Poucos duvidam do tamanho e força do América. Clube mais vezes campeão da história da Liga MX (ao lado do rival Chivas de Guadalajara, ambos com 11 títulos), maior campeão da Concachampions (ao lado de outro rival, Cruz Azul, ambos com cinco conquistas), dono do elenco mais caro de quase todas as edições do campeonato mexicano, responsável pela maior parte das grandes contratações de craques estrangeiros, um dos clubes mais reconhecidos dentro e fora do país azteca e sempre candidato ao título dos torneios que disputa. Pode algo arranhar essa imagem?

Pode. E antes que alguém aponte dirigentes, manipulações e coisas do gênero, a resposta é mais simples e pode, no fundo, significar uma junção de todas as anteriores. Imprensa, torcedores e até mesmo estrangeiros que trabalham com a Liga MX se questionam cada vez mais qual a real dimensão do poder das águias e de que forma essa força e influência sempre termina por se tornar uma das principais responsáveis pelas vitórias do clube. Um questionamento que só faz aumentar a cada novo erro de arbitragem a favor dos Canários.

A vítima da vez foi o atual campeão León, derrotado no último fim de semana após um erro grotesco do árbitro Paul Delgadillo, que assinalou um pênalti em uma falta ocorrida fora da grande área. Penalidade convertida por Raúl Jiménez que resultou no único tento marcado na reedição da última final da Liga MX. Pior que a atuação do juiz, contudo, é o fato do caso não ser isolado. Na rodada inaugural do Clausura, há duas semanas, o triunfo aparentemente fácil do conjunto de Coapa sobre o Tigres (3×0) ficou manchado pela péssima atuação de Ricardo Arellano Nieves, responsável por não assinalar dois pênaltis claros a favor dos felinos, fazer vista grossa a advertências claras aos estudantes e não apontar nítida posição irregular de Paul Aguilar no segundo gol dos azulcremas.

A insatisfação dos adversários foi bem resumida pelo técnico brasileiro Ricardo Ferretti, ao fim da partida na qual seu time, o Tigres de UANL, fora prejudicado: “Vou dar um conselho aos meus colegas: quando tiverem que jogar contra o América, preparem-se para jogar contra 12. Creio que é a única equipe do mundo que joga com 12, por que a verdade já cansa. São situações claras e ninguém diz por que?”

“Tuca” não foi o primeiro a levantar a questão, que é tão antiga quanto a chegada do brasileiro ao futebol azteca, na década de 1970. A sequência de erros a favor dos Cremas é preocupante. E raras vezes acontecem contra o clube. O que parece uma vantagem à primeira vista termina por arranhar boa parte das conquistas do América.

É notório o forte sentimento “antiamericanista” existente no país. Segundo clube mais popular do México (ainda que algumas pesquisas mais recentes o coloquem a frente dos demais), o América, por outro lado, lidera em todas as enquetes a “disputa” de clube mais odiado pelos torcedores adversários. E conta com alguns fatores que ajudam a aguçar essa raiva: bancado pela Televisa, grupo de mídia mais forte do país, a equipe é conhecida por não economizar recursos a serem investidos na chegada de estrelas estrangeiras. Um poder econômico que também atrai boa parte dos melhores jogadores das equipes locais. Isso tudo enquanto o arquirrival Chivas sempre manteve uma política nacionalista, proibindo jogadores estrangeiros de vestirem sua camisa.

Assim, o cargo de “time a ser odiado” foi um caminho natural para o clube. E fatos históricos também tiveram papel preponderante nesse papel ocupado pela agremiação, entre eles as declarações de soberba do ex-treinador José Antonio Roca e do empresário Emilio Azcárraga Milmo, presidente do grupo Televisa e um dos principais responsáveis por articular a compra dos Millonetas, deixando claro que o objetivo sempre fora dominar o cenário local.

Não que o América e seus torcedores se incomodem com essa alcunha. O departamento de marketing do clube aposta regularmente em campanhas cujo objetivo é justamente realçar a pecha de “Más Grande” e de soberania sobre os demais. A questão é quando essa soberania deixa de ser um fator de disputa comum no futebol e passar a ser objeto de desconfiança quanto às condições igualitárias de disputa no âmbito esportivo.

Duas conquistas obtidas pelo Cremas na década de 1980 até hoje são objetos de grandes contestações pelos rivais: o título de 1984/85 pelo questionável pênalti apontado pelo árbitro Joaquín Urrea na terceira partida da decisão frente ao Pumas UNAM; e o de 1987/88 pela questionável decisão do juiz Miguel Ángel Salas, que, incentivado pelo treinador brasileiro das águias, Jorge Vieira optou por rever uma regra do regulamento do torneio mesmo após encerrar a partida e exigiu a disputa de penalidades quando muitos jogadores do até então classificado Morelia já estavam trocados e deixando o estádio. Resultado: vitória do América nos pênaltis e vaga na decisão, aonde conquistaria a taça.

Se os erros antigos tivessem ficado na história passariam como fatos caricaturais de uma época de pouco profissionalismo e um futebol mais passional. Infelizmente não são. Os erros a favor do clube da capital se acumulam ano após ano, sendo apontados mesmo no período no qual o Ame não soma títulos ou vive grande fase.

Com Femexfut fazendo vista grossa para a questão, os rivais começam a se articular para agir. Muitos apontam que a questão nem seja intencional, mas que os árbitros e assistentes, preocupados com a influência e o poderio econômico do clube e seus proprietários, na dúvida, optam por beneficiar o conjunto de Coapa. Uma decisão até natural, e comumente também percebida (e objeto de críticas) no futebol espanhol (com Barcelona e Real Madri) e no futebol brasileiro (com Flamengo e Corinthians). Salta aos olhos no futebol azteca, entretanto, a quantidade e regularidade dos erros. Bem como o fato de pouco ocorrer no sentido inverso.

Se incentiva o reconhecimento de ser uma competição acirrada e extremamente equilibrada, com resultados inesperados e pouco desnível, a Liga MX (e a Femexfut) precisa passar a olhar com outros olhos essa questão. Afinal, entrar em campo sabendo que jogará contra um adversário que, na dúvida, terá o favorecimento da arbitragem, pode soar comum na várzea, mas está longe de ser aceitável para a principal competição do futebol mexicano.

Curtas

México

- Seleção do site Mediotiempo da 3ª rodada do Clausura: Alfredo Talavera (Toluca), Rogelio Chávez (Cruz Azul), Joel Huiqui (Morelia), Felipe Baloy (Morelia) e Carlos Gerardo Rodríguez (Chivas Guadalajara); Israel Castro (Chivas Guadalajara), Wilson Tiago (Toluca), César Delgado (Monterrey) e Rubens Sambueza (América); Narciso Mina (Atlante) e Mauro Formica (Cruz Azul); T: José Guadalupe Cruz (Monterrey);

Costa Rica

- Com uma boa vitória sobre o Puntarenas (3×1) e uma goleada em visita ao Belén (4×1), o Herediano manteve os 100% de aproveitamento e isolou-se na liderança do Campeonato de Verano, com 9 pontos em 3 jogos. A vice-liderança é do Cartaginés, que bateu Carmelita e Limón para alcançar os 7 pontos. Terceiro colocado, com 6 pontos, a atual campeã Alajuelense perdeu a invencibilidade no fim de semana ao ser derrotada pelo Uruguay, enquanto o Saprissa não passou de um empate contra o Carmelita e é o 5º, com 4 pontos;

El Salvador

- Atual campeão, o Isidro Metapán estreou no Clausura com uma tranquila vitória sobre o Juventud Independiente, assim como o vice-campeão FAS, que superou o Dragón por 2×1. O destaque da rodada inaugural da Primera División, entretanto, ficou a cargo do vexame protagonizado pelo Luis Ángel Firpo, goleado pelo Atlético Marte por 6×1 no Cuscatlán. A péssima fase dos Toros, lanternas do Apertura, também é extensível ao Águila, vice-lanterna do último torneio, que também estreou com revés, para o Santa Tecla. Atlético Marte, Isidro Metapán, Santa Tecla, Alianza e FAS dividem a liderança da Liga Mayor, todos com 3 pontos;

Guatemala

- Tricampeão guatemalteco, o Comunicaiones estreou no Clausura com um empate em visita ao Marquense e é apenas o 7º colocado. Pior fez o rival Municipal, derrotado em casa pelo Xelajú e vice-lanterna, ainda sem somar pontos. A liderança da Liga Nacional é dividida por Suchitepéquez, Mictlán, Xelajú e Coatepeque, todos após triunfarem na primeira rodada;

Honduras

- Com uma vitória mínima sobre o Real Sociedad, o Motagua manteve os 100% e a ponta isolada do Clausura da Liga Nacional, com 6 pontos. Já o Olimpia conseguiu seu primeiro triunfo ao superar o Vida e ocupa a vice-liderança com 4 pontos, ao lado do atual campeão Real España, que bateu o Savio, e do Platense, que venceu o Marathón;

Panamá

- O arranque do Clausura da Liga Panamenha foi dado contando, logo de cara, com um Clássico Nacional. E quem se deu melhor foi o Plaza Amador, que superou o atual campeão Tauro e lidera a competição ao lado de Alianza e Sporting San Miguelito, que bateu o vice-campeão San Francisco. O Árabe Unido não passou de um empate sem gols em visita ao Río Abajo e é apenas o 6º colocad, com 1 ponto;

Jamaica

- Derrotado pelo Portmore United, que segue na vice-lanterna com 20 pontos, o líder e atual campeão Harbour View viu chegar ao fim a série de 13 partidas sem derrotas, mas manteve a folga na ponta da National Premier League, com 36 pontos em 17 jogos. Isso por que o vice-líder Montego Bay empatou sem gols com o Sporting Central Academy, somou seu quinto empate em seis jogos e tem 29 pontos. Já o Tivoli Gardens bateu o Boys Town, pôs fim à sequência de quatro derrotas e é o 7º, com 21 pontos;

Trinidad & Tobago

- Em fase arrasadora, o W Connection obteve sobre o St. Anns Rangers, no último fim de semana, seu oitavo triunfo na TT Pro League, mantendo a invencibilidade e alcançando 26 pontos em 10 partidas. Bem atrás, o North East Stars superou o Caledonia, 3º colocado com 13 pontos, e também abriu vantagem na vice-liderança, com 17. Com a partida frente ao Central adiada, o atual campeão Defence Force manteve a 5ª posição com 13 pontos em 8 jogos, enquanto o San Juan Jabloteh é o 8º, com 10;

Nicarágua

- Um contundente 3×0 fora de casa sobre o San Marcos e o primeiro tropeço do rival Real Estelí, derrotado pelo até então lanterna Real Madriz, deu ao Diriangén a liderança da Liga Nacional, com 8 pontos em 4 jogos, ao lado do Walter Ferretti, que bateu o Managua no último sábado. Mesmo com o revés, o atual hexacampeão Estelí é o 3º, com 7 pontos.