Apesar de possuir quase 90 anos de história, a tradição do Leganés na elite do futebol espanhol é irrisória. Apenas na década de 1990 é que os pepineros alcançaram a segunda divisão. Já a ascensão até o primeiro nível aconteceu de maneira meteórica a partir de 2013/14, na terceirona, com dois acessos em apenas três anos. E se a permanência em La Liga durante a temporada de estreia já foi bastante comemorada, nada se compara ao vivido nesta quarta, em pleno Santiago Bernabéu. A vitória sobre o Real Madrid por 2 a 1 é uma façanha inédita, e de diferentes maneiras: não só coloca o Leganés pela primeira vez numa semifinal da Copa do Rei, assim como significa a primeira queda dos merengues na história da centenária competição após vencerem a ida fora de casa. Épico que teve um brasileiro como grande protagonista.

Considerando o passado modesto do Leganés, não seria exagero colocar Gabriel Pires como um dos jogadores mais importantes da história do clube, talvez o mais. O meio-campista chegou ao Estádio Municipal de Butarque ao acaso. Revelado pelo Resende no Campeonato Carioca, acabou pinçado pela Juventus, levado às categorias de base da Velha Senhora. Até desfrutou de uma sequência na equipe primavera, mas passou quatro temporadas rodando por times da Serie B. Defendeu Pro Vercelli, Spezia, Pescara e Livorno, sem nunca emplacar. Então, respirou novos ares ao ser emprestado pelos pepineros, rumo à segundona espanhola.

Foi quando Gabriel realmente deslanchou. O meio-campista logo se tornou um dos destaques na excelente campanha do Leganés. Reserva nas primeiras rodadas, virou titular absoluto, auxiliando o time que pegou embalo no final do primeiro turno. Já nas rodadas decisivas do campeonato, o garoto assumiu a responsabilidade. Marcou gols importantes e ajudou os pepineros a consumarem o acesso inédito. Terminou a segundona com sete tentos e quatro assistências, o suficiente para que o clube espanhol desembolsasse €1 milhão em sua contratação definitiva. Se não poderia sonhar mais com a Juve, o carioca estava no melhor ambiente possível para mostrar serviço, encarando grandes equipes em La Liga.

E na temporada passada, Gabriel pareceu tomar gosto pelos jogos de peso. O meio-campista, que alia capacidade física e qualidade técnica, foi uma das referências do Leganés. Do meio para frente, o camisa 8 atuou em todas as posições possíveis: como volante, como armador centralizado, nas duas pontas e até mesmo de centroavante. Brilhou especialmente contra os gigantes. Balançou as redes de Barcelona e Real Madrid, apesar das goleadas sofridas. Além disso, anotou um dos gols mais bonitos do campeonato, ao arriscar da intermediária e mandar um balaço na goleada contra o Betis – resultado que auxiliou também os pepineros a ratificarem a manutenção na elite.

Por fim, aos 24 anos, Gabriel vive o ápice da maturidade na atual temporada. Entrando como armador ou volante, o camisa 8 ajuda o Leganés a respirar tranquilo, a nove pontos de distância da zona de rebaixamento. Um dos fatores fundamentais é a forte defesa dos pepineros, a quarta melhor da competição, com média inferior a um gol sofrido por jogo. Combativo, Gabriel é o vice-líder do time em desarmes. E se o ataque não rende tanto, o carioca acaba se tornando imprescindível. É o artilheiro do time na Liga, acumulando cinco dos 17 gols do elenco. Sua produtividade desde dezembro tem sido ótima, com três gols e uma assistência nas cinco últimas aparições no Espanhol, ajudando sua equipe a derrotar Villarreal e Real Sociedad. Mas nada que se compare ao que experimentou no Bernabéu.

Nas rodadas da Copa do Rei, Gabriel ganhou a confiança do técnico Asier Garitano para assumir a braçadeira do Leganés. Era ele quem capitaneava o time no Bernabéu, oferecendo a sua energia à frente da zaga. Uma barreira física na cabeça de área, também responsável por conduzir a construção de jogo. E caberia justamente ao brasileiro anotar o gol que selou a classificação histórica. Após cruzamento de Javi Eraso, o camisa 8 se atirou para cabecear às redes de Kiko Casilla. Ao final, coube liderar os pepineros diante das tentativas merengues de recobrar o prejuízo. Em vão. A comemoração era toda do Leganés.

“Não sei o que dizer. É uma sensação e uma emoção muito grandes. Além de nós, ninguém acreditava que isso fosse possível. Mas o time sabia que era. Conseguimos uma coisa muito grande e vamos desfrutar. Trabalhamos forte e demos tudo no gramado”, declarou Gabriel, após o duelo. “Nem sei o que pensei depois do gol. A alegria te faz esquecer de tudo. Quando vi a bola entrando, tive uma felicidade enorme”.

Em duas temporadas e meia no futebol espanhol, Gabriel Pires mostrou ter qualidade, intensidade e seriedade para dar saltos maiores em sua carreira. Talvez uma Juventus não surja novamente em seu horizonte. Mas há futebol suficiente para ambicionar ao menos equipes que brigam por vagas nas competições europeias. Na temporada passada, o Newcastle se aproximou para bancar a cláusula de rescisão, mas o meio-campista reiterou seu compromisso com o Leganés. Betis e Everton também surgiram entre as especulações de agosto. Já na atual janela, o West Ham o colocou na mira, mas os pepineros o declararam “intransferível”. Desde que chegou ao Butarque, o camisa 8 já assinou três contratos diferentes, subindo na hierarquia e melhorando seus rendimentos. O último foi firmado no início da temporada, estabelecendo uma cláusula de €20 milhões para sua saída.

Em suas entrevistas, ao menos, Gabriel indica uma tranquilidade importante ao planejar os próximos passos de sua carreira. “Penso que não é só dinheiro. Gostaria de seguir jogando um bom futebol, melhorar. No Lega, tenho essa opção. Aqui me sinto muito à vontade, com uma liberdade maior do que teria em outro clube. Isso é evidente. Não sei se melhorei tudo o que queria, mas sim em algumas coisas. Ainda tenho muito a evoluir, e se for falar tudo ficarei aqui até amanhã. Aqui posso desenvolver muitos aspectos que necessito para crescer. Não toquei o teto. E no Leganés podemos começar uma bonita história. Um período para ficarmos muitos anos na primeira divisão. Essa é a ideia daqui por diante. Restam coisas importantes por fazer”, analisou em junto, entrevistado pelo As.

Gabriel é quem decidirá se permanece mais um ano escrevendo a bela história do Leganés na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Mas diante de toda a visibilidade conquistada nos últimos meses, se torna inevitável que o assédio sobre o seu futebol cresça. Antes disso, há mais alguns meses para consolidar o time em La Liga e, quem sabe, também fazer um papel honroso contra o Barcelona na semifinal da Copa do Rei. O protagonismo está nos pés, no braço e na mente do camisa 8.