Para quem passou 14 de seus 18 primeiros anos de existência na Série A, atravessar uma década ininterrupta na segunda divisão parecia um longo exílio. O Paraná Clube nasceu com lastro, criado a partir da fusão de equipes tradicionais de Curitiba. E, cativando a sua própria torcida, também ganhou relevância a partir dos próprios passos. Dominou o Campeonato Paranaense nos anos 1990. Caiu no Brasileirão de 1999, mas logo voltou na Copa João Havelange, já se alçando aos mata-matas. Disputou até mesmo a Libertadores em 2007, após duas participações na Copa Sul-Americana. Justo quando se acostumava a aparecer na metade de cima da tabela do campeonato nacional, sofreu seu mais duro golpe, ao ser rebaixado. Figurou por dez anos na Série B. Sentia-se degredado em sua história, distante daquilo que forjou como identidade. Mas neste sábado o desterro teve fim. O Tricolor libertou-se das amarras para fazer todo o Paraná mais forte na primeira divisão.

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O mais doloroso para o Paraná Clube em todo esse tempo é que o time quase nunca brigava pelo acesso. Ao longo desta década, a melhor colocação foi um mero sétimo lugar, em 2010. Sofreu com uma situação financeira instável e as mudanças de diretoria. A Gralha-Azul era uma mera figurante no meio da tabela, e chegou a sentir o fogo ardente da Série C no cangote durante a campanha passada, terminando a um mísero ponto do descenso em 2016 – após já ter se aproximado do Z-4 em 2015. Os desempenhos não geravam grandes perspectivas. Sequer no Campeonato Paranaense o time conseguia chegar à final, com direito a um rebaixamento, logo seguido pelo acesso, em 2011.

Sob nova direção desde 2016, o Paraná se aproximou do empresariado local e tentava traçar um planejamento visando o retorno à primeira divisão em 2018. Mas em uma edição tão equilibrada da Série B como esta, o Tricolor se antecipou às previsões e conseguiu se reerguer. Avistou um horizonte que por anos não surgia na Vila Capanema, encoberto por uma densa neblina de mal saber o que seria do futuro. Trinta e sete rodadas depois, a jornada de regresso se completou.

Não foi um caminho fácil, todavia. O Paraná teve os seus altos e baixos ao longo da campanha. O início não foi tão auspicioso, com uma vitória nas primeiras seis rodadas, outra vez flertando com o rebaixamento. Até meados de julho, não dava para confiar em qualquer anseio grandioso. Após 14 rodadas, o time era apenas o 15° colocado. Mas a Série B tem os seus atalhos, especialmente pelas disputas parelhas. E as vitórias ajudam a encurtar distâncias. A equipe que terminou o primeiro turno em nono pegou um enorme embalo na metade final da competição. Foram oito triunfos nas primeiras dez rodadas, alcançando o G-4. De lá não sairia mais.

O jogo que confirmou o acesso do Paraná, neste sábado, foi peculiar. A Gralha-Azul enfrentava o CRB no Trapichão, dependendo apenas de si para confirmar a festa. E, apesar da pressão, bateu os alagoanos apenas por 1 a 0, graças ao gol contra de Audálio, após jogada de Alemão. Não importava a forma, o que valia era o retorno à Série A. E sem que ninguém mais possa os alcançar, os tricolores desataram a celebração. Certamente será grandiosa a recepção ao time no desembarque Curitiba, diante de tudo o que aconteceu nesta Série B.

Afinal, se houve um momento no qual o Paraná Clube teve certeza que as perspectivas de retornar à elite eram reais, isso aconteceu em 4 de outubro. O dia que ficará marcado para sempre como a declaração de grandeza do Tricolor, a apoteose de seu orgulho. Diante do Internacional, os paranistas colocaram 40 mil pessoas na Arena da Baixada. Quebraram o recorde do estádio, venceram o adversário mais temido da Série B e mostraram como o clube poderia pensar grande. Como sua própria torcida conseguia proporcionar um sentimento grandioso, por mais que seja menosprezada pelos dois principais concorrentes locais. Foi um grito de libertação da Gralha-Azul, que, agora, ecoa na Série A.

O acesso termina por sublinhar a importância de vários jogadores da equipe. De Richard, Alemão, Renatinho, Eduardo Brock e outros mais que fizeram a conquista se tornar possível. Além disso, tem também a participação de Matheus Costa. O treinador de 30 anos assumiu a equipe em uma situação totalmente atípica, no início do segundo turno, após ser supostamente agredido por Lisca. Foi ele o responsável de superar os percalços para se transformar em um dos nomes desta campanha. Terá a chance de, mesmo com parca experiência como técnico principal, comandar os paranistas na primeira divisão.

Mas dois personagens em especial merecem as homenagens pela promoção. Um deles, in memoriam. Jonas Pessalli chegou ao clube no início do ano, trazido do Neftchi Baku. Faleceu em junho, vítima fatal de um acidente de carro. Teve o seu nome exaltado neste sábado, com a vitória dedicada à sua família. Já o outro é o símbolo de tudo que representa o paranismo: o goleiro Marcos, que aos 41 anos continua sendo uma grande referência nos vestiários. Personagem em célebres momentos do clube na virada do século, fez longa carreira em Portugal antes de retornar, em 2013. Absolutamente idolatrado na Vila Capanema, mantém uma relação forte com a torcida. E mesmo assim não teve vaidades para aceitar a reserva, primeiro de Léo, antes de Richard chegar e se botar entre os protagonistas do elenco tricolor.

O Paraná Clube sabe que o acesso na Série B é apenas um passo. A manutenção na elite costuma ser bastante custosa, especialmente aos times que vêm de longos períodos nas divisões de acesso. E nenhum outro clube esteve presente na segundona ao longo dos últimos dez anos, sem sofrer nenhum rebaixamento ou conquistar qualquer promoção. Um verdadeiro purgatório. O trabalho na Vila Capanema é longo, em planejamento que precisa seguir em frente. Mas a mera presença na Série A possui um sabor dulcíssimo aos tricolores. Aquele gosto que buscaram por dez anos e agora ressurge para se desfrutar. Voltam a figurar ao lado de seus principais rivais na primeira divisão, e sob aplausos daqueles que esperavam um trio de ferro realmente firme entre as melhores equipes do país.

Também publicaremos na sequência o texto sobre o acesso do Ceará, ocorrido neste sábado.