A química foi imediata ano passado. O Palmeiras era o clube que Cuca sempre quis treinar, e Cuca era o que o Palmeiras precisava para encerrar o jejum de títulos brasileiros. A intensidade, as superstições e a loucura boa do treinador casaram perfeitamente com a torcida palmeirense. E ele entregou o troféu que ela mais queria. No entanto, tentar reviver uma paixão antiga costuma ser a receita do desastre. A expectativa é sempre muito alta e tende a terminar em decepção. Cuca não é mais técnico do Palmeiras.

LEIA MAIS: Não faltou dedicação: faltou bola para o Palmeiras passar pelo Barcelona

O clube deveria saber disso. Não é a primeira, nem a segunda, nem a décima sétima medida sebastianista de anos recentes. Valdivia voltou, Kléber voltou, Felipão voltou, e as segundas passagens nunca foram tão boas quanto as primeiras. Quase nunca são. Por mais que fosse difícil resistir ao retorno do técnico campeão, no momento em que Cuca sinalizou que trabalharia novamente, os contextos são sempre diferentes. Parecia uma decisão lógica para os torcedores, mas dirigentes precisam ser mais frios e racionais.

Mesmo neste caso, em que o intervalo entre a glória e a frustração foi de apenas seis meses, graças às ações da diretoria do Palmeiras. Se o clube estaria de braços abertos para receber Cuca de volta assim que fosse possível, não deveria ter buscado a ruptura no começo da temporada. Contratou Eduardo Baptista, técnico completamente diferente – defesa por zona, toque de bola mais cadenciado, triangulações -, reforçou o elenco com alguns jogadores que encaixassem nesse estilo, outros aleatórios só porque são famosos, e demitiu Eduardo em seis meses.

O trabalho dele também não era bom. Foi com Eduardo que o Palmeiras perdeu categoricamente para a Ponte Preta e sofreu nas primeiras rodadas da fase de grupos da Libertadores. Mas a diretoria deveria saber que mudar o estilo de um time demanda tempo, e Eduardo certamente não o teve. Além disso, o problema mais amplo não são os nomes, mas as filosofias. Nesse aspecto, em um semestre, o Palmeiras girou 180 graus duas vezes. Obviamente, ficou tonto.

Cuca encontrou um cenário diferente para trabalhar. Apesar do título brasileiro, o elenco foi bastante modificado, resultado natural da compulsão por assinar contratos do diretor Alexandre Mattos, e não tinha mais Gabriel Jesus. Os principais reforços não funcionaram, o ambiente não era mais tão bem blindado quanto na época de Paulo Nobre, e a cobrança era outra. Não bastava mais apenas vencer, precisava fazer o time jogar um futebol melhor. Foi feito um alto investimento para trazer jogadores que pudessem executá-lo. Mesmo campeão, o Palmeiras terminou o Campeonato Brasileiro atuando muito mal, praticamente arrancando os seus pontos.

Natural que as fórmulas do ano passado não tenham funcionado. Não era o mesmo Palmeiras, não eram as mesmas ambições. E Cuca parece cansado. No seu pronunciamento de despedida, admitiu que abandonou os planos de focar em outras prioridades para “ajudar o Mauricio (Gagliotte, presidente), o torcedor”. Outrora um técnico de recursos, responsável pela base do São Paulo campeão mundial e por um Botafogo que encantava, Cuca está precisando de uma reciclagem, nem que seja para executar sua ideia de jogo com mais excelência.

Porque desde o Atlético Mineiro, os times do treinador são parecidos, na base da loucura total, da intensidade, do abafa, do encaixe individual, do “se Deus quiser a gente chega lá”. E isso, eventualmente, se esgota. Ainda mais em um futebol que clama cada vez mais por organização e bons sistemas defensivos. O segundo Palmeiras de Cuca não conseguiu replicar a competitividade do ano passado e não teve um craque como Gabriel Jesus para decidir as partidas difíceis. Mesmo nas vitórias, caminhou no fio da navalha, trocando golpes, correndo riscos, nunca no controle da partida. Defendeu-se pior, atacou pior.

O trabalho de Cuca foi ruim na sua segunda passagem, mas não podemos nos esquecer das trapalhadas da diretoria. O elenco é uma colcha de retalhos, ainda faltam jogadores confiáveis nas laterais, os maiores investimentos se provaram ruins e o caso Felipe Melo, que foi afastado pelo treinador e reintegrado para evitar um processo judicial, deixou Cuca em situação frágil. Na última quinta-feira, contra o Bahia, ele atendeu aos pedidos da torcida para colocar o volante – e Borja – em campo. O Palmeiras levou o empate e quase sofreu a virada.

Cuca sempre terá um lugar especial no coração de muitos palmeirenses. A brincadeira da calça vinho não era apenas superstição: era uma demonstração de carinho. O relacionamento entre os dois foi excepcional ano passado, mas todo ciclo tem um fim.  Chegou a hora de o Palmeiras seguir em frente. E Cuca, também.