Tristón Lopez-Chicheri, diretor do estúdio de arquitetura L35

[ENTREVISTA] Arquiteto do novo Bernabéu: “Estádio tem a capacidade de ser um ícone da cidade”

Por Bruno Bonsanti e Ubiratan Leal

Três estúdios de arquitetura se juntaram para desenhar o projeto do novo Santiago Bernabéu. Os alemães da GMP, com vasta experiência em estádios, os catalães da Ribas & Ribas e a L35. Venceram porque conseguiram colocar no papel a principal exigência do Real Madrid. Transformar a casa do clube em algo mais que um campo que recebe jogos de futebol. Torná-la mais rentável e um ícone da capital espanhola.

Por isso, haverá hotéis, restaurantes e um centro comercial, todos com vistas para o gramado, embora o acesso a esses locais sejam controlados durante as partidas. Houve até uma preocupação com os shows que podem ser realizados no Bernabéu, o que explica a construção de uma moderna cobertura em uma cidade que não neva tanto assim, nem faz tanto calor assim.

Segundo uma reportagem do jornal espanhol El País, os frequentadores de estádios americanos gastam, em média, R$ 30. Os que vão ao Bernabéu deixam apenas R$ 2,60.  A ideia é aumentar a verba que o Real Madrid arrecada com o seu estádio, o que é essencial à medida que o fair play financeiro se aproxima – começa na próxima temporada.

Para conhecermos um pouco melhor o projeto do novo Santiago Bernabéu, que à primeira vista parece uma caixa de metal, ou uma nave espacial, conversamos com o diretor da L35, o espanhol Tristán Lopez-Chicheri, que falou um pouco sobre as dificuldades de realizar essa reforma no meio de uma cidade e na Paseo de la Castellaña – uma das principais avenidas de Madrid -, além de ter que fazer tudo isso sem interditar o estádio, que deve ficar pronto em 2018.

O novo Santiago Bernabéu terá uma cobertura para proteger o gramado

O novo Santiago Bernabéu terá uma cobertura para proteger o gramado

Quanto tempo vai demorar para tudo estar pronto?

Este ano, vamos desenvolver o projeto. As obras começam ano que vem, antes do verão, por volta de junho de 2015, e termina em 2018. Três anos.

Será tudo feito com o estádio funcionando?

O tempo inteiro. É a maior dificuldade, é necessário fazer por partes. E a maior dificuldades é o levantamento da cobertura, que precisa ser feita durante o período que não tem futebol, no verão. No verão, teremos dois meses para levantar a cobertura.

Vai aumentar a capacidade do estádio?

Sim, mas não posso te dizer quanto. Aumenta.

Tem alguma razão para fazer um estádio coberto em Madrid?

Madrid tem um inverno frio e um verão muito quente. Temos extremos. A questão da cobertura, porém, são duas. A cobertura permite utilizar o estádio para outro tipo de evento, um show, por exemplo, planejar um concerto em junho. Em junho, pode chover muito em Madrid. Com a cobertura, o estádio pode ser usado para outras atividades. Ela também pode ser usada se chover muito antes de uma partida. Apesar da drenagem ser boa, um pouco de água fica. Se chover, o estádio é fechado e aberto 15 minutos antes da partida. O jogo sempre será descoberto, mas há como se proteger da chuva.

O novo Bernabéu vai ter uma cobertura mais fechada que a atual.

Sim, todos os assentos estarão cobertos. O buraco abrange apenas o campo.

Essa cobertura permite que a iluminação natural passe?

A cobertura tem um material translúcido, teflon, que passa luz mesmo quando a cobertura está fechada. Não é completamente opaco. O gramado não vai morrer.

Vocês estudaram a acústica para que o grito dos torcedores seja mais alto que o dos visitantes?

Foi estudado, mas não com esse objetivo. Estudamos para que fosse um local acusticamente agradável. O Bernabéu é usado para shows e muitos estádios não tem acústica boa para isso. Nesse caso, a cobertura melhora a acústica de shows. Torcer mais ou menos é responsabilidade dos torcedores.

A pele do estádio é uma tela?

Toda fachada é iluminada com LED, mas há uma zona com mais densidade, que nos permite gerar imagens. É a zona do Paseo de La Castellaña, que é menos residencial e tem uma potência de iluminação maior. Haverá uma grande praça onde hoje os ônibus são estacionados.

Eu li que o design foi inspirado nos galáticos.

Não. Nós nos inspiramos no movimento. À medida que você se move, o estádio vai mudando. Não é igual de nenhum lugar. Futebol é movimento. A bola não vai em linha reta, ela se movimenta.

Neste momento, Real Madrid, Barcelona e Atlético estão com projetos de novos estádios. Há alguma pressão, da torcida ou da imprensa, para fazer o melhor, porque o Real Madrid acredita que precisa ser melhor em tudo?

Eu acredito que o estádio Bernabéu tem uma posição singular, porque está no meio da cidade. Os outros não estão. É isso que torna o Bernabéu muito especial, a capacidade de se tornar um ícone da cidade. É um diferencial que te permite fazer um estádio diferente. A pressão se dá pela posição especial, de fazer algo singular para a cidade.

A Espanha não vive um bom momento econômico, mas o Real Madrid vive. Pensou-se em tecnologias para controlar o custo das obras?

O financiamento é problema do Real Madrid. Como arquitetos, fizemos o melhor projeto possível, que respondia às exigências do Real Madrid da melhor maneira possível, mas a cobertura utiliza uma estrutura já existente, ali há uma economia. A pele do estádio não carrega a estrutura, então ali há uma economia. Se fosse um estádio mais pesado, teríamos que reforçar a estrutura já existente e evitamos fazer isso para sermos mais competitivos e eficientes.

O Bernabéu é um ícone mundial do futebol, do qual a torcida do Real gosta muito. Como reformar um ícone desses sem prejudicar a história?

O Bernabéu sofreu várias transformações. O primeiro estádio era praticamente aberto, já com suas arquibancadas, em 1940. Teve uma reforma em 1982, para a Copa do Mundo, e outra nos anos 1990. Então, não é a primeira transformação. É uma mais radical, mas como as de outros estádios do mundo.

Houve a preocupação de não mudar muito, manter a essência?

As reformas anteriores eram mais uma evolução do projeto. Essa é uma transformação mais radical, mas o vídeo encantou a torcida. Não temos medo. Os estádios, hoje em dia, estão mudando muito radicalmente. Há estádios que não têm a imagem tradicional de um estádio, e acho que isso é importante. Como o Bernabéu está no meio da cidade, e não será usado apenas em jogos, já é um estádio especial. Tem hotel, restaurantes, clínicas, ginásio, centro comercial. Dá origem a outra fisionomia de estádio.

Estudou ou se inspirou em outros projetos de estádio?

Olhamos muitas coisas. Nossos sócios da GMP fizeram mais de 25 estádios e têm muita experiência. Vimos muitos estádios, mas usamos uma folha em branco. Realmente começamos do zero. Vimos outros modelos, mas não nos satisfizeram. O estádio dentro da cidade exigia outra soluções.

Um dos estádios que estão sendo feitos no Brasil, o do Palmeiras, é no meio da cidade. A proximidade é bem similar. Foi uma inspiração?

Nós o vimos também, mas o Bernabéu está dentro da cidade há muitos anos. No começo, não, mas a cidade chegou e o rodeou. E as habitações ao redor exigem soluções próprias, diferentes, não uniformes.

O Paseo de La Castellana é uma das principais avenidas de Madrid. Alguma solução foi pensada por causa das limitações de acesso?

Sim. O estádio tem que funcionar enquanto as obras são feitas. Tudo tem que ser feito por partes. O terreno já está preparado para as obras, e parte da lentidão é porque a obra tem que ser feita enquanto o estádio e a cidade funcionam. Essa é a grande dificuldade. Foi um fator para ganhar o concurso.

Há algum critério para colocar o Bernabéu entre os melhores estádios da Europa?

O Bernabéu já tem a classificação máxima da Fifa. O rosto dele será mais reconhecível, mas ele já tem a classificação máxima. Esse estádio é especial, bastante vertical. Os assentos estão muito acima do campo.

O que terá de especial no centro comercial no Paseo de la Castellana?

Terá lojas normais e lojas especiais. Terá uma loja da Adidas com coisas do Real Madrid. Arquitetonicamente, é uma janela para a cidade. É quase um mirante. Tem todas as atividades no interior, mas se vê toda a cidade. Acima de tudo, há um terraço, do qual se pode observar o campo e a cidade. Todos os restaurantes são assim, mas essas zonas são controladas durante as partidas.

A Espanha é um país que tem mais controle sobre isso, mas algo foi feito para evitar que os clientes do centro comercial se cruzassem com os torcedores?

Estão separados. Quem vai para o jogo não passa pelo centro comercial. Você pode passar, mas não há acesso para o centro do estádio. No futebol, muita gente sai de uma vez e saem muito emocionados. Não é uma boa ideia que passem pelo meio de um centro comercial.

E o hotel?

A maioria dos quartos tem vista para a Castellana, mas alguns têm para os quartos. Haverá uma administração especial nos dias de jogos para os hóspedes desses quartos.