacional do Eintracht Frankfurt, o Campeonato Alemão de 1958/59. Não esteve na final da Copa dos Campeões contra o Real Madrid em 1960, em derrota por 7 a 3 recontada tantas vezes. Quando chegou ainda amador do pequeno Dossenheim, em 1972, o garoto de 17 anos teve apenas o gosto de compartilhar os vestiários com os últimos remanescentes, e por breve tempo. Seria o zagueiro uma espécie de herdeiro, que não demorou a contribuir aos seus próprio feitos. Em 14 de outubro de 1972, em uma partida contra o mítico Bayern de Munique de Udo Lattek, a história começa. Logo em sua estreia como profissional, o adolescente imberbe teria a ingrata tarefa de marcar Gerd Müller. E considerando a devastação que o craque costumava causar, o gol marcado pelo centroavante não significa que o rapazote fracassou na missão. Afinal, a SGE venceu o duelo no Waldstadion por 2 a 1.

Em pouco tempo, Körbel se firmou no Eintracht Frankfurt. Virou “Charly”, adorado pelos torcedores, defensor combativo e que de vez em quando anotava seus golzinhos. E sua primeira façanha veio em 1973/74. Aos 19 anos, conquistou a Copa da Alemanha pela primeira vez. As Águias contavam com uma grande equipe, é verdade. Os protagonistas estavam no setor ofensivo: o polivalente Jürgen Grabowski e o feroz Bernd Hölzenbein, jogadores de qualidade técnica que, não à toa, compunham a seleção alemã ocidental e naquela mesma temporada seriam titulares na campanha que rendeu o título mundial. Além deles, vários coadjuvantes que se manteriam no clube por anos, como o goleiro Peter Kunter, o lateral Peter Reichel, o líbero Gert Trinklein e o meia Bernd Nickel. No comando, Dietrich Weise, que acabaria se tornando célebre justamente por sua importância no período.

Seria uma campanha memorável ao Eintracht Frankfurt. O primeiro épico aconteceu nas quartas de final, derrotando o Colônia de Wolfgang Overath na prorrogação, por 4 a 3, com três gols de Hölzenbein. Nas semifinais, em duelo de duas viradas, a vítima foi o Bayern, com Jürgen Kalb determinando a vitória por 3 a 2 aos 45 do segundo tempo. Por fim, a decisão guardou mais uma prorrogação no Rheinstadion de Düsseldorf. A SGE derrotou o Hamburgo por 3 a 1, tentos de Hölzenbein, Wolfgang Kraus e Gert Trinklein. Enquanto segurava as pontas atrás, Körbel permitiu que o companheiro de zaga avançasse para desequilibrar. Pela primeira vez, as Águias tinham seu nome gravado no troféu da Copa da Alemanha. Pela primeira vez, Charly segurava o prêmio dourado.

Naquela época, o Eintracht Frankfurt fazia boas campanhas na Bundesliga, mas sem se aproximar da Salva de Prata. Em compensação, era um time copeiro, e garantiu o bicampeonato da DFB Pokal em 1974/75. Körbel ganhava suas primeiras chances na seleção alemã, acumulando seis aparições pelo Nationalelf – em espaço que não permaneceu pelos anos seguintes. Ainda assim, o defensor se satisfazia no Waldstadion. E acabou sendo instrumental na nova conquista. As Águias encaravam o Duisburg na decisão, um jogo amarrado no Niedersachsenstadion. Aos 12 minutos do segundo tempo, após uma cobrança de escanteio, a bola pipocou na área e sobrou para Charly encher o pé. O tento ratificou a vitória por 1 a 0 e mais uma comemoração.

O copeirismo do Eintracht Frankfurt rompia fronteiras naquela época. As Águias também protagonizaram boas campanhas nos torneios continentais. Na Recopa Europeia de 1974/75, eliminaram o Monaco de Delio Onnis, antes de caírem para o Dynamo Kiev – futuro campeão do certame e estrelado por Oleg Blokhin, Bola de Ouro naquele ano. Na temporada seguinte, também na Recopa, deixaram pelo caminho o Atlético de Madrid, vice da Champions dois anos antes, então treinado por Luis Aragonés. Pararam apenas nas semifinais, vendendo caro o revés para o West Ham de Trevor Brooking. Já a glória maior aconteceu em 1979/80, após um quinto lugar na Bundesliga que rendeu vaga na Copa da Uefa.

Quadrifinalista do torneio em 1977/78, eliminando o Bayern nas oitavas, o Eintracht Frankfurt atravessava um período de transição ao final daquela década. Vários dos protagonistas no bicampeonato da DFB Pokal já tinham deixado o Waldstadion. Charly Körbel tornava-se cada vez mais uma liderança no processo de renovação do grupo. E, com ótimos valores, as Águias dominaram o torneio continental. Entre os reforços, estavam o zagueiro austríaco Bruno Pezzey e, sobretudo, o sul-coreano Cha Bum Kun. A integração do asiático dependeu de um esforço coletivo dos alemães, se abrindo ao novato. Ganharam um atacante de completo e com grande potência física.

O sucesso do Eintracht Frankfurt na Copa da Uefa dependeu bastante do bom desempenho no Waldstadion. E não foram poucos os adversários de peso eliminados ao longo da jornada: o Aberdeen, o Dinamo Bucareste, o Feyenoord, o Zbrojovka Brno – todos clubes de relevo em seus países e com atletas de destaque nas seleções nacionais. Durante as semifinais, as Águias superaram de novo o Bayern, com Karl-Heinz Rummenigge e Paul Breitner do outro lado. Por fim, mais um desafio alemão: o Borussia Mönchengladbach, comandado por um antigo ídolo do clube, um tal de Jupp Heynckes. Contando com o talento em erupção de Lothar Matthäus, além de jogadores importantes como Christian Kulik e Wilfried Hannes, o Gladbach venceu por 3 a 2 o jogo de ida. Já na volta, a estrela da sorte foi o garoto Fred Schaub, que saiu do banco para anotar o gol do título, determinando a vitória por 1 a 0 dentro do Waldstadion. Körbel regozijava.

Na esteira da Copa da Uefa, o Eintracht Frankfurt voltou a se provar na Copa da Alemanha durante a temporada seguinte. Körbel permanecia firme na zaga, formando uma dupla sólida com Pezzey. Deixando pelo caminho o forte Stuttgart de Hansi Müller, Bernd Förster e Karlheinz Förster,  as Águias alcançaram a decisão no Neckarstadion. Em atuação tranquila, a SGE maltratou o Kaiserslautern, de defesa comandada por Hans-Peter Briegel e pelo goleiro Ronnie Hellström. Abriu três gols de vantagem com folga e só permitiu que os Diabos Vermelhos descontassem no fim, fechando o placar em 3 a 1. A entrega da taça foi o ato final do capitão Hölzenbein, despedindo-se da torcida, rumo à NASL. A partir de então, a braçadeira ficaria com Charly.

E em meio a campanhas medíocres na Bundesliga, o Eintracht Frankfurt se reencontrou com sua costumeira glória em 1987/88. Naquele momento, Körbel era o único remanescente não só do bicampeonato, como também do título de 1981. A equipe totalmente modificada das Águias contava com jogadores tarimbados, ainda assim, como o goleiro Uli Stein e o atacante Wlodzimierz Smolarek, além de Lajos Détári, grande nome do futebol húngaro na época. A SGE se valia também de jogadores que despontavam das categorias de base, e que em pouco tempo se tornariam instrumentais, como Manfred Binz e Andreas Möller.

Aquela foi a jornada mais longa do Eintracht Frankfurt, entre seus quatro primeiros títulos na Copa da Alemanha. A equipe precisou disputar seis partidas, superando o Werder Bremen de Otto Rehhagel na semifinal. Por fim, na decisão, o Bochum surgiu como azarão à sua frente. Zebra espantada por Détári, num golaço de falta para definir a vitória por 1 a 0. Então, veio a imagem eterna. Capitão, Körbel recebeu a taça nas tribunas do Estádio Olímpico de Berlim. A fotografia que, 30 anos depois, voltaria ao mesmo templo, estendida como bandeirão pela torcida devotada ao seu velho ídolo.

Charly aposentou-se três anos depois, em 1991. Saiu em um momento no qual tinha certeza que seu legado seria mantido, diante de um Eintracht Frankfurt que começava a brigar pelas cabeças na Bundesliga. Despedia-se aos 37 anos, sob a certeza de que, se não foi um zagueiro de seleção, a dedicação empreendida em mais de setecentas partidas garantia sua eternidade junto às Águias. E nem assim o ídolo se distanciou da SGE. Continuou trabalhando como assistente técnico. Por lá, em 1994/95, reencontrava-se com uma figura central nesta história: Jupp Heynckes.

Quando o Eintracht Frankfurt contratou Heynckes, esperava ter o comandante perfeito para romper seu jejum de três décadas no Campeonato Alemão. O time se manteve entre os cinco primeiros colocados nas cinco temporadas anteriores, mas faltava algo para dar o passo decisivo. A maior frustração aconteceu em 1991/92, quando a Salva de Prata saiu das mãos na última rodada. E o treinador tinha um timaço a liderar, encabeçado por Tony Yeboah, Jay-Jay Okocha e Maurizio Gaudino. Os três astros, contudo, logo tornariam-se problemas ao veterano. Não escondiam o descontentamento com a rigidez de Heynckes e, diante daquilo que o técnico avaliou como “corpo mole” em um treino, foram obrigados a uma sessão pesada de atividades, o que rompeu a relação de vez. O trio foi suspenso durante todo o segundo turno e a equipe perambulou no meio da tabela na Bundesliga. Resultado: o multicampeão foi demitido em abril e, sem clima, Gaudino e Yeboah saíram na temporada seguinte.

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Körbel se tornou o bombeiro ao final da temporada e continuou como técnico para a Bundesliga 1995/96. Fato é que o Eintracht Frankfurt perdeu o fio da meada e, mesmo com um elenco qualificado, fez uma campanha claudicante. Charly deixou o emprego a nove rodadas do fim do campeonato, com o time uma posição acima da zona do rebaixamento, e sequer a chegada de Dragoslav Stepanović, comandante em parte dos sucessos no início da década, ajudou. Com apenas uma vitória nesta reta final da campanha, as Águias sofreram o primeiro rebaixamento de sua história. A torcida não culpou Körbel ou Stepanović. Para eles, o bode expiatório era Jupp Heynckes, o responsável por azedar o clima no Waldstadion e iniciar o período de declínio na SGE. O antigo assistente, ainda assim, defende as atitudes do veterano e diz que não havia outra forma para manter sua autoridade senão aquelas suspensões.

Não foram os lamentos que afastaram Körbel do cotidiano em Frankfurt ou diminuíram o respeito por sua aura. A lenda passou a trabalhar nos bastidores, primeiro como olheiro, até criar as escolinhas oficiais do clube em 2001, as quais chefia até hoje. De perto, viu as sucessivas frustrações e alegrias da SGE, incluindo o vice-campeonato na Copa da Alemanha em 2006, com a derrota ante o Bayern. Nos últimos tempos, se aproximou de Niko Kovac, o treinador responsável pelos momentos mais felizes no Waldstadion desde o início da década de 1990. Na temporada passada, a DFB Pokal não veio, com o time sendo batido na final pelo Borussia Dortmund. Até que a nova chance se colocasse contra o Bayern. Contra Heynckes, no último jogo antes de sua aposentadoria (ao que tudo indica) definitiva. Embaixador da decisão, Charly deu sua contribuição ao conversar com os jogadores e recontar as suas experiências. Não foram poucas histórias.

Alguns torcedores do Eintracht Frankfurt poderiam tratar a ocasião como uma revanche pessoal com Heynckes. Para a maioria, era um reencontro com a história. E o personagem mais importante do passado não era o “treinador responsável pela desgraça”, mas sim o ídolo que simboliza as grandes glórias. Por quatro vezes, vestindo a camisa da SGE, Körbel levantou o troféu da DFB Pokal. Na quinta vez, o deixou no pedestal para que os capitães David Abraham e Alexander Meier compartilhassem a alegria de erguê-lo – assim como outras tantas figuras, com menção especial a Marco Russ, formado pela base e que superou um câncer recentemente. É por esses heróis que as Águias romperam sua espera de 30 anos. Foi para ver Charly, em vida e lenda, reaparecer apoteoticamente no Estádio Olímpico que o consagrou. A taça sempre esteve em mãos seguras no Waldstadion, mesmo as mais cansadas.