O Fla-Flu é um clássico poético. Dois times de mesma genealogia, sangue do sangue que já nasceram rivais. Uma espécie de drama familiar transformado em espetáculo de futebol, eternizado nas crônicas impecáveis de Nelson Rodrigues e de Mário Filho. Com todo respeito aos tricolores, o maior rival dos flamenguistas é o Vasco, no duelo do clube das massas com o de raízes operárias. O que não é demérito nenhum ao Fla-Flu. Afinal, nenhum outro dérbi na história conseguiu reunir tantos torcedores no estádio.

O Flamengo x Fluminense de 15 de dezembro de 1963 levou 194.603 pessoas ao Maracanã, sendo 177.020 pagantes. É o terceiro maior público da história do futebol – atrás de Brasil 1×2 Uruguai, em 1950, e Brasil 4×1 Paraguai, em 1954 – e o maior em um confronto entre clubes. Cerca de 20% da população do Estado da Guanabara estava ali, naquele estádio. Uma situação grandiosa o suficiente para valorizar o título do Campeonato Carioca de 1963, que era decidido naquele clássico.

O Flamengo de Flávio Costa estava com a mão na taça. Precisava de apenas um empate para se sagrar campeão, encerrar o jejum de sete anos sem conquistar o Carioca. E por isso mesmo o Fluminense de Fleitas Solich foi todo ataque desde o início de jogo. Embora a pressão tenha se intensificado, os flamenguistas conseguiram se segurar. E devem o título ao goleiro Marcial. O camisa 1 fez uma defesa imprescindível já nos minutos finais, salvando uma tentativa de gol por cobertura de Escurinho, atacante tricolor. O lance que selou a festa em preto e vermelho.

Dizia eu que o profeta estava certo no mérito da questão. O tricolor é o melhor, foi melhor, teve mais time. Mas há, claro, um campeão oficial, que é o Flamengo. E aqui, abro um capítulo para falar da alegria rubro-negra, santa alegria que anda solta pela cidade. Nada é mais bonito do que a euforia da massa flamenga. À saída do estádio, eu vi um crioulão arrancar a camisa diante do meu carro. Seminu, como um São Sebastião, ele dava arrancos medonhos. Do seu lábio, pendia a baba elástica e bovina do campeão.

Mesmo que eu fosse um Drácula, teria de ser tocado por essa alegria que ensopa, que encharca, que inunda a cidade. Eu não sei se o time do Flamengo, como time, mereceu o título. Mas a imensa, a patética, a abnegada torcida rubro-negra merece muito mais. Cabe então a pergunta: – quem será o personagem da semana de um abnegado Fla-Flu tão dramático para nós? Um nome me parece obrigatório: – Marcial. E nessa escolha, está dito tudo. Quando o goleiro é a figura mais importante de um time, sabemos que o adversário jogou melhor. Castilho teve muito menos trabalho. Claro que eu não incluo, entre os méritos de Marcial, o gol que Escurinho não fez. Tão pouco falo na bomba que o mesmo Escurinho enfiou na trave. Assim mesmo Marcial andou fazendo intervenções decisivas, catando bolas quase perdidas.

Amigos, eu sei que os fatos não confirmaram a profecia. Ao que o profeta só pode responder: – “Pior para os fatos!” É só.

Trecho da crônica ‘Continuo Tricolor’, de Nelson Rodrigues, publicada no jornal O Globo de 17 de dezembro de 1963

Nelson Rodrigues que me perdoe, mas Marcial não foi o grande personagem do Fla-Flu de 1963. O goleiro, é claro, merece ser lembrado. Porém, se esse jogo é célebre e tão lembrado até hoje, é graças à torcida. Aos milhares que abarrotaram o Maracanã, que disputaram cada centímetro das arquibancadas, que fizeram o estádio tremer a cada cântico. Que apenas engrandece um dos clássicos de mais história em todo o mundo.