No seu nível técnico atual, a seleção da Holanda realmente não merecia disputar a Copa do Mundo. A derrota para a Bulgária, a inapelável goleada sofrida para a França, a atuação abaixo da crítica na rodada passada contra Belarus… enfim, nada fazia crer que a Laranja conseguiria a vitória por sete gols de diferença que era necessária contra a Suécia, nesta quarta, na Amsterdam Arena. Não conseguiu. Mas pelo menos, despediu-se com um triunfo por 2 a 0. E se ele veio, foi por obra e graça de um jogador que fez, oficialmente, a última de suas 96 partidas pela Oranje: Arjen Robben.

Está certo que as mudanças feitas por Dick Advocaat na escalação ajudaram a seleção holandesa a jogar melhor: as laterais ficaram mais aceleradas e ofensivas com Nathan Aké e Kenny Tete. E Daley Blind trouxe qualidade à saída de bola. Ainda assim, se houve um dos onze jogadores que desde o começo sabia o que a partida poderia significar, foi Robben. A começar pelas furtivas lágrimas nos olhos, durante “Het Wilhelmus”, o hino nacional da Holanda.

Logo que o jogo começou, Robben deixou claro que era dele que a Holanda poderia esperar algo. Fosse pela esquerda, tentando a jogada que é sua marca registrada, fosse tentando distribuir o jogo pelo meio, o capitão holandês apareceu sempre. Claro, alguns coadjuvantes também ajudaram. Como Ryan Babel, que tentava jogadas individuais. Foi graças a um desvio dele que Robben pôde se destacar pela primeira vez, aos 16 minutos: a bola tocada por Babel resvalou na mão de Victor Lindelöf. Nem foi nada acintoso, mas o juiz russo Sergei Karasev já achou pênalti. E marcou. Robben arriscou a cavadinha, e até pegou mal na bola. Quase errou, mas veio o 1 a 0. E o camisa 11 correu para o gol, pegando a bola de volta para que o jogo recomeçasse logo.

O nativo de Bedum continuou. Dominando a bola, fazendo jogadas, chamando a responsabilidade. Como se quisesse dizer, com a esférica nos pés, que não merecia a pecha de “amarelão” que o vitimou por muito tempo, tanto nos clubes quanto vestindo Laranja. Como se pudesse, sozinho, reverter o destino amargo que a Holanda teria. De todo modo, animou a torcida com o golaço que fez aos 40 minutos: após um passe de Babel, bateu de primeira, com a perna esquerda que o fez famoso no futebol mundial, diretamente no canto esquerdo de Robin Olsen, que nada pôde fazer. O último, dos 37 que marcou pela seleção holandesa, desde 2003.

Com a entrada de Bas Dost, a aposta holandesa seria nas bolas aéreas, durante o segundo tempo, para tentar os cinco gols que faltavam. Não demorou muito para notar que não daria certo. Primeiro, porque a Suécia se reorganizou defensivamente, segurando bem as inócuas tentativas dos anfitriões na Amsterdam Arena. Depois, porque os próprios jogadores holandeses se cansaram, tal a rapidez e o esforço vistos no primeiro tempo. E o segundo tempo se arrastou, até o final previsível, com a confirmação da ausência holandesa na Copa.

O símbolo da derrocada holandesa, talvez, esteve nos últimos minutos de Robben em campo. Com cãibras e dores no tornozelo, o camisa 11 mancava. Mal conseguia cercar os suecos, que trocavam passes. Mas a torcida reconhecia o esforço. Apagava as más lembranças – como aquele gol perdido, aos 15 minutos do segundo tempo, na final da Copa de 2010. E sabia que testemunhava os momentos derradeiros de um craque com a camisa da seleção. Por isso, já agradecia: “Arjen, bedankt/Arjen, bedankt/Arjen, Arjen, Arjen, bedankt”.

O jogo terminou, dando lugar às homenagens. Robben recebeu abraços: dos suecos, dos compatriotas, dos três filhos que entraram no gramado. E resumiu suas sensações à NOS, emissora pública holandesa, ao deixar o campo: “Foi lindo, mas foi difícil”. Como difícil será a reestruturação da seleção holandesa, com uma geração mediana e muito trabalho pela frente. Como difícil será olhar para os jogos da Oranje sem ver o camisa 11, “bravo guerreiro”, cortando para a esquerda e marcando gols.