São 12 anos de Cruzeiro. Fábio tem seu lugar na história celeste, isso é indubitável. Participou de campanhas memoráveis, viveu momentos sublimes, transformou-se no símbolo de uma era na Toca da Raposa. Disputou mais partidas pelo clube do que qualquer outro jogador, tantas delas com atuações fantásticas. E o bicampeonato brasileiro referendou a sua trajetória. Mas faltava uma grande conquista em mata-matas, além dos limites do estado. Faltava um troféu que o consagrasse de vez como herói. Alguns torcedores mais céticos o cobravam por isso. Pois, às vésperas de completar 37 anos, o goleiro ergueu uma taça para chamar de sua. Uma noite que será sempre lembrada por sua atuação. Afinal, esta foi a Copa do Brasil do Fábio. Uma Copa do Brasil alcançada através de suas luvas salvadoras.

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Que não se negue a grandeza de Fábio para o Cruzeiro, os últimos meses não foram tão fáceis para o veterano. Uma séria lesão nos ligamentos do joelho o afastou dos gramados durante o segundo semestre de 2016. Rafael entrou em seu lugar e deu conta do recado, fazendo ótimas partidas. Parecia uma aposta certa para o futuro da Raposa. Durante o início deste ano, ainda existiu uma disputa pela posição, com os dois arqueiros se revezando. A partir do início do Campeonato Brasileiro, contudo, Fábio retomou o seu lugar de vez. Faz uma competição bastante satisfatória, com grandes atuações ao longo da campanha. Ainda assim, qualquer vacilação reacendia as críticas. Relembrava que Rafael, um goleiro com mais potencial e em boa fase até então, estava à sua sombra.

A Copa do Brasil, por fim, serviu de redenção a Fábio. Rafael jogou durante as fases iniciais. A passagem de cetro aconteceu no duelo contra a Chapecoense, nas oitavas de final. O veterano entrou e realizou boas defesas na tensa partida na Arena Condá, ajudando a segurar o placar zerado, suficiente para a classificação. Diante do Palmeiras, não teve atuações tão impressionantes, mas se redimiria contra o Grêmio. O jogo em Porto Alegre foi agridoce. Apesar de operar duas defesaças, acabou batendo roupa no lance que deu a vitória aos tricolores.  Já na volta, salvou um gol que poderia ter sido fatal, além de selar a classificação na disputa por pênaltis, ao pegar a cobrança de Luan. Um prólogo para o que aconteceria na final.

Se os dois jogos contra o Flamengo ficaram devendo em qualidade, Fábio deu sua contribuição para os 180 minutos serem pouco movimentados. Diante de todos os problemas na meta rubro-negra, a diferença na segurança transmitida pelo veterano era gritante. Efetuou três grandes defesas no Maracanã, inclusive no lance do gol flamenguista, quando já estava batido no momento em que a bola entrou. E se agigantou em seu velho Gigante da Pampulha. Sem que o Fla assustasse, era soberano nas saídas pelo alto. Até se sair brilhantemente quando exigido. Guerrero poderia muito bem ter feito o gol do título. Chutou forte, no alto, com confiança. Parou nas mãos salvadoras de Fábio, aos 42 minutos do segundo tempo. Em um jogo sem gols, foi a defesa do título. Até que, nos pênaltis, o herói se confirmasse.

A cobrança de Guerrero, por baixo de Fábio, fez aquela ala mais crítica de cruzeirenses colocar as mãos na cabeça, já pensando na velha sina acusada sobre o ídolo. Juan deixou seu antigo companheiro de Seleção fora da foto. Até que Diego fosse para o chute. Que existam deméritos do batedor, é imperativo tratar o goleiro como protagonista em uma disputa por pênaltis. O responsável por carregar todas as esperanças em suas luvas. Por se sacrificar continuamente à espera de uma bola que exploda em suas mãos, que de vida à sua torcida. E ela veio dos pés de Diego, forte, mas pedindo para ser defendida. Fábio espalmou. Trauco ainda converteria o seu, mas, quando Thiago Neves fechou a contagem, todos saíram correndo para abraçar o veterano. Para reconhecer a sua grandeza. A sua ascendência sobre grupo. A sua história, que ganhava o capítulo mais cintilante.

Antes das cobranças, Fábio recebeu o apoio de Rafael. O reserva continua como uma sombra, e deve ser o dono da posição em um futuro que, por enquanto, fica impossível de se estipular. Independentemente disso, acaba sendo o discípulo de um dos melhores goleiros brasileiros das últimas décadas. De um gigante histórico do Cruzeiro. Do ídolo que, apesar dos momentos de desconfiança, será muito mais lembrado pelas grandes defesas e por aquilo que construiu. Especialmente, pela reconquista de um torneio tão representativo no passado celeste, e que retorna ao clube por sua direta intervenção.

Fábio possui contrato com o Cruzeiro até julho do ano que vem. A classificação à Libertadores serve de motivação não apenas para ampliar seu vínculo por mais alguns meses, como também para reavivar um sonho antigo. E o discurso depois do título no Mineirão, relembrando os momentos de superação recentes, demonstram bastante a sua vontade para seguir em frente. Para se eternizar um pouco mais, em um lugar que já é seu, em um lugar que é único. Agora, um pouco mais brilhante.