Por tudo o que construiu em sua história, e não consegue experimentar nos últimos tempos, o Nottingham Forest é daqueles times pelos quais parece impossível não nutrir um pouco de simpatia. Eu sei que você já se pegou olhando a posição dos alvirrubros na Championship, já os escolheu para jogar nos games e se deliciou pesquisando as epopeias no passado. E neste domingo, o Forest deu um gosto especial aos seus admiradores, que puderam acompanhar ao vivo um triunfo que remete aos seus melhores capítulos. Com uma autoridade imensa, o time da segundona despachou o Arsenal na Copa da Inglaterra. Vitória por 4 a 2 no City Ground, que confirma os bicampeões europeus nos 16-avos de final da competição nacional.

Esta não é uma temporada particularmente boa ao Forest. Nos últimos anos, o clube se acostumou a passar longe da briga pelo acesso à Premier League, que não disputa desde 1999. Em 2016/17, terminou logo acima da zona de rebaixamento, embora na atual campanha apareça na parte intermediária da Championship. Por isso mesmo, os alvirrubros têm jogado a sua vida nas copas nacionais. Já fizeram bom papel na Copa da Liga, ao eliminarem o Newcastle, antes da queda para o Chelsea. E não se entregariam fácil ao Arsenal, por mais que viessem de quase um mês sem vitórias, sob as ordens do interino Gary Brazil.

Talvez pensando na goleada por 4 a 0 em setembro de 2016, pela Copa da Liga, Arsène Wenger se deu ao luxo de escalar um time basicamente reserva no City Ground. E se arrependeria disso. Afinal, o Forest começou a mandar na partida desde os primeiros minutos. David Ospina realizou duas intervenções, até que os anfitriões abrissem o placar aos 20 minutos. Após cobrança de falta pelo lado direito, Eric Lichaj se antecipou ao colombiano e emendou de cabeça às redes. Os Gunners chegaram a empatar quatro minutos depois, com Per Mertesacker aproveitando o rebote de uma bola na trave. Contudo, o alívio seria brevíssimo.

Por mais que o Arsenal tivesse mais de controle da bola, errava demais na construção das jogadas e a agressividade do Nottingham Forest era bem maior. Ospina seguia salvando o seu time, diante das chegadas constantes das Tricky Trees. Então, o segundo gol saiu aos 44, em outra boa participação de Lichaj. Um dos mais antigos do elenco, o lateral dominou a bola no peito e, da entrada da área, acertou um belíssimo chute na gaveta. Pintura que motivava os anfitriões rumo ao segundo tempo.

Com o Forest tentando se resguardar na defesa, o Arsenal esboçou uma pressão em busca do empate. Mas o time da casa seguia ameaçando nos contra-ataques e chegou ao terceiro gol antes, aos 19 minutos do segundo tempo, para delírio da torcida no City Ground. Pênalti convertido por Ben Brereton, que incomodava demais os seus marcadores, com toda a energia de seus 18 anos de idade.

Sem grandes alternativas no banco, Wenger precisava confiar em seus garotos. E até deu um bocado de sorte ao reduzir a diferença aos 33, em saída errada do goleiro Jordan Smith, que deixou a bola nos pés de Danny Welbeck. A reação dos Gunners, no entanto, parou por aí. Cinco minutos depois, em mais um pênalti, Kieran Dowell fez o quarto do Forest – um lance bastante reclamado pelos londrinos, apontando aos dois toques do batedor. Após consultar o assistente, o árbitro validou o tento. Os anfitriões ainda teriam que se segurar com um a menos nos minutos finais, depois que Joe Worrall foi expulso, aos 43. O Arsenal, de qualquer forma, era inócuo e sequer aproveitou sua melhor oportunidade de reduzir o vexame.

Ao longo dos últimos anos, a Copa da Inglaterra vinha sendo o porto seguro de Arsène Wenger no norte de Londres. O Arsenal havia conquistado o torneio em três das últimas quatro temporadas, incluindo 2016/17. Agora, amarga uma eliminação precoce que é inédita ao treinador. A última vez que os Gunners caíram nos 32-avos de final foi justamente na temporada anterior à chegada do francês, em 1996/97, superados pelo Sheffield United. Dimensiona o tamanho do tombo, em uma semana que até vinha sendo boa, após o empate eletrizante contra o Chelsea na Premier League. Os reservas aumentam a cobrança de forma desnecessária sobre os titulares, embora a culpa recaia sobre Wenger, por sequer deixar algum medalhão no banco.

Já o Nottingham Forest desfruta o lampejo. Desde 1996/97 que os alvirrubros não derrotavam o Arsenal, em tempos nos quais ainda disputavam a Premier League. Ao lado do Coventry City, que atualmente figura na quarta divisão e eliminou o Stoke City, os bicampeões europeus protagonizaram o maior feito da Copa da Inglaterra nesta etapa. Com um pouco de sorte no chaveamento dos 16-avos de final, que acontece nesta segunda, podem sonhar ainda mais alto. Mas por aquilo que aconteceu neste domingo, deu para ver que o espírito de luta das Tricky Trees é capaz de levar a campanha além – exatamente como naquela época em que o sucesso do Forest não era uma raridade.