Grégory Coupet é daqueles goleiros cujo talento acabou subestimado pela falta de projeção internacional. Em qualquer lista de maiores ídolos da história do Lyon, o camisa 1 estará lá, mesmo tendo sido criado justamente no rival Saint-Étienne. Foi uma das lideranças do clube na conquista do heptacampeonato da Ligue 1, aprimorando seu talento sob os treinamentos de Joël Bats – célebre arqueiro da seleção francesa nos anos 1980. Combinava ótimo senso de posicionamento, muita explosão física e um impressionante tempo de reação. E se não jogou mais pelos Bleus, foi por causa da confiança em Fabien Barthez, não propriamente por falta de talento. A despeito de suas oscilações, o campeão do mundo em 1998 manteve a posição por mais de uma década, independentemente dos grandes momentos vividos por Coupet em Gerland.

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Nesta sexta, Coupet completa 45 anos. E se a virada do ano não é exatamente a época mais rica de assuntos esportivos, já vale de pretexto suficiente para relembrarmos aquela que foi uma das defesas mais assombrosas já vistas em competições europeias – a melhor da história da Champions, talvez. Obra-prima da lenda do Lyon, entre tantos milagres que ele operou pelo clube. Mas nenhum que se compare ao ocorrido no Camp Nou, em 10 de outubro de 2001, pela terceira rodada da fase de grupos. É verdade que o Barcelona venceu o jogo por 2 a 0 e que o Lyon sequer avançou à etapa seguinte da competição. Ainda assim, pouca gente se lembra desses pormenores. Bem menos do que aqueles que se recordam do impossível protagonizado pelo goleiro.

Não deveria ser um lance difícil. Era uma bola na fogueira, de fato, em que Cláudio Caçapa estava pressionado por Rivaldo. Porém, entre tantas decisões possíveis, o zagueiro do Lyon decidiu recuar para Coupet. E complicar extremamente o goleiro. A bola por cobertura ia em direção ao gol. O francês não poderia usar as mãos para defendê-la, senão ofereceria de graça o tiro livre indireto ao Barcelona. E então fez o seu primeiro milagre: deu um salto para trás e, de peixinho, cabeceou a bola contra o próprio travessão. Por centímetros, o lance espetacular não se transformou em uma lambança daquelas. Mas às vezes só uma pitada de sorte ajuda a concretizar o fantástico.

O melhor, de qualquer forma, estaria por vir. Coupet se esborrachou dentro de seu próprio gol, na sequência do movimento. E o rebote ainda permanecia vivíssimo dentro da pequena área. Pior do que isso, acabou à mercê de Rivaldo, um dos melhores do mundo naquele momento. O brasileiro seguiu acreditando no lance e apareceu livre para emendar a sobra às redes. Com a certeza de quem já imagina de que maneira vai comemorar, o blaugrana saltou para uma cabeçada fulminante, como manda o manual – queixo no peito, em direção ao chão.

O que Rivaldo não percebeu (e certamente nenhuma outra alma viva entre os 60 mil presentes no Camp Nou) era que, enquanto a bola caía, Coupet se levantava. E, ainda dentro do gol, ele aguardava o arremate. Precisou atacar a bola e, com um salto da mais pura agilidade felina, espalmou o tiro em cima da linha. À queima-roupa. Inacreditavelmente. Não rendeu os três pontos, a classificação ou que mais fosse – depois dos 34 do segundo tempo, Patrick Kluivert e o próprio Rivaldo anotaram os gols do triunfo catalão. Mas aquele instante fabuloso valeu o testemunho de tantas pessoas como uma das maiores façanhas que um goleiro é capaz de realizar.

“Eu estava adiantado, não esperava por aquilo. A única coisa que pensava é que era um recuo e eu não poderia usar as mãos. Não era ruim de cabeça, então imaginei o que fazer e saltei. Tive um pouco de sorte quando a bola bateu na trave. Depois disso, Rivaldo só tinha que pegar a oferenda. Ele só precisava cabecear, mas acho que não era necessariamente o movimento preferido dele – felizmente. Bom, ele cabeceou do mesmo jeito e eu voltei a tempo de salvar. Minha velocidade não era ruim na época, sou nostálgico!”, relembrou Coupet, anos depois, em entrevista à revista SoFoot. “O Barcelona era uma outra dimensão para nós, mas queríamos fazer o melhor. Ao final nós perdemos, embora essa continue sendo uma memória marcante”.