A rivalidade de Manchester ganhou força nos últimos anos. O domínio do Manchester United passou a ser ameaçado pelo Manchester City a partir da chegada dos xeiques, que injetaram dinheiro suficiente para equiparar os times. E, por mais que a fase atual dos Red Devils não seja boa, as expectativas seguem altíssimas para um bom jogo no dérbi desta terça. Com craques em campo, arquibancadas lotadas e, é claro, uma pitada de provocação. Um cenário que nem de longe sugere que, um dia, a dupla chegou a se unir com medo de um terceiro vizinho.

Foi nas décadas de 1920 e 1930, época em que os dois times mancunianos ainda não eram forças nacionais e viviam tempos difíceis. O City viu seu estádio em Hyde Road sofrer um incêndio em 1920. Três anos depois, o clube conseguiu construir uma nova casa, indo para Maine Road, no bairro de Moss Side. O problema é que o estádio era relativamente próximo de Old Trafford, o que deixava a região sul da cidade com excesso de times em relação a outras.

Essa situação motivou reclamações entre dirigentes do City, que queriam continuar na zona leste da cidade. Como os Citizens não se propuseram a voltar, o jeito foi criar um novo clube que tivesse identificação com o bairro de Hyde. A causa soou como nobre e atraiu a atenção de várias figuras importantes de City e United, incluindo o técnico Billy Meredith, ex-jogador dos dois grandes mancunianos e da seleção galesa. Na direção estavam John Ayrton, ex-dirigente do City, e John Iles, dono do complexo esportivo de Belle Vue.

O pacote estava completo. O time tinha dirigente com experiência e contatos, nomes fortes no cenário local e um grande estádio para jogar. O nome escolhido para a equipe foi Manchester Central Football Club, um meio de ter as iniciais MCFC (clara provocação ao Manchester City). A população da região de Hyde apoiou o novo time com entusiasmo, garantindo bons públicos.

O jogo sujo de City e United

Na primeira temporada, em 1928-29, o Central disputou uma liga amadora. Ao final dela, pediu para ser inscrito na Football League, o que significaria a profissionalização e o salto direto para a terceira divisão. Apesar dos atritos com o City em sua origem, quem realmente temia o Manchester Central era o United. O time de Trafford estava em grave crise e revezava suas temporadas entre primeira e segunda divisões.

Despertar desconfiança e receio dos dois clubes mais tradicionais de Lancashire não foi saudável para o recém-nascido Central. United e City se uniram e, como membros das divisões mais importantes, impuseram seu poder para vetar a entrada do novo vizinho na liga profissional. O fato se repetiu na temporada seguinte.

Em 1931, abriu-se a brecha. O Wigan Borough desistiu de disputar a Terceira Divisão (Grupo Norte). O Manchester Central se candidatou à vaga e teve apoio maciço dos clubes que já integravam a competição. Todos viam com bons olhos a chegada de um clube estruturado e que trazia boas médias de público. Mais uma vez, United e City barraram o caçula da cidade.

Houve mobilização em parte da cidade, já que os Red Devils eram vistos como um clube decadente que logo se tornaria um coadjuvante – estavam na Segundona e a média de público não passava de cinco mil pessoas. Enquanto isso, os Citizens eram os únicos representantes locais na elite inglesa, fazendo crer que a situação do United se agravaria em médio prazo.

A vitória da dupla

A diretoria percebeu que o Manchester Central não conseguiria crescer devido à união de City e United. Em 1932, o clube fechou as portas. O estádio de Belle Vue se tornou exclusivo para corridas de motos em circuito oval de terra até ser fechado devido a um incêndio. O complexo em Hyde é, hoje, mais conhecido pelo canódromo que abriga.

Nunca mais as duas equipes tradicionais de Manchester tiveram problemas com a vizinhança, ainda que a história tenha vindo à tona na última década. Em 2005, torcedores do Manchester United estavam descontentes com a compra de seu clube por Malcolm Glazer. Eles se organizaram para fundar um novo clube. O United of Manchester, que por pouco não foi batizado como Manchester Central. Apenas um fantasma diante da grandiosidade que hoje reina na cidade inglesa.

* Texto originalmente publicado no Balípodo