A Arena da Baixada se coloriu em vermelho, azul e branco. As três cores do Paraná Clube tomaram as arquibancadas e pintaram uma noite histórica ao futebol paranaense. Embalada pela campanha lançada na última semana, a torcida paranista se uniu para “calar quem duvidava”. Mais do que isso, promoveu um espetáculo que durou muito além dos 90 minutos. E que terminou não só com a vitória por 1 a 0 sobre o Internacional, mas também com o novo recorde de público do estádio para um jogo de futebol. Terça-feira que será lembrada por muito tempo como o grande emblema do orgulho tricolor e que, esperam, culmine com o retorno do clube à Série A do Campeonato Brasileiro, depois de uma década de ausência.

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A mobilização em torno do Paraná se alongou por uma semana. Desde o anúncio do jogo na Arena da Baixada, os paranistas criaram enormes expectativas sobre o que poderiam proporcionar contra o Inter. Sobre a maneira como demonstrariam a imensidão de seu amor. Talvez haja um ranço exagerado no slogan da campanha, enfatizando o menosprezo de outras torcidas. No entanto, a comunhão causada a partir disso tem muito mais importância. Pesa para escancarar a ambição dos tricolores em se colocarem novamente entre os principais clubes do Brasileirão. Para não se verem inferiorizados em relação aos rivais locais. E, ainda que existam estes sentimentos, uma boa parcela dos atleticanos e dos coxa-brancas também deseja o sucesso dos vizinhos, depois de tanto tempo vagando pela Série B. O futebol de Curitiba, como um todo, ganha com isso.

Esta terça, de qualquer forma, era o dia do Paraná. O dia em que o clube viveria uma página única em sua história, bem como um dos episódios mais belos das divisões inferiores brasileiras nos últimos anos. A meta de colocar 40 mil na Baixada não se cumpriu por pouco. Mas o que são algumas centenas de pessoas quando dezenas de milhares se empenharam para enfrentar filas, comprar os ingressos, lotar as arquibancadas e realizar a apoteose tricolor? Ao todo, 39.414 espectadores estiveram presentes no estádio, superando o recorde anterior, estabelecido durante o confronto entre Espanha e Austrália, pela Copa do Mundo de 2014. Bateram, e com mais de mil pessoas de folga, a melhor marca registrada pelo Atlético Paranaense – cujos torcedores, aliás, veem uma oportunidade para pressionar sua diretoria em busca de preços mais justos nos ingressos e de uma política menos restritiva.

A noite paranista começou sob o poente, com a multidão se reunindo nos arredores da Baixada. A chegada do Paraná ao estádio foi iluminada pela luz dos sinalizadores, que se incendiaram em um corredor de fogo. O calor mais forte, independentemente disso, ainda era o da torcida. Que se irradiou mais e mais à medida em que as horas passavam. À medida que as arquibancadas se enchiam, com os quase 40 mil presentes aguardando o apito inicial.

A recepção aos times mais lembrava uma final de campeonato. Soava como uma partida decisiva de mata-matas, diante da atmosfera que tomou a Baixada. Os quatro cantos do estádio reluziam em três cores, com o mosaico formado pelos torcedores. “Rumo à Série A” era a mensagem mais do que clara. Que precisava ter coro também quando a bola rolasse. E o Inter não desejava ser um mero convidado da festa. Pelo investimento de seu elenco e pela liderança do campeonato, os colorados podiam se transformar em visitantes indigestos.

Como era de se esperar em uma ocasião deste peso, o jogo foi muito pegado. Sobraram entradas com excesso de vontade. Além disso, as chances de gol também surgiam. O Inter poderia muito bem ter aberto o placar aos 29, em chutaço de Eduardo Sasha. Só não conseguiu porque o goleiro Richard foi capaz de operar uma defesa monumental, indo buscar a bola no ângulo. Milagre decisivo para que os paranistas saíssem em vantagem aos 41 minutos. Escanteio cobrado por Renatinho que Iago Maidana teve toda a liberdade para completar de cabeça.

O segundo tempo seria ainda mais tenso. O Inter tentava pressionar, esbarrando em um adversário que se segurou heroicamente. Leandro Damião acertou a trave, enquanto Richard se agigantaria mais uma vez aos 31, abafando o chute de Nico López na pequena área. Os paranistas precisaram se lutar até os 50 do segundo tempo, quando finalmente soltaram o grito de alívio. De glória. O urro que ecoou dentro da Arena da Baixada amplificado como nunca antes, calando quem duvidava não pelo silêncio, e sim pelo enorme barulho. A grandeza da torcida do Paraná se torna irrefutável.

O sonho de retornar à Série A é cada vez mais real. O Paraná ocupa provisoriamente a vice-liderança da Segundona, com 49 pontos. Depois de uma década, o acesso resplandece no horizonte. Ainda há uma longa caminhada pela frente, mas o ótimo momento vivido e a prova contundente de força nesta terça motivam os tricolores a acelerarem os passos. Completar o feito seria a melhor maneira de coroar a jornada inesquecível na Baixada. O desfecho perfeito para garantir a importância que a ocasião realmente pode ter.