Um time sem grandes investimentos. Com poucos jogadores conhecidos e que recentemente negociara seu mais valioso. Que havia acabado de escapar de um rebaixamento e era outra vez o favorito à queda. Mas que subverte todos os prognósticos e vai para as cabeças numa liga inglesa repleta de camisas pesadas e times milionários. Esse conto de fadas soa familiar, mas não, não se trata do Leicester de Claudio Ranieri, campeão em 2016. Na verdade, nem terminou em título: parou mesmo num terceiro lugar. Mas a trajetória do Norwich City dirigido por Mike Walker (e vestido numa das camisas mais emblemáticas daquele período no futebol britânico) marcou época como a primeira grande surpresa da história da Premier League, logo na temporada inaugural da competição, a de 1992/93.

VEJA TAMBÉM: Como o dinheiro da TV foi chave para a criação da Premier League

É claro que algumas coisas devem ser colocadas em seus devidos contextos. O grande abismo que hoje separa a nata da competição dos demais plebeus que apenas fazem figuração não estava tão consolidado como hoje. Tampouco a Premier League da época já era o campeonato europeu mais atrativo para jogadores estrangeiros – mas nisso reside uma vantagem para os Foxes, que puderam contar com um bom número de talentos importados no elenco, ao passo em que o time dos Canários era 100% britânico. E afinal, a disparidade de forças já começava a se desenhar, a ponto de a escalada tão sólida de um time pequeno e sem orçamento fabuloso causar tamanho espanto: o Norwich pobretão terminaria uma posição acima do badalado Blackburn Rovers bancado pelo milionário Jack Walker.

Prólogo

norwich campeão da copa da liga 1985

Fundado em 1920, antes mesmo de estrear na elite o Norwich já havia faturado uma Copa da Liga em 1962, apenas na segunda edição do torneio, quando ele ainda era largamente desprezado e boicotado pelos principais clubes. Mas depois de debutar no topo da pirâmide do futebol inglês na temporada 1972/73, há duas décadas vinha se consolidando na categoria (tendo algumas passagens rápidas, de uma temporada, no estilo “bate-e-volta” pela segunda divisão em 1974/75, 1981/82 e 1985/86).

Depois de bater na trave em 1973 e 1975, mais um título da Copa da Liga chegou em 1985, numa curiosa final entre futuros rebaixados contra o Sunderland, em Wembley. O título da segunda divisão em 1986 marcou o início de campanhas mais relevantes na liga, com um quinto lugar no ano seguinte e um quarto em 1989. Mas, para a tristeza dos torcedores, nenhuma dessas boas colocações resultou em vaga nas copas europeias, devido ao banimento dos clubes do país pós-Heysel.

Favorito à degola

norwich mark robins - editada

Com o peso dessa frustração, em abril de 1992 o Norwich parecia se encaminhar para uma nova despedida da elite, bastante ameaçado pelo rebaixamento. A salvação foi garantida na penúltima rodada, com um empate diante do Wimbledon freando uma sequência de oito derrotas nos últimos nove jogos. Mas a má campanha custou o cargo do técnico Dave Stringer. Para o seu lugar, é promovido o treinador dos reservas, um galês de 46 anos, semblante fechado e cabelos grisalhos chamado Mike Walker.

VEJA TAMBÉM: Relembre como foi a primeira temporada da Premier League

O novo técnico teria à disposição um elenco limitado e ainda enfraquecido com as partidas do ponta-direita Dale Gordon para o Rangers, do jovem e talentoso meia Tim Sherwood para o promovido Blackburn (ambos durante a temporada anterior), e principalmente do nome mais valioso do elenco: o atacante escocês Robert Fleck, que disputara a Copa do Mundo de 1990 por sua seleção e forçou a saída para o Chelsea, entrando em litígio com o clube até a negociação finalmente se concretizar por £2,1 milhões.

Para o lugar de Fleck, o clube pagaria pouco mais de um terço do valor recebido (£800 mil) em um atacante descartado por Alex Ferguson no Manchester United. Mark Robins, 22 anos na época, entraria para a história dos Red Devils em janeiro de 1990 ao marcar o gol da vitória sobre o Nottingham Forest no City Ground pela FA Cup, num resultado que – diz a lenda – salvou a cabeça do treinador escocês, então seriamente ameaçado de demissão. Mas, sem conseguir se firmar diante da concorrência por posições em Old Trafford, agora marchava para Norfolk.

As primeiras surpresas

norwich arsenal 1992 - 02 - editada

A campanha do que se imaginava ser uma luta desesperada pela sobrevivência para o Norwich começou no sábado, 15 de agosto de 1992, a data histórica da abertura da primeira edição da Premier League. O adversário era nada menos que o Arsenal, um dos principais cotados ao título (o qual recentemente havia conquistado duas vezes, em 1989 e 1991), no velho estádio de Highbury. E, de início, parecia que o roteiro seria seguido à risca: os Canários foram para o intervalo perdendo por 2 a 0, gols do zagueiro Steve Bould e do atacante Kevin Campbell.

VEJA TAMBÉM: Os 25 anos do último título do Leeds, uma surpresa às portas da revolução com a Premier League

Mike Walker, no entanto, não era muito afeito à ideia de fechar o time para não perder de mais. Mandou seus comandados atacarem a defesa dos Gunners. E aos 10 minutos, tirou do banco o homem que se tornaria o responsável por um resultado acachapante: Mark Robins. O refugo de Old Trafford descontou de cabeça num de seus primeiros toques na bola. Depois, o meia David Phillips aproveitou uma saída em falso de David Seaman e cutucou para empatar. A virada veio quando o ponta Ruel Fox foi lançado pelo lado direito da área e bateu rasteiro.

O último gol viria para coroar a exibição da equipe naquele segundo tempo e promover Mark Robins ao posto de titular indiscutível pelo resto da campanha. Um contra-ataque do Norwich iniciado por um chutão foi interceptado na intermediária do Arsenal pelo capitão Tony Adams, que apara no peito, mas deixa a bola escorrer. Robins, que vinha na corrida, toma a frente, vê Seaman adiantado e encobre de maneira inapelável o arqueiro do time londrino.

Robins presentearia a torcida com outra pintura no jogo seguinte, diante do Chelsea em Carrow Road. O time saiu atrás novamente no marcador e empatou com um canhão de pé direito de David Phillips. Até o atacante ser lançado partindo nas costas da defesa e, num um leve toque de primeira com o lado externo do pé direito, encobrir o goleiro Dave Beasant. A bela arrancada da equipe no começo da campanha (sete vitórias nos primeiros nove jogos) garantiu a liderança até o fim de setembro.

Um time de extremos

norwich mark bowen - editada

No meio dessa sequência, o time voltaria a vencer de virada em Londres, mas agora no jogo da volta diante do Chelsea por 3 a 2, em mais um momento marcante do Norwich como visitante naquela temporada. E olha que não foram poucos, para o bem ou para o mal. Os números mostram que, enquanto a campanha jogando em seu estádio de Carrow Road era sólida (só perdeu para o campeão Manchester United e, curiosamente, para o arquirrival Ipswich), como visitante o Norwich não negociava pontos: matava ou morria. Nas 21 partidas longe de seus domínios foram oito vitórias e dez derrotas, além de três empates.

Tudo isso evidencia como era ofensivo o estilo de jogo do time de Mike Walker. Em campo, os simpáticos Canários muitas vezes apertavam os adversários como aves de rapina. Não raro a defesa pagava a conta: o time terminou na insólita situação de terceiro colocado na classificação com saldo de quatro gols negativos. Teve o sexto ataque mais goleador e a quarta defesa mais vazada do campeonato. Três grandes goleadas sofridas ao longo da campanha – duas delas num espaço de três semanas – contribuíram para esses números.

VEJA TAMBÉM: Há 30 anos, o Everton faturava sua última liga e encerrava período de grandes glórias

A primeira delas no momento em que os Canários ocupavam a ponta da tabela, no dia 3 de outubro, diante do Blackburn, em Ewood Park. Comandados por Alan Shearer, a transferência mais cara daquela temporada, os Rovers aplicaram impiedosos 7 a 1, com direito a gol do ex-Canário Tim Sherwood, além de dois de Shearer (que ainda deu duas assistências), dois do norte-americano Roy Wegerle, um do ponta Stuart Ripley e outro do veterano meia Gordon Cowans. Após o massacre, o time de Lancashire tomaria a liderança do Norwich.

A segunda veio no dia 25 de outubro, contra o Liverpool em Anfield: depois de sair na frente logo aos dois minutos com gol do zagueirão Butterworth, o Norwich viu os Reds virarem o placar ainda aos 20 minutos e completarem a vitória por 4 a 1 na etapa final. E a terceira viria já na reta final, contra o Tottenham em White Hart Lane, em 9 de abril: um implacável 5 a 1 comandado pelo artilheiro da liga Teddy Sheringham.

Entre uma derrota acachapante e outra, até que o Norwich construiu uma campanha admirável dentro de suas possibilidades. Prova disso é que ainda retornaria à liderança em novembro, após vencer o Oldham fora de casa por 3 a 2, graças a um hat trick de Mark Robins – o primeiro do novo torneio a ser transmitido ao vivo pela Sky Sports. O triunfo iniciaria uma sequência de quatro vitórias, que incluiriam um grande resultado (outro 3 a 2) no Villa Park diante de um forte Aston Villa, que também brigava seriamente pelo título e mantinha até então uma invencibilidade de dez partidas.

Foi uma das grandes atuações da equipe na temporada. Sufocando os donos da casa na saída de bola e contra-atacando com perigo no primeiro tempo, os Canários abriram 2 a 0 com gols de David Phillips e Darren Beckford. Sofreram um gol do Villa no fim do primeiro tempo num chute de longe de Ray Houghton e cederam o empate no primeiro minuto da etapa final com gol de Garry Parker em momento de ‘abafa’ dos donos da casa. Mas quando tudo levava a crer na virada dos Villains, o Norwich arrancou a vitória num gol espírita do meia Daryl Sutch, contou com algumas defesas importantes de Bryan Gunn para segurar o resultado e se garantiu por mais uma rodada na liderança.

A quarta vitória da série, 2 a 1 diante do Wimbledon em casa, manteve o time de Mike Walker na liderança, com respeitáveis oito pontos à frente do Blackburn – aquele mesmo que havia depenado os Canários dois meses antes. Porém toda essa vantagem para os demais se dissiparia quando o Norwich enfrentaria uma sequência adversa entre meados de dezembro e de janeiro, a começar por uma derrota de 1 a 0 para o Manchester United em Old Trafford, num jogo muito equilibrado e decidido por uma falha individual de Sutch (indo de herói a vilão) capitalizada por Mark Hughes.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias do Brighton na outra vez em que o clube frequentou a elite inglesa

A segunda partida foi ainda pior: derrota em casa por 2 a 0 para o arquirrival Ipswich, que brigava no lado oposto da tabela. Ao todo, seriam cinco jogos seguidos sem marcar um gol sequer e seis sem vencer, antes que duas vitórias no fim de janeiro (4 a 2 sobre o Crystal Palace em casa e 1 a 0 sobre o Everton no Goodison Park) fossem vitais para o time se manter na liderança, agora com o United aparecendo bem perto no retrovisor. O mês terminou com apenas um ponto separando as duas equipes.

Apesar de memorável pela simbologia, a primeira vitória do clube sobre o Manchester City em quase 30 anos (2 a 1 em Carrow Road) foi a única obtida nas cinco partidas disputadas pela liga entre fevereiro e a primeira semana de março. E de líder nadando de braçadas, o Norwich se tornou perseguidor do United, sete pontos atrás da equipe de Alex Ferguson, que emendara uma sequência impressionante de resultados.

Um inesperado renascimento

norwich ruel fox - editada

Até que, incrivelmente, o Norwich pareceu ressurgir das cinzas, voltando a vencer: Ruel Fox garantiu o 1 a 0 na visita ao Sheffield United em Bramall Lane. Três dias depois, um gol de David Phillips derrotou o Oldham em Carrow Road. E no domingo seguinte, 17 de março, uma vitória esmagadora por 3 a 0 diante de um decadente Nottingham Forest em pleno City Ground levou a equipe de volta ao topo da tabela, ainda que com jogos a mais em relação aos adversários mais próximos.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias que fizeram a temporada 1985/86 especial para o Campeonato Inglês

Dois jogos na linha “tudo ou nada” apareciam no horizonte: Aston Villa e Manchester United, os dois maiores perseguidores, viriam a Carrow Road. Diante de sua torcida, o Norwich teria a chance de apresentar suas credenciais ao título da primeira Premier League. Em 24 de março, numa noite chuvosa, seria a vez de enfrentar o Villa, que andava seco pela revanche da derrota em seu estádio no confronto de ida em novembro.

Foi um jogo intenso, com grandes atuações dos dois goleiros. Gunn salvou com as pernas uma cabeçada certeira de Dwight Yorke e ainda teve sorte ao ver Garry Parker perder um gol inacreditável após ser driblado. Bosnich fez alguns milagres, incluindo em finalizações cara a cara. Mas aos 36 minutos da etapa final, após cobrança de escanteio, o arqueiro australiano fez apenas defesa parcial em forte cabeçada de Megson, e o zagueiro Polston – que havia se tornado pai pela primeira vez naquele dia – apanhou o rebote para marcar o único gol do jogo. O céu parecia ser o limite para os Canários.

Para ficar mais perto do céu, no entanto, primeiro seria preciso derrotar os Diabos Vermelhos, no dia 5 de abril. E eles seriam traiçoeiros. Antevendo a pressão incessante na saída de bola feita pelo Norwich, Alex Ferguson escalou três ponteiros de origem, os velocíssimos Andrei Kanchelskis, Lee Sharpe e Ryan Giggs, posicionando Eric Cantona como um pivô, municiando os contragolpes. Foi letal. Com a defesa avançada do Norwich pega de calças curtas, em 20 minutos de jogo o United já vencia por 3 a 0. Na etapa final, Mark Robins descontou de cabeça, mas a reação parou por aí. Dois pontos à frente dos mancunianos antes do início do jogo, os Canários agora eram ultrapassados na liderança.

A pá de cal nas pretensões de título veio logo no jogo seguinte, a já citada goleada de 5 a 1 para o Tottenham em White Hart Lane. Mas técnico e jogadores sabiam que havia uma campanha bonita, histórica para o clube, a ser salva. O Norwich venceu seus dois últimos jogos em Carrow Road, batendo o Leeds por 4 a 2 (com hat trick de Chris Sutton) e o Liverpool por 1 a 0 (com gol de pênalti de David Phillips) – embora entre um e outro voltasse a perder para o rival Ipswich, desta vez fora de casa por 3 a 1.

Na última rodada, um empate diante do rebaixado Middlesbrough fora de casa valeria um ponto precioso para superar o Blackburn e garantir matematicamente o terceiro posto, melhor classificação da história do clube. Num jogo maluco, repleto de viradas no placar, um 3 a 3 foi o suficiente para coroar a temporada inesquecível dos Canários. Mas engana-se quem pensa que a aflição e a comemoração dos torcedores terminaram na última rodada da liga. Havia um outro feito muito aguardado em jogo.

A Uefa tinha destinado duas vagas à Inglaterra na Copa da Uefa: uma para o vice-campeão inglês e outra, a princípio, para o vencedor da Copa da Liga, conquistada em abril pelo Arsenal diante do Sheffield Wednesday. Por uma coincidência, os mesmos clubes iriam decidir também a FA Cup naquela temporada, em meados de maio. Caso os Gunners também conquistassem esta taça, garantiriam vaga na Recopa, abrindo a segunda vaga na Copa da Uefa para o terceiro colocado na liga – no caso, o Norwich.

Depois de um empate em 1 a 1 no primeiro jogo, o Arsenal venceu por 2 a 1 no replay cinco dias depois graças a um gol no último minuto da prorrogação marcado por Andy Linighan, zagueiro que havia aportado no norte de Londres vindo exatamente do Norwich, em 1990. Depois de três tentativas frustradas pelo contexto da suspensão dos clubes ingleses por parte da Uefa, os Canários finalmente debutariam nas copas europeias na temporada seguinte – e escreveriam uma das maiores páginas de sua história.

Brilho fugaz na Europa

norwich vs bayern 1993

O primeiro adversário, um Vitesse que contava com Philip Cocu e Hans Gillhaus, foi despachado com tranquilidade graças a uma vitória por 3 a 0 em Carrow Road seguida por um empate sem gols na Holanda. Mas o seguinte inspirava mais do que apenas respeito. Era o temível Bayern de Munique. Dirigido por Erich Ribbeck, o time bávaro contava com uma constelação de craques, ponteada por Lothar Matthaus, agora atuando como líbero. Havia ainda Thomas Helmer na zaga, o brasileiro Jorginho e Christian Ziege nas alas, Mehmet Scholl e o holandês Jan Wouters no meio campo, além do colombiano Adolfo Valencia na frente.

VEJA TAMBÉM: Como o futebol internacional era transmitido para o Brasil antes das TVs a cabo

Nenhum deles, porém, foi capaz de impedir um resultado histórico do time de Norfolk na partida de ida, no lendário Olympiastadion de Munique. Com meia hora de jogo, o Norwich vencia por 2 a 0, com um golaço de sem-pulo de Jeremy Goss e outro do lateral Mark Bowen. Christian Nerlinger descontou, mas a vitória naquele dia ficou mesmo com os ingleses. Na partida de volta, em Carrow Road, houve apreensão quando Valencia abriu o placar para o Bayern logo aos cinco minutos. Mas Goss, outra vez, apareceu para o resgate, empatando a partida na etapa final e garantindo a classificação improvável.

Os Canários não resistiriam, no entanto, ao toparem com outro gigante do continente, caindo para a Inter de Milão nas oitavas de final com duas derrotas por 1 a 0, em gols marcados por um atacante holandês que daria muito o que falar na Premier League. Um certo Dennis Bergkamp. Cumprindo péssima campanha na Serie A naquela temporada, na qual conviveriam com uma insólita ameaça de rebaixamento, os nerazzurri salvariam a temporada com a conquista europeia.

A eliminação também prenunciou uma queda de rendimento também na liga. Nos primeiros 15 jogos da campanha na segunda edição da Premier League, o Norwich havia sofrido apenas duas derrotas e ainda encaixado grandes resultados fora de casa, como 3 a 2 diante do Blackburn, e sonoros 4 a 0 no Leeds e 5 a 1 no Everton. Mas, depois de bater o Southampton fora de casa no dia 1º de janeiro de 1994, somaria apenas dois triunfos pelos próximos 20 jogos, terminando numa modesta 12ª colocação.

No começo da temporada, a equipe havia perdido o meia David Phillips, vendido ao Nottingham Forest. E ao final dela, terminaria de desmanchar suas pretensões de grandeza ao negociar também Chris Sutton com o Blackburn (pelo valor recorde da história do clube até então), Mark Robins com o Leicester, Ruel Fox com o Newcastle e até o promissor Efan Ekoku com o Wimbledon. Sem reposição satisfatória, Mike Walker brigou com a diretoria e deixou o clube, seguindo para o Everton. Em maio de 1995, apenas dois anos depois de flertar com o título da Premier League inaugural, o Norwich seria rebaixado.

Os heróis da campanha

A equipe titular do Norwich que fez história na primeira edição da Premier League começava com um goleiro experiente, o escocês Bryan Gunn. Revelado no Aberdeen de Alex Ferguson, ficou várias temporadas na suplência do intocável Jim Leighton e acabou indicado pelo treinador ao clube de Norfolk em 1986, firmando-se como titular pouco depois de chegar. Esteve na Copa do Mundo da Itália, quatro anos depois, novamente na reserva de Leighton e de Andy Goram. Naquela temporada 1992/93, viveu ainda um drama pessoal ao perder a filha Francesca, de dois anos de idade, vitimada por uma leucemia. Mesmo abalado, não perdeu o foco e realizou grandes defesas num time frequentemente exposto a ataques adversários.

O estilo de jogo do time de Mike Walker, marcado pela pressão no campo do adversário, era definido em boa parte pelos laterais que tinha: Ian Culverhouse (direita) e o galês Mark Bowen (esquerda) eram jogadores de grande capacidade ofensiva. Bowen, especialmente, projetava-se quase como um ponta, aproveitando o espaço aberto por aquele lado no meio-campo. Por outro lado, os dois zagueiros centrais, John Polston e o capitão Ian Butterworth, precisavam se virar como podiam para conter os contragolpes.

Nessa missão eram ajudados pelo pulmão do meio-campo, o volante Jeremy Goss, também galês. Revelado no próprio clube em meados dos anos 80, era um jogador combativo, dinâmico, marcador incansável e ainda autor de gols importantes em suas ocasionais projeções ofensivas. Ao seu lado, jogava Ian Crook, meia talentoso, exímio passador, um autêntico “ball-playing midfielder”, como os ingleses se referem ao perfil. Revelado pelo Tottenham e forjado dentro do padrão de armadores clássicos dos Spurs, chegara ao Norwich em 1986, juntamente com Gunn e Butterworth, e era um dos jogadores com mais tempo de casa.

norwich david phillips

Pelo lado esquerdo do setor atuava outro dos grandes destaques daquela equipe: o também galês David Phillips. Meia eficiente, auxiliava tanto no combate quanto na criação, fechava pelo meio, abrindo o corredor para o apoio de Mark Bowen por aquele flanco, e ainda aparecia com frequência na frente para concluir. Um dos mais experientes da equipe, curiosamente atuava pelo outro lado do campo, como ala direito, na seleção do País de Gales, em mais uma mostra de versatilidade.

Pelo lado direito, Ruel Fox (que em 2004, depois do fim da carreira, naturalizaria-se para defender a seleção de Montserrat) era um verdadeiro azougue. Baixinho, habilidoso e com velocidade assombrosa nas arrancadas, compunha quase como um terceiro atacante, desmantelando defesas adversárias e criando chances de gol, aproveitadas pelos dois homens de frente. Um deles era o já citado Mark Robins, jogador de muita categoria e frieza na cara do gol, artilheiro do time na temporada com 15 gols pela liga. A outra vaga no ataque teve diferentes donos no começo da campanha, antes da afirmação de um jovem talento: Chris Sutton, 19 anos no início da temporada, e que jogava de zagueiro até ser deslocado para o ataque e se converter em um goleador aproveitando sua estatura (1,91 metro) e o talento natural no jogo aéreo. Uma revelação tão improvável quanto aquela campanha histórica do Norwich.

A partir desta semana, quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publicará na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Nesta primeira edição, uma lembrança que comemora também os 25 anos da Premier League.