O Rey de Copas volta a imperar na América do Sul. O Independiente não sentou no trono que foi seu por sete vezes, a Libertadores, mas a conquista da Copa Sul-Americana recobra aos torcedores o direito de proclamarem sua grandeza continental. Depois de sete anos de seu primeiro título, o Rojo alcança o bicampeonato da competição com todos os méritos. Que ainda se questione a arbitragem, foi uma equipe mais organizada que o Flamengo ao longo dos 180 minutos de futebol e, depois da vitória por 2 a 1 em Avellaneda, buscou o empate por 1 a 1 no Rio de Janeiro. O Maracanã lotado não intimidou os visitantes, que mantiveram os seus nervos sob controle durante a maior parte do tempo e afogaram os rubro-negros em suas próprias debilidades. É o 12° troféu do clube em torneios da Conmebol.

A grande novidade de Reinaldo Rueda no time titular foi o retorno de Everton. E a surpresa ficou por conta de quem acabou deixando a escalação. Ao contrário do que alguns poderiam prever, Lucas Paquetá ficou. O treinador preferiu privilegiar a entrega e a incisividade do jovem, mandando para o banco Everton Ribeiro. Ariel Holan, por sua vez, entrou com Nicolás Domingo e Fernando Amorebieta, nas vagas de Gastón Silva e Juan Sánchez Miño, ganhando mais presença física. Uma pena que, antes que a bola rolasse, as imagens do Maracanã não fossem tão boas. Muita confusão aconteceu nos portões do estádio. Ao menos quando os atletas entraram em campo, prevaleceu a festa nas arquibancadas, sem sinais de maiores tumultos.

Como era de se esperar, o Flamengo começou a partida com mais iniciativa. O Independiente se preocupava em se resguardar no campo defensivo, diante das investidas dos rubro-negros. O time da casa buscava avançar em velocidade e incomodou durante os primeiros minutos, especialmente pelas pontas. Everton parecia querer jogar por todo o tempo ausente, aparecendo bastante. Primeiro, deu um cruzamento para Vizeu que o centroavante não conseguiu concluir. Já aos 12 minutos, saiu de frente para o gol, mas bateu em cima do goleiro Campaña, que fez boa defesa. Além dele, quem também não sentia o peso do jogo era Paquetá. O garoto era um dos mais acesos e protagonizou grande lance na linha de fundo, mas bateu mal.

À medida que o tempo foi passando, o Flamengo passou a expor sua tensão. E o Independiente saiu para o jogo, buscando espaços no ataque. César chegou a fazer uma boa saída, enquanto os rubro-negros recuavam. Apresentavam uma marcação compacta, mas também chamavam os argentinos para o seu campo. Era necessário encontrar um desafogo no ataque. E ele viria nas bolas paradas.

Brigando bastante nas divididas, o Flamengo deu um aviso aos 25, em rara aparição de Diego, que bateu travado. Quatro minutos depois, os cariocas abriram o placar. Cobrança de falta erguida na área que contou com três desvios no meio do caminho, até que Paquetá completasse quase na linha do gol. A torcida explodia, confiante no que poderia vir. Já o prata da casa comemorou de maneira expressiva, em uma reverência às arquibancadas. Era uma vantagem compreensível, por aquilo que os flamenguistas jogavam até o momento.

A situação parecia desfavorável ao Independiente também pela lesão de Martín Benítez, substituído por Lucas Albertengo. No entanto, um lance isolado acabou mudando o destino ao Rojo. Em disputa dentro da área, Maximiliano Meza caiu na área após contato com Cuéllar. O árbitro assinalou o pênalti, depois da revisão no vídeo – em marcação que, ainda assim, nunca vai gerar consenso na discussão. Na cobrança, Ezequiel Barco teve uma calma imensa para deslocar César e converter, mandando no canto. Mostra da maturidade do garoto de 18 anos, grande talento do clube de Avellaneda nesta campanha e excepcional na finalíssima.

O Flamengo demorou a se recobrar depois do gol. Nos nove minutos restantes do primeiro tempo, buscou pressionar, mas tinha grandes dificuldades para invadir a área. A criação não existia, com Diego apagadíssimo e raras aproximações dos volantes. O coletivo rubro-negro não funcionava. E por mais que o time tenha voltado com mais ímpeto do intervalo, a produtividade não mudou muito. A melhor chance dependeu de uma jogada individual de Paquetá, que arrancou pelo meio e fez fila, mas parou em Campaña.

Aos dez minutos, Rueda usou sua primeira alteração. Tirou Trauco, que não vinha participando tanto do ataque desta vez, recuou Everton para a lateral e apostou em Vinícius Júnior. Logo em sua primeira bola, o garoto já partiu para cima e bateu sem direção. O Flamengo precisava desta vontade. Mas logo o time tomaria seu maior susto, aos 13 minutos. Réver perdeu uma bola na intermediária e permitiu o contra-ataque do Independiente. Gigliotti ganhou de Cuéllar na corrida e, por cobertura, tocou na saída de César. Para a sorte dos rubro-negros, Juan apareceu de maneira incrível para salvar quase em cima da linha. Fez o único movimento possível para evitar o gol, já pressionado, em lance com um quê de sobrenatural.

O Flamengo sentiu o baque. Tentava pressionar, mas não tinha o mínimo de aproximação e acabava limitado aos cruzamentos a esmo. Era só pressa, sem pensamento. Além disso, o Independiente sabia esfriar o jogo e sempre assustava nos contra-ataques, com a defesa carioca pouco protegida. Por sorte dos anfitriões, as finalizações do Rojo não saíam da melhor maneira. Os rubro-negros, pior de tudo, ainda erravam muitas vezes na saída de bola. Os ponteiros do relógio eram impiedosos com a torcida flamenguista, que ainda se assustou quando César caiu em campo e ficou por minutos recebendo atendimento, aparentemente desacordado.

Aos 33, Everton Ribeiro entrou no lugar de Cuéllar, para tentar melhorar a pouco imaginativa armação. Já estava claro que, se o milagre viesse, dependeria de um lance. E o grito ficou preso na garganta logo na sequência, em cabeçada muito perigosa de Réver. Já a última cartada do Flamengo foi outro garoto da base, Lincoln, substituindo o extenuado Lucas Paquetá – melhor rubro-negro da noite. Enquanto isso, Holan fazia suas últimas trocas e ganhava consistência, com Gastón Silva e Sánchez Miño.

Era impressionante a tranquilidade que o Independiente mantinha, para trabalhar a bola e buscar o ataque. E, aos 40 minutos, o sufocamento anunciou a iminente morte dos rubro-negros na competição. Até mesmo as certezas caíram, com Juan errando e permitindo outra ótima chance a Gigliotti, que bateu para fora. Por fim, a confirmação de que o título não viria aconteceu aos 47, em bola que pipocou na área argentina. Ela sobrou limpa para Réver, com Campaña deslocado de sua meta, mas o capitão bateu por cima do travessão, mesmo com o gol aberto. Esvaiu-se a última das esperanças. O árbitro, motivo de insatisfação dos flamenguistas em diversos momentos, sequer deu os três minutos de acréscimos prometidos – já insuficientes pelas diversas paralisações. O júbilo do Rojo ao apito final contrastava com a frustração total dos anfitriões. A torcida protestava contra o time nas arquibancadas.

O Independiente, por aquilo que jogou, foi um campeão justo. Demonstrou muito mais organização e qualidade coletiva, sabendo trabalhar com a bola. Tem bons jogadores e um padrão de jogo que valoriza isso. Méritos principalmente de Ariel Holan, o treinador responsável por comandar este sucesso. Passou por momentos difíceis em Avellaneda, mas viveu sua redenção nesta Sul-Americana, com uma excelente campanha do Rojo. É o responsável por recolocar o time no alto do pódio e também na Libertadores, depois de seis anos longe do torneio. Além disso, os argentinos disputarão a Recopa contra o Grêmio, assim como foi em 1996.

O Flamengo, por sua vez, precisa ter autocrítica. Se houve algo positivo nesta decisão, foi a participação dos garotos da base. Paquetá, Vizeu, Vinícius Júnior e Lincoln resumiram toda a vontade dentro de campo, por mais que nem sempre tenham acertado. Algo que faltou na maioria absoluta das estrelas, especialmente Diego – sobre quem tanto se fala, mas pouco se vê. De qualquer maneira, o papel tão proeminente de tantos adolescentes expõe as falhas da diretoria, especialmente quando se gasta milhões. Resta saber como se dará o planejamento no próximo ano. A cobrança precisa existir. É o caminho para se reerguer, enquanto se assiste à glória do Independiente, um clube que tanto sabe jogar as competições (e as decisões) continentais.