A nove rodadas do fim da Ligue 1, o suspense continua entre os reles mortais. Em uma rodada ruim para quem está na briga pelo terceiro lugar, nenhum dos pretendentes à última vaga na Liga dos Campeões ganhou. Entre duelos diretos e contra Paris Saint-Germain e Monaco, quem poderia aproveitar os vacilos dos rivais era o Lille, mas a equipe também tropeçou e desperdiçou uma excelente chance de abrir vantagem para seus concorrentes mais próximos na luta pelo pódio.

O LOSC tinha o jogo mais fácil pela frente. Afinal, recebeu um claudicante Nantes, que completou nove partidas sem vencer e está mergulhado em uma crise da qual não parece ter forças para sair. Diante de um rival que tenta escapar a todo custo do fantasma do rebaixamento, os Dogues poderiam, enfim, fazer uma apresentação convincente e embalar nesta reta final. Na prática, o que se viu foi um time medíocre em campo.

Com deficiências ofensivas e um meio-campo com dificuldades para se organizar e criar algo de útil, o Lille foi um arremedo de equipe. O primeiro tempo dos comandados de René Girard foi um dos espetáculos mais tenebrosos desta temporada. Estáticos, os donos da casa não souberam em momento algum ditar o ritmo da partida e pareciam ter se conhecido ali, na boca do vestiário. Como os Canários estavam pouco preocupados em atacar, dá para se imaginar como estes 45 minutos iniciais foram uma tortura para quem acompanhou a peleja.

O Nantes percebeu que o fantasma não era tão assustador assim e se arriscou algumas vezes à frente na etapa final, mas naquelas. O óbvio empate sem gols teve sua utilidade para os Canários, que somaram um ponto precioso para tentar se distanciar da zona do rebaixamento. Já o Lille, embora tenha se beneficiado dos deslizes de seus concorrentes, sabe que o resultado vai atrapalhar seus planos. Afinal, a equipe ainda tem pela frente um duelo contra o Monaco no principado, e certamente perderá pontos ali. Os concorrentes esfregam as mãos com a possibilidade de uma nova aproximação.

Saint-Étienne e Lyon tiveram o azar de enfrentar Paris Saint-Germain e Monaco nesta rodada. Os Verdes deram trabalho ao PSG no Parc des Princes, com o goleiro Sirigu salvando a meta dos anfitriões. Contudo, quando Ibrahimovic está inspirado… Endiabrado, o sueco fez os gols da vitória por 2 a 0 e, de quebra, bateu um recorde: tornou-se o maior artilheiro da história dos parisienses em uma temporada: agora, ele tem 40 gols marcados em todas as competições disputadas pelo clube em 2013/14, um a mais do que o argentino Carlos Bianchi obteve em 1977/78.

A derrota deixou o ASSE a cinco pontos do Lille. Era a chance de o Lyon se igualar ao rival regional e entrar de vez na disputa pelo pódio, mas a equipe perdeu para o vice-líder Monaco por 3 a 2 em Gerland. O OL, porém, saiu de campo consternado com a arbitragem, que ignorou o impedimento de Berbatov no terceiro gol monegasco. Só que os lioneses também devem olhar para seu umbigo e questionar seu miolo de zaga. Milan Bisevac e Baky Koné, que substituiu o lesionado Samuel Umtiti, tiveram problemas sobretudo com a inteligência de James Rodríguez, tanto nos passes como no posicionamento entre as linhas defensivas formadas pelo Lyon.

Stade Reims e Olympique de Marselha ficaram no 1 a 1 e um impediu o outro de subir na tabela. Para o OM, o resultado interrompeu a série de duas derrotas sofridas pela equipe, embora tenha sido ruim para suas pretensões de classificação para competições continentais. Fica evidente, porém, a extrema dependência dos marselheses em torno de Gignac, autor de seu 13º gol nesta Ligue 1. Seu caráter de salvador da pátria ilustra bem as limitações do elenco do OM, cada vez mais distante dos rivais mais próximos.

A certeza que virou dúvida

A vaga para as quartas de final da Liga dos Campeões já estava nas mãos do Paris Saint-Germain desde o jogo de ida diante do Bayer Leverkusen. A goleada por 4 a 0 no BayArena deixou a certeza de que o time da capital entraria relaxado para a disputa do duelo de volta. Laurent Blanc aproveitou a oportunidade para poupar alguns jogadores e entrar em campo com um time misto no Parc des Princes. A vitória por 2 a 1 foi o suficiente para o PSG ir para o vestiário com a consciência tranquila.

Com sete mudanças em relação à equipe que começou a partida na Alemanha, Blanc viu o PSG cochilar no início do jogo. Foi nesse período que o Bayer Leverkusen abriu o placar e fez os donos da casa saírem da nuvem do comodismo na qual se encontravam. Embora tenham tido um desempenho bem menos convincente do que no primeiro confronto, os parisienses partiram para impedir qualquer possibilidade de uma zebra passear no Parc des Princes.

Basta dizer que o melhor jogador em campo foi Salvatore Sirigu. O goleiro, que geralmente tem trabalho reduzido por conta da boa proteção oferecida pela defesa do PSG, precisou mostrar suas qualidades para evitar que o Bayer Leverkusen abrisse uma vantagem ainda maior no placar e, definitivamente, ameaçasse a classificação parisiense. As provas de sua atuação brilhante ficam na defesa do pênalti cobrado por Rolfes (quando o jogo já estava 1 a 1) e nas duas intervenções cirúrgicas diante de Derdyok.

A comparação entre o PSG que goleou o Bayer Leverkusen e aquele que sofreu para ganhar de virada no Parc des Princes se mostra cruel quando o meio-campo entra na berlinda. O trio formado por Verrati, Matuidi e Thiago Motta deu lugar à formação com Cabaye, Rabiot e Pastore. Os três últimos praticamente passaram alheios durante o período no qual ficaram em campo. Com um Pastore mais uma vez sem inspiração, o PSG sofreu para alimentar seu ataque, que contou com força total (Ibrahimovic, Lavezzi e Cavani).

Cabaye estava perdidaço. Titular pela segunda vez desde sua chegada do Newcastle, ele tocou 142 vezes na bola – algo dentro da média do elenco. No entanto, foram inúmeras as vezes nas quais o meio-campista correu sem sentido algum. Ele não conseguiu cumprir com a eficiência desejada seu papel de proteger a defesa, deixando-se superar pelos adversários com facilidade assustadora. A seu favor, contam as participações nos dois gols parisienses e na melhora de rendimento na segunda etapa, mas parece muito pouco para quem deseja se garantir como um dos titulares da equipe.

Por ter feito o resultado no duelo de ida, o PSG não teve lá grandes preocupações para o segundo confronto contra o Paris Saint-Germain. Contudo, Blanc deve ter ficado com um ponto de interrogação em sua cabeça ao se questionar sobre o que esperar quando realmente precisar de seu banco de reservas. Não dá apenas para confiar em Ibrahimovic e Cavani para resolver tudo se o meio-campo não mantiver o bom nível. Algo para se pensar e trabalhar para seu aprimoramento.