O mosaico feito pela torcida do Bayern de Munique na final do Mundial de Clubes pode não ter sido tão legal quanto o do Raja Casablanca. No entanto, teve um simbolismo maior. À frente da torcida bávara, a faixa dizia ‘ainda temos mais um desejo’, em referência à lâmpada mágica de Aladim. E o escudo aparece acompanhado por duas taças: a posta em jogo pelo Mundial Interclubes, de 1960 a 2004 e a chancelada pela Fifa. Diz bastante sobre a comparação entre os dois torneios e a consideração dos europeus pela disputa.

Ignorar a importância do Mundial no antigo formato é um pouco de birra. Tudo bem que o mundo inteiro não era representado, mas a consideração dos clubes sul-americanos e europeus pela conquista não mudou quando a Fifa passou a dar sua chancela, exceto pela rivalidade alimentada no Brasil. Tanto é que o Bayern e diversos veículos de imprensa alemães consideraram o ‘tricampeonato’ do clube, somando os títulos de 1976 e 2001. Da mesma forma, o próprio site da Fifa fez essa aproximação, em uma matéria sobre a vitória do time de Beckenbauer contra o Cruzeiro.

Questão tão grande e diretamente ligada a isso é a importância que os europeus dão à competição, de uma maneira geral. É óbvio que não haverá uma festa como a da Champions, já que o significado é mais de um hipotético ‘domínio sobre os outros continentes’ do que uma real prova de força. A cobertura da imprensa alemã foi razoável, à medida que quem estava em campo era seu clube mais popular e sob o objetivo de levantar a quinta taça no ano, uma ‘missão’ reafirmada pelos bávaros várias vezes. Todavia, dá para dizer que a atenção foi tão grande quanto na Espanha e na Itália, que costumam ter mais apreço pela conquista.

A proximidade cultural com os sul-americanos contribui para essa vontade dos países europeus de língua latina, mais do que os anglo-saxões. Além disso, o início da Copa dos Campeões foi dominado por espanhóis, italianos e portugueses, os primeiros a viajar para o Mundial Interclubes. Em contrapartida, os únicos que se recusaram a entrar na disputa foram clubes do norte da Europa: Ajax, Bayern, Liverpool e Nottingham Forest.

Rafinha e Dante estavam entre os mais empolgados pelo título

Rafinha e Dante estavam entre os mais empolgados pelo título

E, por mais que o formato adotado em 2005 tenha aumentado a abrangência do Mundial, o que importa para a maioria do público é a medição de forças entre europeus e sul-americanos, por um histórico alimentado pelas seleções nacionais. Ainda que o Raja tenha feito uma campanha fantástica, não dá para negar a decepção em não ver o campeão da Libertadores desafiando o dono da Champions. Se o ímpeto dos europeus às vezes é brando, é ainda menor quando não têm pela frente os tradicionais rivais.

No fim das contas, o desequilíbrio tira o peso do Mundial. Se na competição intercontinental os sul-americanos quase sempre faziam frente aos europeus, no torneio da Fifa isso é raríssimo. O Corinthians e o Vasco de 2000 são os únicos times que dá para dizer que eram tão bons quanto os europeus. Depois disso, São Paulo e Internacional até levantaram a taça, mas com times tecnicamente inferiores e jogando por uma bola. Já em 2012, a diferença entre Corinthians e Chelsea não era tão grande, mas mais pela competência do trabalho dos alvinegros até ali e pela desorganização evidente vivida pelos ingleses.

Vale bastante a reflexão feita pelo amigo Leonardo Bertozzi em seu blog, sobre o histórico recente e os rumos do Mundial. Os europeus jogam pela missão; os sul-americanos, pela história; e os outros continentes, pela façanha. É preciso repensar o torneio para que não continue sendo o abismo dos últimos anos, com uma ou outra exceção. Se nada acontecer, aí sim a falta de importância que dão à copa será indiscutível.