No começo dos anos 70, o Olaria era o clube mais ambicioso e promissor do subúrbio do Rio de Janeiro. Tomando o lugar do Bangu como o time que mais incomodava os grandes, o clube da região da Leopoldina partiu para a melhor campanha de sua história no Campeonato Carioca em 1971, quando chegou a brigar pelo título e terminou numa excelente terceira colocação. O time, dirigido pelo velho craque Jair Rosa Pinto, contava com uma defesa firme, que revelou o zagueiro Miguel, e uma dupla de alto nível no meio-campo formada pelos talentosos Afonsinho e Roberto Pinto. E por trás de tudo isso, havia a paixão ardorosa (e o dinheiro farto) do presidente e patrono Álvaro da Costa Melo. A curta, porém intensa, Era de Ouro do Alvianil da Rua Bariri é a história que a coluna conta hoje.

O contexto da ascensão

Campeão carioca em 1966 e vice em 1964, 1965 e 1967, além de terceiro colocado em 1963, o Bangu experimentou um declínio acentuado a partir de 1968. No fim daquele ano, o lendário presidente Euzébio de Andrade, pai do então diretor de futebol Castor de Andrade, abriu mão de disputar novas eleições e, junto com o filho, deixou o clube. Os alvirrubros assistiriam então ao início de uma crise que se agravaria profundamente ao longo da década de 1970. No vácuo desse período de baixa dos banguenses, outros clubes apareceram para se candidatar ao posto de “terror dos subúrbios”, agora vago.

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O primeiro deles foi o Bonsucesso, que em 1968 e principalmente em 1969 fez boas campanhas e colheu alguns resultados históricos, jogando um futebol baseado num ferrolho quase intransponível, com cinco defensores, onde o experiente zagueiro Paulo Lumumba comandava o miolo do setor ao lado de duas jovens revelações que em breve virariam nomes famosos no futebol carioca: Moisés e Renê. Ganhou o apelido de “fantasma”, por frequentemente tirar pontos dos grandes, chegando a sustentar uma respeitável invencibilidade diante deles. Mas não teve condições de brigar por títulos.

O segundo foi o Olaria, rival do Bonsuça na região da Leopoldina (zona norte do Rio), e cujo crescimento teve um marco inicial exato: 5 de janeiro de 1970, data da posse do comerciante Álvaro da Costa Melo na presidência do clube. Seu Melo, como era conhecido no bairro, era um imigrante português que chegou ao Brasil na década de 1920. Tempos depois, deixou o emprego de motorneiro de bonde para abrir uma padaria. Prosperou e enriqueceu fabulosamente, tornou-se incorporador, estendeu suas propriedades e negócios até pelos bairros vizinhos. Como quase todo lusitano, era torcedor (e sócio) do Vasco até uma certa tarde de sábado de 1933, quando um amigo o levou a um jogo do Olaria, ali perto de sua casa.

Foi amor à primeira vista. Poucos anos depois, já era tesoureiro do clube. Em 1937, quando o Olaria foi excluído do Campeonato Carioca após a pacificação das ligas, Melo se aborreceu e deixou a diretoria para cuidar de seus negócios. Foi levado de volta, contra sua vontade, em 1946 para ocupar outro cargo: a presidência. Na época, o clube tinha apenas seis sócios, que colaboravam com uma ninharia. Especulava-se uma fusão com o Bonsucesso. O novo mandatário não só conseguiu evitar o desaparecimento do time como o colocou de volta no Carioca. A exigência era a construção de um estádio. Seu Melo levantou contribuições aqui e ali, e dentro de dois meses o campo da Rua Bariri estava pronto.

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No início dos anos 50, Álvaro da Costa Melo deixou novamente o clube, retornando no fim da década seguinte. O Olaria vivia momento político bastante conturbado, e o velho comerciante reapareceu para colocar as coisas em seus lugares. Antes mesmo de assumir outra vez a presidência, contratou o técnico Paulinho de Almeida e, junto com ele, começou a reforçar o elenco, que mal contava com um time completo de profissionais quando de sua chegada. Reformou também o estádio, para o qual pretendia uma expansão ambiciosa de capacidade para até 40 mil torcedores. Além disso, havia a promessa de gordas gratificações (ou “bichos”) aos jogadores, especialmente em caso de vitória sobre os grandes.

1970: Ensaio para a campanha histórica

Querendo fazer um grande papel na Taça Guanabara e no Campeonato Carioca em 1970, o Olaria formou um bom time. Para se unir à prata da casa, em meio à qual despontavam nomes como os zagueiros Miguel e Altivo e o lateral-esquerdo Alfinete (que retornava de um empréstimo à Portuguesa paulista), foram trazidos vários jogadores também por empréstimo, principalmente do Vasco (o goleiro Pedro Paulo, o zagueiro Fernando, o meia uruguaio Danilo Meneses, o ponta-direita Nado e o atacante Acelino) e do Botafogo (o lateral-direito Mura, o centroavante Humberto, o ponta-esquerda Torino e o maior deles, o meia-armador Afonsinho). Outros reforços foram buscados na capital paulista, como o meia Gessê (São Paulo) e o ponta Dario (Palmeiras).

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Na Taça Guanabara, naquele ano ainda organizada como um torneio à parte do Estadual e disputada entre março e maio em várias fases, o clube até fez boa campanha, mas acabou eliminado antes do turno final, que reunia as seis melhores equipes. No Carioca, porém, o desempenho chamaria mais a atenção: terminaria o turno na sexta colocação, bem mais próximo da pontuação dos grandes do que dos pequenos. Seria ainda o único a derrotar o Fluminense, que virou a fase na liderança. Simbolicamente, Bangu e Bonsucesso, forças de anos anteriores, sequer conseguiram ficar entre as oito melhores equipes, que avançariam para a etapa seguinte.

Ao fim do campeonato, o clube mostrava que seu novo patamar não era fogo de palha. Terminou na sexta colocação, mas bem mais perto do Flamengo – quinto colocado, dois pontos acima – do que do Madureira – sétimo, oito pontos abaixo. No entanto, a partir de meados de setembro o clube precisaria excursionar para manter sua folha de pagamentos, já que não disputaria o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou então ceder alguns de seus jogadores por empréstimo até o fim do ano – caso de Alfinete, que defenderia o Botafogo no campeonato interestadual. Mas o saldo do primeiro ano de ‘revolução’ era muito positivo.

Brigando entre os grandes

Apesar disso, a equipe passaria por mudanças. O bom trabalho na Rua Bariri levou Paulinho de Almeida ao Botafogo, sendo substituído pelo velho craque Jair Rosa Pinto, que havia comandado o Madureira no Carioca. Num elenco formado basicamente por jogadores emprestados, a maioria retornou a seus clubes de origem ao fim de 1970, mas outros felizmente tiveram seus vínculos prorrogados ou foram mesmo contratados em definitivo, caso de Afonsinho – que em março encerrava com vitória uma longa disputa judicial com o Botafogo por seu passe – e do goleiro Pedro Paulo, cedido sem custos pelo Vasco.

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Para as demais posições, novos e bons nomes chegaram. Aproveitando sua boa relação com os dirigentes santistas, já que havia defendido o clube nos anos 50, Jair Rosa Pinto conseguiu trazer da Vila Belmiro o lateral-direito Haroldo, o ponta-de-lança Luís Carlos Feijão e o baixinho atacante Osni. Do Palmeiras, onde também havia sido ídolo como jogador, o técnico trouxe o ponta-direita Marco Antônio (famoso por jogar com uma fita amarrada na cabeça para prender os cabelos). Do America, veio o veloz atacante Salvador. E já com o Carioca em andamento, chegariam o ponteiro Antoninho, vindo do Juventus, e, mais tarde, o experiente meia Jaime, campeão pelo Bangu em 1966 e que andava pelo Parque Antártica.

Mas o principal reforço tinha relação ainda mais próxima com o treinador. Era seu sobrinho, o experiente meia Roberto Pinto, jogador de técnica refinada que havia feito ótima temporada pela Ponte Preta no ano anterior, levando a equipe campineira a um surpreendente vice-campeonato paulista. Aos 33 anos, o jogador que acumulava passagens pelo Vasco, Bangu e Fluminense, voltava ao Rio consagrado e pronto para a nova empreitada. Se o time contava com uma defesa firme, que jogava duro e sério, formada por Haroldo, Miguel, Altivo e Alfinete, era no meio-campo que o talento despontava. Ele e Afonsinho faziam uma dupla de luxo no meio-campo do Olaria, de fazer inveja à de muito clube grande do país.

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Afonso Celso Garcia Reis, 23 anos, paulista de Marília, era estudante de Medicina, idealista, meia-armador revelado pelo XV de Jaú e que na época se destacava no Botafogo. Apontado como o sucessor de Gerson quando este se transferiu para o São Paulo, teve papel importante na conquista da Taça Brasil de 1968. No entanto, por se negar a aparar a barba que deixara crescer, entrou em atrito com a diretoria do clube e foi tachado de “indisciplinado”. Acabou afastado do elenco e proibido até de treinar. Paradoxalmente, viu ao mesmo tempo os cartolas recusarem todas as propostas de clubes grandes por seu passe. Levou então o caso à Justiça. Até aparecer o Olaria. Lá, jogaria com o visual que bem entendesse.

Roberto Pinto, por sua vez, deixara o Rio em 1967 com o cartaz de jogador indiscutivelmente talentoso, que dera ao Vasco um título histórico (o de “supersupercampeão” carioca, em 1958) e brilhara num Bangu que sempre flertava com a taça. Mas era considerado também um tanto mascarado, manhoso. No interior paulista, primeiro em Ribeirão Preto e depois em Campinas, renasceria como líder, além de preservar a velha habilidade para organizar todos os setores de uma equipe e fazê-la jogar ao seu redor. Não ficou mais tempo por lá por uma questão de adaptação de sua família. Mas agora, de volta à capital carioca, estava de novo em casa.

Mas as mudanças no Olaria para temporada de 1971 não se limitaram ao time. O clube passou a adotar até mesmo uma nova camisa. Deixou de lado o tradicional modelo branco com uma faixa horizontal azul (com as cores invertidas no uniforme reserva) para vestir um modelo listrado em azul e branco na vertical. A estreia da nova combinação aconteceu no segundo tempo do primeiro jogo da equipe no Carioca, um empate em 0 a 0 diante do favorito America, treinado por Zezé Moreira e que contava com jogadores como Edu Antunes Coimbra e Tadeu Ricci.

O regulamento do campeonato previa uma fase de classificação com os times divididos em dois grupos de seis que se enfrentavam em turno único. Os quatro melhores de cada avançavam para a fase final, um octogonal em turno e returno, carregando a pontuação da etapa anterior. Já na fase classificatória o Olaria fez campanha brilhante. Jogando de igual para igual – às vezes até dominando os adversários –, arrancou empates em 0 a 0 com os favoritos Flamengo e Vasco no Maracanã, além do já citado America.

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Também nesta fase o Olaria venceu o clássico da Leopoldina contra o Bonsucesso por 2 a 1, de virada (Jair Pereira abriu o placar para os rubro-anis, antes de Roberto Pinto e Haroldo, de falta, reverterem a contagem), e ainda conseguiu dois bons triunfos contra o Campo Grande (4 a 1, com o zagueiro Altivo furando a rede numa bomba em cobrança de falta) e a Portuguesa (2 a 0, com direito a gol olímpico do ponteiro Marco Antônio).

O Olaria encerrou a fase de classificação com a segunda melhor campanha tanto em seu grupo quanto no geral, atrás apenas do Botafogo, num bom desempenho que fazia crescer a confiança de Jair Rosa Pinto: “Não temos medo de ninguém. Mesmo que o próximo adversário seja difícil, saberemos enfrentá-lo com a maior seriedade”. A boa campanha era alimentada por gordos “bichos” por vitória (ou até por empate contra os grandes) pagos em parte pela diretoria e complementados por contribuições dos endinheirados sócios, e que superavam os estipulados por todos os outros clubes.

Na fase final, a equipe estreou diante do Fluminense e outra vez empatou sem gols – pela quarta vez contra os grandes – mesmo desfalcado de Haroldo e Miguel. A primeira vitória viria logo em seguida diante do Bangu: 2 a 0, com gols de Roberto Pinto e do recém-contratado ponta Robertinho, ex-São Cristóvão. E na terceira rodada chegaria a vez de enfrentar o Botafogo, líder isolado em invicto, tido como o time a ser batido. E mais uma vez o Olaria arrancou um 0 a 0, embora pudesse ter vencido: teve a melhor chance do jogo quando Antoninho driblou o goleiro, tocou para o gol, mas Paulo Henrique salvou em cima da linha.

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A invencibilidade dos bariris no campeonato chegaria a dez partidas na rodada seguinte, quando a equipe voltou a arrancar um empate com um grande, no caso o Flamengo, num 2 a 2 repleto de reviravoltas. O Olaria abriu o placar com Luís Carlos, viu os rubro-negros virarem com gols de Milton (que logo depois seria expulso junto com Altivo) e Fio, mas reagiria e novamente empataria, com outro tento de Luís Carlos. O saldo da batalha, no entanto, deixou preocupações: sem Altivo, suspenso, e Alfinete e Roberto Pinto, lesionados, os alvianis teriam pela frente o Vasco, que fazia campanha de recuperação.

Os desfalques foram bastante sentidos naquela noite de 4 de maio, quando o Vasco venceu por 1 a 0 num gol chorado de Dé, depois de a bola rebotear duas vezes na defesa. O lance provocou muita reclamação do técnico Jair Rosa Pinto: “A jogada do gol foi uma vergonha. Todo mundo viu que o Dé, antes de fazer o gol, segurou o Pedro Paulo. Só o juiz não viu”. Pilhado, o time fez um jogo violento contra o America e empatou em 1 a 1, com uma expulsão para cada lado.

A recuperação veio com dois grandes resultados. Já com os nervos em ordem, uma semana depois, o Olaria obteve uma vitória categórica sobre o rival Bonsucesso por 3 a 0, com gols de Antoninho, Salvador e Osni. E em seguida, na abertura do returno, venceu o America pelo mesmo placar. Afonsinho e Roberto Pinto formavam de novo a dupla de meio-campo após três jogos sem poder contar com um ou outro, e o Alvianil passou por cima. Roberto Pinto fez um de falta e outro de pênalti, e Salvador completou de cabeça um cruzamento de Haroldo para fechar a contagem.

Veio então um eletrizante empate com o Fluminense. Logo aos três minutos, Luís Carlos abriu o placar com um golaço: matou no peito, deu um chapéu em Galhardo e bateu de primeira, vencendo Félix. Mas os tricolores viraram com dois gols de Ivair. Aos 36 minutos, o time suburbano empatava novamente em bola de Antoninho que desviou no zagueiro Assis antes de entrar. E três minutos depois passaria novamente à frente com gol de pênalti de Altivo. Na etapa final, o lateral Toninho voltaria a igualar o marcador, depois de o Flu ter ficado com um a menos, após a expulsão do ponteiro Lula.

O jogo seguinte, em 5 de maio, seria o da desforra contra o Vasco. Numa grande exibição, na qual mostrou excepcional coesão e senso de cobertura defensiva, além de muita classe no toque de bola envolvente, o Olaria abriu o placar logo aos 11 minutos de jogo com Antoninho. No segundo tempo, pouco depois de Marco Antônio acertar o travessão de Andrada, houve uma cobrança de falta rolada de Roberto Pinto para Altivo. O chute forte desviou em Eberval e enganou o arqueiro vascaíno, selando a justa vitória olariense.

Aquela sequência de atuações representou talvez o auge da equipe na competição. Mesmo o ataque, setor tido como o menos brilhante e eficiente do time, apareceu muito bem – apesar da ausência sentida de um goleador nato. O ponta-direita Marco Antônio recuava e ajudava a preencher o meio-campo. Luís Carlos, o ponta de lança, era um jogador impetuoso, inteligente, o mais habilidoso do setor e um tormento constante para as defesas adversárias. Salvador usava sua velocidade impressionante para puxar os contragolpes, pelo meio ou pelas pontas. Por fim, na esquerda, Antoninho (o último a chegar e a se firmar como titular) contribuía com experiência, controle de bola e a boa articulação com os meias e os companheiros de frente.

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O confronto decisivo para as pretensões olarienses naquele campeonato viria na partida seguinte: dividindo a vice-liderança com o Fluminense, o time alvianil encarava o líder invicto Botafogo. Numa noite inspirada do atacante Paraguaio, substituto de Jairzinho, os alvinegros abriram 2 a 0, mas o Olaria foi buscar a igualdade na raça, com gols de Salvador e Haroldo. Na etapa final, quando a pressão do time da Rua Bariri era enorme, e o arqueiro alvinegro Ubirajara fazia intervenções cruciais, Zequinha desceu pela direita, passou por Alfinete e cruzou. Nilson Dias ajeitou de cabeça e outra vez Paraguaio testou para marcar seu terceiro gol e dar a vitória aos botafoguenses, que agora se colocavam praticamente inalcançáveis, seis pontos à frente.

Com o título muito distante, restou ao Olaria manter a grande campanha para seguir de cabeça erguida. E o time responderia vencendo os dois compromissos seguintes. Primeiro contra o Bangu, num Maracanã semideserto. O time abriu o placar logo aos 16 minutos quando Afonsinho fez jogada de ponteiro pela esquerda, chutou e o goleiro Nei espalmou nos pés de Salvador, que pegou de sem-pulo, estufando as redes. Na etapa final, Afonsinho tabelou com Salvador e foi derrubado bem perto da área. Altivo cobrou a falta com seu habitual chute forte, acertando o canto esquerdo de Nei e fechando a contagem.

Na penúltima rodada, em General Severiano, o time bateu o Bonsucesso por 1 a 0 e confirmou o histórico terceiro lugar. O gol, marcado logo aos nove minutos de um jogo muito mais tranquilo do que o placar indica, foi fruto de uma jogada coletiva, trabalhada. Roberto Pinto entregou a Antoninho, que lançou Salvador em velocidade. O atacante foi à linha de fundo, driblou o zagueiro rubroanil e cruzou para trás. Afonsinho, que vinha na corrida, chutou de perna esquerda no canto do goleiro. O título daquele ano acabou nas mãos do Fluminense, que arrancou no fim, enquanto o Botafogo tropeçou seguidamente, culminando na vitória tricolor no confronto direto da última rodada, por 1 a 0.

A polêmica das rendas

Enquanto o time fazia bonito em campo, uma grande discussão tomou conta dos bastidores durante a fase final do campeonato. Diferentemente de hoje, quando só é mencionado como indicador da saúde financeira dos clubes, o somatório das rendas era um importante critério para definir os participantes de um torneio – acima até mesmo do índice técnico. Para a disputa do campeonato nacional, por exemplo, ficou estipulado que os cinco participantes cariocas seriam o campeão estadual mais os quatro melhores colocados em rendas. O critério também seria usado para indicar os times que jogariam a Taça Guanabara no meio do ano e ainda os pré-classificados para o Campeonato Carioca do ano seguinte (no que a Federação acabaria voltando atrás pouco depois).

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Durante a fase final, ficou claro que – ainda que tivesse chance até mesmo de ser campeão carioca – o Olaria teria de brigar palmo a palmo com America e Bangu no ranking de rendas pela quinta vaga da Guanabara no Brasileirão. Atento aos movimentos da Federação, que divulgava a tabela dirigida aos poucos, quase rodada a rodada, o clube começou a protestar por ser quase sempre indicado para jogar nas piores datas (por exemplo, nos meios de semana à tarde), enquanto os dois concorrentes muitas vezes engordavam suas arrecadações atuando em preliminares de clássicos no Maracanã (a renda era contada igualmente para todos os quatro clubes envolvidos em rodadas duplas).

Em 7 de junho, quando a Federação anunciou a tabela para as rodadas finais, foi a gota d’água: mais uma vez alegando terem sido prejudicados, os dirigentes olarienses anunciaram que o clube estava abandonando o campeonato. “Fizemos um sacrifício enorme este ano. Provamos a todos que poderíamos armar um time para disputar um campeonato condignamente. Com muito sacrifício, apresentamos uma equipe que enaltecesse o futebol carioca, não pensando somente em enaltecer nosso quadro social, mas também em consideração e respeito ao público carioca. O que conseguimos com isto? Nada. Não recebemos da Federação nem ao menos o reconhecimento pelo nosso trabalho”, lamentou Álvaro da Costa Melo, que também anunciava ali sua renúncia à presidência do clube.

A situação acabou contornada num encontro com o governador Chagas Freitas e tudo voltou aos seus lugares. Mas o clube conseguira atrair considerável atenção para sua causa e agora partiria para o contra-ataque. A rede de lojas de departamentos Ponto Frio publicou nos jornais um anúncio grande em apoio ao clube. E na noite de sexta-feira, 25 de junho, véspera da partida contra o Flamengo pela última rodada, o diretor comercial da empresa compareceu à Adeg (órgão que administrava o Maracanã) e entregou um cheque de Cr$ 800 mil, referente à compra de mais de 115 mil ingressos de todos os setores.

O destino das entradas, cuja compra alavancaria consideravelmente o Olaria no ranking das rendas, também já estava definido: seria distribuído gratuitamente nas lojas do Ponto Frio, em portas de escolas, orfanatos, asilos e também nas imediações do Maracanã, em Kombis da empresa. Em campo, o Alvianil perdeu por 1 a 0 para o Flamengo, gol de Fio, mas mesmo assim terminou na terceira colocação por pontos – à frente dos próprios rubro-negros (em quarto) e de America (quinto), Vasco (sexto) e Bangu (sétimo). Ficou também à frente do America nas rendas: embora pouco mais de 50 mil torcedores tivessem de fato passado pelas roletas do Maracanã (ainda assim um bom público), o número oficial anunciado foi de 118. 314 pagantes, gerando uma arrecadação que superava a soma dos rubros em mais de Cr$ 200 mil.

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Irritado, o America anunciou que não entraria em campo para enfrentar o Bangu no domingo de manhã em São Januário, no que contou também com a adesão do adversário, provocando um W.O duplo em protesto contra o que os dois clubes consideravam uma atitude antidesportiva dos alvianis – embora o presidente do Olaria reiterasse que toda a ideia e a execução do processo de compra da renda haviam sido feitas exclusivamente pelo Ponto Frio.

A questão foi parar nos tribunais, e o time rubro recorreu ao presidente da CBD, João Havelange, para que se pronunciasse em sua causa. A entidade, através de seu diretor técnico Antônio do Passo (ex-presidente da Federação Carioca), decidiu com isso alterar os critérios de classificação para o Brasileiro, passando a adotar o convite puro e simples. E deu a quinta vaga da Guanabara ao America. “Eu não poderia ter outra atitude. Afinal de contas, eu sou responsável pela introdução do mesmo critério no campeonato nacional. Admitir a compra de renda, agora, seria contribuir para desmoralizar o próprio campeonato nacional”, justificou o dirigente.

Ironicamente, durante o Brasileiro a situação voltaria a se repetir envolvendo agora o Vasco, time do qual Antônio do Passo havia sido dirigente: ao fim da primeira fase, o critério de renda dava vaga a alguns clubes na etapa seguinte, e os chamados “cardeais” vascaínos (grupo de alto poder aquisitivo que integrava o conselho do clube) compraram dezenas de milhares de ingressos excedentes para um jogo contra o Palmeiras, no Maracanã, no intuito de garantir a classificação da equipe, que andava mal, por meio deste critério. Com mais este caso, a CBD viu-se obrigada a reformular o regulamento do torneio, criando um novo turno classificatório, e excluindo por ora o critério de renda (que voltaria em anos posteriores).

A vida após a grande campanha

Para o Olaria, porém, já era tarde. O clube acabou sem vaga no Brasileiro e desistiu de participar da Taça Guanabara, disputada em julho, logo após o Carioca. Novamente dirigido por Paulinho de Almeida, depois que Jair Rosa Pinto não renovou o contrato, o Alvianil preferiu embarcar para uma excursão pelo Norte e Nordeste levando todos os seus titulares, muitos deles cobiçados por outros clubes de dentro e fora do Rio (o São Paulo tentou a contratação de Miguel, convocado para a Seleção Brasileira, e o Cruzeiro sondou Alfinete). Retornou invicto, com sete vitórias e três empates.

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Os principais nomes do time, no entanto, foram parar quase todos no Vasco, por empréstimo, no segundo semestre: Haroldo, Miguel, Alfinete e Afonsinho seguiram para São Januário, onde disputariam o Brasileiro. Além deles, o atacante Salvador era cedido ao Atlético Mineiro até o fim do ano (do qual retornaria com o título nacional). Luís Carlos e Osni, por sua vez, foram devolvidos ao Santos – e o ponteiro seguiria para o Vitória, onde começaria a se consagrar no ano seguinte.

Para 1972, o Olaria faria uma aposta arriscada, mas sem dúvida de muito impacto, para a disputa do Campeonato Carioca: a contratação de Garrincha, já com 39 anos de idade, levou o clube novamente às capas de revistas e jornais, mas rendeu pouco em campo. O ponta jogou apenas sete partidas, sendo substituído na maioria delas. Junto com ele também chegaram outros veteranos, figuras conhecidas do futebol carioca, como lateral Fidélis (emprestado pelo Vasco) e o zagueiro Mário Tito (vindo do Cruzeiro), ambos campeões com o Bangu em 1966.

Se não chegou a repetir a sensação do ano anterior, o time da Leopoldina fez campanha digna, em especial no primeiro e terceiro turnos. Curiosamente, a equipe foi treinada durante a maior parte do torneio pelo meia Roberto Pinto, que acumulava as funções de jogador e treinador. O Olaria terminou na sexta colocação, novamente como o melhor entre os pequenos. Mas mais uma vez o convite da CBD para disputar o Brasileiro não viria, provocando novas baixas no elenco (o zagueiro Altivo seguiria para o Santos e o lateral-esquerdo Mineiro defenderia o Flamengo, entre outros).

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Em 1973, o clube contaria rapidamente com a volta de Afonsinho, que defendera o Santos na temporada anterior e retornava para o Carioca. Ironicamente, embora a campanha desta vez fosse um pouco mais fraca que a do ano anterior (terminaria em sétimo, um ponto atrás do rival Bonsucesso), o clube finalmente receberia o aguardado convite da CBD para disputar o Brasileiro, que de um ano para o outro teria o número de participantes aumentado de 26 para 40 clubes.

No Brasileirão, rodando pelo país

Dez anos depois de disputar pela única vez o Torneio Rio-São Paulo, o Olaria voltaria a cruzar as divisas da Guanabara. Mas já de saída o clube sabia que não teria muita chance de realizar uma grande campanha. Além de não contar por um bom tempo com o meia Roberto Pinto, o grande maestro da equipe, ausente por lesão, a tabela divulgada pela CBD não era favorável. Das 19 partidas do primeiro turno, o Alvianil só jogaria duas no Rio, justamente contra Flamengo e Vasco no Maracanã. O torneio era para o clube como uma grande excursão contando pontos, jogando a cada três ou quatro dias numa capital diferente.

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Assim, naturalmente, o começo da campanha foi muito ruim, com apenas quatro pontos somados nos primeiros 11 jogos, sem nenhuma vitória. A reação começou exatamente com o retorno de Roberto Pinto, na partida contra o Atlético-PR no Couto Pereira (na época, chamado de Belfort Duarte): jogando sem dar espaços na defesa e arrancando em perigosos contra-ataques a partir de lançamentos do meia, o time bariri venceu por 2 a 0, gols do armador Gessê.

A partir de então, o time enfileirou uma série de grandes resultados que o transformaram de saco de pancadas a candidato à classificação. Bateu o Santos na Vila Belmiro (com um golaço de bicicleta de Jair Pereira), o Vasco em São Januário, o Remo em Belém, o América potiguar em Natal, o Fluminense e o America carioca no Maracanã e ainda arrancou empates preciosos diante do Botafogo, do Vasco, do Náutico no Recife, do Atlético no Mineirão, do Rio Negro em Manaus e do Figueirense em Florianópolis.

No fim, não foi o bastante para garantir a vaga entre os 20 que passariam para a etapa seguinte, mas o clube conseguiu justificar sua presença naquele torneio, especialmente por ter jogado quase sempre fora de casa, atuando no Rio apenas contra os rivais cariocas. Mas a boa última impressão contribuiu para que o Olaria fosse mantido no Brasileiro de 1974, disputado logo em seguida, a partir de março. Desta vez o clube fez campanha bem mais discreta, destacando-se apenas contra os rivais locais (venceu o Flu e empatou com Fla, Vasco e Bota). E o fim da fase de ouro viria definitivamente no segundo semestre com a campanha decepcionante no Estadual: penúltimo na Taça Guanabara, o Olaria sequer se classificou para os dois turnos seguintes.

Álvaro da Costa Melo, que após um breve afastamento havia retornado ao clube como patrono, decidiu novamente dar adeus em dezembro daquele ano para cuidar da família, da saúde e de seus interesses, como justificou. “Sou Olaria. Continuarei sendo. Mas agora em termos mais distantes. A minha missão está concluída, e bem concluída, modéstia à parte”, afirmou. Seu Melo, porém, voltaria diversas vezes ao clube posteriormente, como patrono ou mesmo na presidência, até falecer em maio de 1993, aos 87 anos.

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Outro adeus simbólico foi o de Roberto Pinto, que após muito pensar, decidiria pendurar as chuteiras em janeiro de 1975. Afonsinho, que havia voltado mais uma vez por essa época, seguiria para o América mineiro antes de se dedicar mais à Medicina do que à bola. Terminava um ciclo histórico para o pequeno clube da Rua Bariri, que dali em diante viveria entre a primeira e a segunda divisões cariocas, às vezes fazendo boas campanhas, às vezes apenas figuração. Em 1981, o Alvianil conquistaria a Taça de Bronze, equivalente ao Brasileiro da Série C, mas no mesmo ano acabaria rebaixado no Estadual. E nunca mais brigaria tão de igual para igual com os gigantes. E nunca mais seria tão rico e tão cheio de classe em campo como naquele início dos anos 70.