O Uruguai sempre foi um país que fez muito a partir do pouco. Se a limitação populacional não era exatamente um problema lá nos anos 1920, 1930 ou 1950, quando o futebol se concentrava mais entre as grandes metrópoles (e Montevidéu, afinal, não deixava de ser uma), ela se tornou um fator mais determinante com o passar dos anos, principalmente em tempos de preparação intensa dos jogadores como atletas. Não, o Paisito não deixará de produzir os seus talentos, ainda mais pela paixão que rege sua gente. Mas, convenhamos, uma peneira entre 3,4 milhões é bem mais difícil do que a feita pelos dois gigantes que o ladeiam. E se a “eternidade” de alguns jogadores questionáveis se torna mais compreensível dentro dessa perspectiva, desta vez há também um olhar além.

Não, o Uruguai não deixa de ser tão dependente do trio Luis Suárez, Diego Godín e Edinson Cavani. Sim, Fernando Muslera é o goleiro, embora Martín Silva e Martin Campaña sejam menos suscetíveis às falhas. Sim, Cristian Rodríguez, Martín Cáceres e Nicolás Lodeiro continuam lá, mesmo causando calafrios em muita gente. Mas a lista do Maestro Tabárez também conta com muito sangue novo, e bom, que pode dar conta do recado na Rússia em 2018, assim como no Catar em 2022 e nos Mundias durante a próxima década.

Todos os setores possuem esses jogadores da renovação. A defesa é onde ela parece menos perceptível, com José María Giménez sendo um jovem com mais de 40 partidas pela equipe nacional. Guillermo Varela é opção na lateral, assim como Diego Laxalt também foi em amistosos recentes, embora não sejam tão novos aos 25 anos. Gastón Silva é outro participativo, mas este nem sempre deixa a gente confiar nele. E, de fora, ficaram Mauricio Lemos e Federico Ricca, que, se não são para a Rússia, em próximos anos possivelmente serão.

O meio-campo possui uma porção de nomes, muitos deles com capacidade para dar outra qualidade à faixa central – onde Egídio Arévalo Ríos e Álvaro González, aliás, não estão mais. Algo justo, considerando que Lucas Torreira tem muito mais a construir a partir da cabeça de área; que Nahitán Nández oferece intensidade, também pelos lados; que Rodrigo Bentancur vem de uma temporada afirmativa na Juventus; que Federico Valverde talvez seja daqueles raios que caem no Paisito, até por seus primeiros passos na seleção. Juntam-se a outros nem tão decanos, apesar de um pouco mais velhos, como Matías Vecino e Giorgian De Arrascaeta, boas notícias dos últimos tempos. Uma pena que não tenha vindo junto Gastón Pereiro, garoto de ótima valia ao PSV holandês, mas de encaixe distinto ao que pede o Maestro Tabárez.

Já no ataque, não se toca em Edinson Cavani e Luis Suárez. Sobram, então, duas vagas. Uma delas fica a Christian Stuani, desses medalhões que nem sempre brilharam em campo pela Celeste, mas se confirma pelas excelentes marcas com o Girona. E na última vaga, as lesões atrapalharam recentemente Diego Rolán ou Abel Hernández. Não que isso seja demérito a Maxi Gómez, de 21 anos, que também se garantiu na bola ao brilhar no Defensor campeão nacional e logo se encaixar no ataque do Celta. É ele o verdadeiro herdeiro da dupla.

Ainda serão feitos três cortes, e alguns garotos podem cair fora, o que é normal. Com eles, todavia, o Uruguai supera aquela pecha que talvez não seja time ao próximo Mundial, até porque a areia na ampulheta de seus três protagonistas vai chegando ao final. Os orientais vão com chances de avançar no Grupo A, por supuesto, e manter a honradez até os mata-matas. Mas não só isso, o que oferece perspectivas ao futuro. Com a saúde debilitada, o Maestro Tabárez provavelmente não siga em frente. O processo de base ao topo da seleção, de qualquer forma, é o seu legado.

Goleiros: Fernando Muslera (Galatasaray, TUR), Martín Silva (Vasco, BRA) e Martín Campaña (Independiente, ARG)

Defensores: Diego Godín (Atlético de Madrid, ESP), Sebastián Coates (Sporting, POR), José Giménez (Atlético de Madrid, ESP), Maxi Pereira (Porto, POR), Gastón Silva (Independiente, ARG), Martín Cáceres (Lazio, ITA), Guillermo Varela (Peñarol)

Meio-campistas: Lucas Torreira (Sampdoria, ITA), Nahitan Nández (Boca Juniors, ARG), Matías Vecino (Internazionale, ITA), Federico Valverde (Deportivo de La Coruña, ESP), Rodrigo Bentancur (Juventus, ITA), Carlos Sánchez (Monterrey, MEX), Giorgian de Arrascaeta (Cruzeiro, BRA), Diego Laxalt (Genoa, ITA), Cristian Rodríguez (Peñarol), Jonathan Urretaviscaya (Monterrey, MEX), Nicolás Lodeiro (Seattle Sounders, EUA) e Gastón Ramírez (Sampdoria, ITA) 

Atacantes: Cristhian Stuani (Girona, ESP), Maximiliano Gómez (Celta de Vigo, ESP), Edinson Cavani (Paris Saint-Germain, FRA) e Luis Suárez (Barcelona, ESP)