O Wolverhampton volta à Premier League com uma campanha histórica na Championship. Após seis anos longe da elite do futebol inglês, o clube passou por suas dificuldades, inclusive caindo para a terceira divisão. No entanto, a campanha de retorno acaba de maneira irrepreensível. Os Wolves sobraram ao longo da Championship, montando um elenco fortíssimo e protagonizando diversas vitórias épicas. Não à toa, dá a impressão que pode ir além de ser um mero candidato à permanência na primeira divisão, almejando também objetivos mais altos.

E para reviver a epopeia ao longo dos últimos meses, o site do clube publicou um belo texto assinado por Paul Berry, torcedor do clube e ex-funcionário do departamento de imprensa. É interessante principalmente por transmitir situações internas que apenas quem viveu a jornada de perto pôde captar. O artigo ressalta a importância do técnico Nuno Espírito Santo e do Grupo Fosun, companhia de origem chinesa que administra o clube, assim como de outros personagens. Em especial, o goleiro Carl Ikeme, ídolo da torcida, que descobriu uma leucemia durante o início da temporada.

Abaixo, traduzimos o relato. Confira:

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“Espero poder ajudar a construir um novo futuro aqui. Acredito no projeto. Acredito nas ideias e confio nas pessoas”.

Primeiro de junho de 2017: Nuno Espírito Santo é apresentado em uma lotada coletiva de imprensa no Estádio Molineux. E uma nova aventura, uma aventura de Nuno, nasceu.

Depois do primeiro ano com os novos donos, e uma temporada de sentimentos mistos, com o heroísmo na dramática FA Cup contrabalanceado pela campanha no meio da tabela na Championship, o Grupo Fosun optou em mudar o técnico, com Paul Lambert tomando seu caminho e Nuno chegando. Os torcedores dos Wolves sem conhecimento sobre futebol da Europa continental talvez tenham se visto no Google, cavucando detalhes do novo homem, informações sobre seus trabalhos anteriores no Valencia e no Porto. Bem, se haviam aqueles que não sabiam muito sobre Nuno, agora, eles sabem tudo sobre ele.

Uns 317 dias depois desse evento inaugural no Molineux, os Wolves de Nuno – um renovado e revigorado time – está celebrando o acesso de volta ao Santo Graal da Premier League e a chance de jantar na mesa principal do futebol inglês pela primeira vez em seis anos, quando três temporadas sucessivas inspiradas por Mick McCarthy chegaram a um final desesperadamente desapontador.

Aconteceram, logicamente, alguns grandes altos e baixos durante o período desde 2012. Um rebaixamento duplo e um clube parecendo em queda livre, mas então restabelecido por Kenny Jackett e de volta à Championship com uma rápida, mas recordista, estadia na League One. Poderia esse impulso pela ascensão continuar? Poderiam os Wolves retornar à terra prometida? Muito perto na primeira temporada, terminando fora da zona dos playoffs apenas pelo saldo de gols, mas infelizmente não tão próximos nos dois anos seguintes.

Entra Nuno. Alia-se à ambição do Grupo Fosun e dirige o clube para um futuro muito diferente. E ganha uma série de novas contratações. De jogadores estabelecidos e bem conhecidos – John Ruddy, Ryan Bennett, Barry Douglas – aos mais inesperados – Rúben Neves, Willy Boly, Léo Bonatini, Diogo Jota. Uma mistura rarefeita de origens e personalidades, a chegada de tantos sem qualquer experiência na Inglaterra – e muito menos na Championship – suscitou questões sobre o que iria acontecer. Como isso funcionará? Como poderá funcionar? “Vocês serão a vergonha no inverno”.

No entanto, “Nuno teve um sonho, construir um time de futebol”. E essa era a missão que começou a perseguir desde o seu primeiro dia no comando. No campo de treinamentos, dia a dia, o trabalho sobre o futebol começou. Trabalho físico. Trabalho tático. Um novo e distinto estilo, com “cinco atrás e velocidade no ataque”. A qualidade de Neves, Jota e Boly logo brilhou. Bonatini também, com um fluxo precoce de gols. Juntamente de uma linha defensiva sólida, com a experiência de Ruddy no gol. Douglas e Matt Doherty estiveram inspirados como alas, Conor Coady se revitalizou como um líbero majestoso, Batth, Saïss, N’Diaye, Bennett, Costa, Cavaleiro, Afobe e muitos mais – todos que fizeram sua parte sobre o que sempre foi provar a usualmente longa e dura temporada na Championship.

Quando falamos sobre a maratona cansativa de uma campanha na segunda divisão, muitos se referem quase sempre a pontos de virada, momentos em que a sorte muda dramaticamente, e ainda com os Wolves isso foi incontável. Talvez naquele dia de estreia, quando um time com seis estreantes na Championship passou por um duro teste contra um adversário calejado como o Middlesbrough, recém-rebaixado e entre os favoritos ao acesso. Rapidamente vencendo o bem-sucedido Derby e o Hull para aumentar os níveis de expectativa, um heroico dérbi local contra o Aston Villa, levar o Manchester City à disputa de pênaltis na Copa da Liga. A épica vitória no final contra o Bristol City, as fantásticas sextas em Middlesbrough e Cardiff, um realmente inacreditável gol do “garoto prodígio do Porto” contra o Derby.

Grandes momentos? Há tantos para escolher. E isso não é apenas sobre qualidade, mas também caráter e personalidade de um elenco cosmopolita, que respondeu a vários contratempos com renovada determinação e vigor. Igualmente, eles foram apoiados por uma torcida ferozmente fiel, que se engajou firmemente em apoio à nova era dos Wolves e fez do Molineux o lugar mais quente da cidade, com arquibancadas lotadas. Eles também escreveram em blogs, falaram em podcasts e cresceram como nunca se viu antes, assim como a estratosfera da internet se tornou um terreno fértil para torcedores revitalizados abertamente abraçarem a causa e saudarem os sucessos em uma temporada marcante.

E tudo isso com as por vezes calmas, e igualmente por vezes ferozmente apaixonadas, mãos de Nuno no leme. Únicas para captar a atenção da mídia, as mensagens semanais de Nuno nas coletivas de imprensa raramente se desviaram de falar sobre a ética do time, um jogo por vez, e nunca se deixaram levar para longe. Tratando sobre a força do grupo, a importância da união. Sua abordagem prefere falar, ou ao menos deixar seu time falar, dentro do campo de treinamentos ou durante as partidas. É justo dizer que esta maneira provou ser um sucesso retumbante. E todo esse sucesso, tudo o que tem sido jogado no gramado, transpirou em meio aos bastidores do clube, que recebeu notícias bombásticas durante a pré-temporada.

Vestiários de futebol são locais de trabalho bastante estoicos e inflexíveis. Não há lugar para os fracos de coração ou para os sem vontade. Um lugar onde os impostores esportivos do triunfo e do desastre são tratados da mesma maneira, sem medo ou benevolência. Mas quando Nuno deu as notícias no início de julho, que Carl Ikeme foi diagnosticado com uma leucemia aguda, o vestiário de Compton se tornou uma cena de choque, silêncio e lágrimas.

Não Carl, não o grande homem, em sua melhor forma, no auge de seus poderes como goleiro. Não Carl, que estivera suando sem reclamar em seus testes físicos na academia, ao lado do grande amigo Matt Murray. E, no entanto, se houve alguma vez um evento que uniu todo o clube – comissão técnica, jogadores e torcedores – aconteceu ao responder as notícias devastadoras.

O amor genuíno e a afeição ao jogador mais antigo do clube foram à tona, com uma série de iniciativas para levantar uma extraordinária quantia em dinheiro para a instituição Cure Leukaemia, cantando seu nome nos jogos dentro e fora de casa, e erguendo uma bandeira de apoio no Molineux e em outros tantos estádios ao longo da Championship. Carl continua a assistir e a apoiar cada passo no caminho, enquanto se submete ao tratamento. E no dia quando ele voltar ao Molineux pela primeira vez, certamente haverá muitas mais lágrimas, mas por razões gritantemente contrastantes.

E houve outra dor para a família dos Wolves no início do ano, com a repentina morte de John ‘Fozzie’ Hendley, que por anos trabalhou como assessor de imprensa e editor de revistas do clube. Fozzie participou de mais de mil jogos consecutivos do time, depois dos quais ele compilava o relatório para o site, e sua morte prematura deixou um buraco no clube. Talvez fosse apropriado que sua última partida fosse a virada contra o Bristol City, que culminou na cabeçada dramática de Ryan Bennett para o gol da vitória, e igualmente apropriado que seu funeral estivesse lotado, com vários tributos emocionados. E também aconteceu a perda de Terry Carver, que por anos cuidou do gramado do Molineux, falecendo em março. Muitos torcedores ainda terão muitos entes queridos para relembrar, com quem não puderam partilhar as memórias de uma temporada tão marcante.

A partir de agora, com a sabedoria do futebol, será sobre ansiar o futuro. O que essa equipe pode conseguir, enquanto troca a lama implacável da Championship por uma liga considerada o maior show do planeta. Entre as muitas linhas de positividade sobre o que aconteceu nos últimos nove meses, o estilo do futebol moldado ao principal escalão certamente já está em vigor. Sem dúvidas, Nuno continuará com seu próprio jeito e em seu próprio caminho, como seus dois predecessores em conquistar a promoção fizeram no Molineux durante a última década. Esse é um elenco muito diferente em relação ao que ascendeu à Premier League em 2009, e também daqueles que abalaram a League One cinco anos atrás, mas todos os cinco merecem grandes créditos por seus jeitos diferentes.

Agora, seguimos para o futuro e empurrando o clube com os donos, que estão fortemente comprometidos em estabelecer os Wolves não apenas como um time de elite, mas mais pertinentemente, como uma força na primeira divisão. Um par de linhas da música que acompanhou a insaciável busca pelo acesso foram, não tão sutilmente, usadas neste artigo. E o verso final da música talvez seja o mais adequado para terminar, reunindo perfeitamente o passado, o presente e o futuro.

Sim, de fato, “somos Wolverhampton, estamos em nosso caminho de volta”.