A coluna de Games da Trivela, que é assinada por este escriba desde 2008, sempre buscou não só falar de jogos de futebol para videogame. Algo que também aqui se investe é não apenas em descrever o que é aquele título futebolístico com um olhar crítico gamer, mas também pela ótica do futebol. De que adianta um jogo ser plasticamente maravilhoso, se do ponto de vista da bola rolando, a experiência é enfadonha?

Além disso, tenta-se, em muitos casos, resgatar jogos antigos, alguns de sucesso, outros fracassados, mas que de alguma forma marcaram a muitos dos leitores da Trivela, mas que, até pelo apelo da própria mídia especializada não pender tanto para o futebol, ficam esquecidos. Missão essa que se buscou alcançar com especiais resgatando os principais jogos dos anos 90; games “patrocinados” por atletas, os títulos de destaque nos quase extintos fliperamas, etc.

Por fim, outro objetivo, mas não menos importante, é aproximar dos internautas que a cada duas semanas acessam esse espaço, iniciativas (individuais ou de grupos, que fomentem a “jogatina” equilibrada da bola virtual) e discussões que envolvam games e futebol (ou, naturalmente, games de futebol). Uma entrevista de 2009, com o então gerente de marketing da Electronic Arts (EA) no Brasil, Jonathan Harris, publicada na coluna, sobre peculiaridades de FIFA “além do jogo” é um exemplo.

Nesse último perfil, o Arte Virtual FC parece cair como uma luva. Trata-se de um clube de amigos fundado em 2007 e que é o maior grupo de jogadores de FIFA on-line para PC no Brasil. A comunidade conta com um site próprio — onde é possível se inscrever no grupo, participar de fórum e conhecer os membros —, regulamento interno, campeonatos organizados quase que mensalmente, parcerias com clubes de “fifeiros” de vários lugares do mundo, como Itália, Polônia e Bolívia e até mesmo reconhecimento da própria EA.

O grupo é jovem mais já tem números significativos. Mesmo voltado a um público bastante específico, o site tem média de acessos mensais de 15 mil internautas. O número de jogadores também cresceu. Iniciado pelos “fifeiros” Antônio Socram, de Criciúma (SC), e Mateus Costa, de Bauru (SP), com quatro “cybertatletas”, o Arte Futebol tem hoje mais de 50 associados (os participantes pagam uma anuidade, para manutenção das atividades), e há até uma “lista de espera”.

A procedência dos jogadores é das mais diversas. A maioria dos participantes é de São Paulo (SP), mas há gente das cinco regiões do País, que se conheceu nas salas on-line do FIFA, onde jogam até hoje. A média de idade do pessoal varia entre os 25 e os 35 anos. “Geralmente, o público que joga mais em PC hoje em dia está nessa faixa de idade. A galera mais jovem costuma ficar no console”, avalia o presidente do grupo, Aley Sadi, conhecido no on-line da EA como DarthGalo.

A consequência é que a maioria dos jogadores divida o tempo das partidas com trabalho, esposa e até mesmo filhos. Tanto que grande parte dos jogos acabam sendo marcados para o período da noite, horário em que costumam ser disputados os campeonatos internos. Segundo Aley, são nove por ano, sendo oito “regulares” e um último envolvendo os melhores da temporada. Dentre os “regulares”, disputam-se torneios como o Brasileirão e a Liga dos Campeões.

Em ambos os casos, os participantes atuam com equipes fixas (no caso da LC, sorteadas), em um sistema de todos contra todos (ida e volta), até que se classifiquem os 16 primeiros para as oitavas de final. Daí em diante, é mata-mata em jogos de ida e volta. E cada fase tem um prazo para ser jogada. Para 2011, o destaque é o torneio de duplas, que está ocorrendo pela primeira vez. Até o momento, quase metade dos jogos já foram realizados. O campeonato irá até março.

Que seja feita, agora, uma correção. Afinal, “divisão” nem sempre pressupõe que algo será proveitoso. Na verdade, graças às “jogatinas” de FIFA, o grupo deixou de ser formado meramente por “fifeiros”, mas ganhou laços de amizade, com reuniões envolvendo os “cyberatletas” e suas respectivas famílias. “As esposas acabam se conhecendo, os filhos um de outro também. E se formam novos amigos”, conta Aley. “Essa é, aliás, o grande mote do Arte Virtual: fomentar a amizade do pessoal”, completa.

O lema é bem respeitado pelos jogadores. Prova disso é que o sucesso na realização de campeonatos (e a própria frequência dos jogadores) trouxe reconhecimento da própria EA, que por intermédio inicialmente de Peter Moore, presidente da Electronic Arts, passando pela equipe da empresa que atuava no Brasil até o fim de 2009, e mais recentemente de Ian Jarvis, produtor de FIFA 11, cedeu ao grupo brindes oficiais para distribuição como prêmios dos campeonatos.

“Recebemos deles vários comunicados importantes referentes, por exemplo, a servidores que entrarão em manutenção ou deixarão de funcionar. São informações úteis para o pessoal que frequenta o site, e que conseguimos veicular”, explica Aley. Na página, há também downloads de patches de bolas e chuteiras e informações sobre a FIFA Interactive World Cup, links para vídeos com dicas do atual campeão do mundo no futebol virtual, Nenad Stojkovic.

E um dos motivos para o bom relacionamento com a EA é justamente o incentivo à compra do jogo original, algo reconhecidamente “evitado” por muitos gamers (independente do título ou do console). Para entrar no grupo, um dos pré-requisitos é que o jogador adquira o FIFA de forma legal. “Não há como jogar conosco sem o produto original, pois só assim para participar dos servidores da EA, que é onde o pessoal do clube se reúne para jogar”, avisa o presidente do Arte Virtual.

Um dos objetivos é claro: recuperar parte da força brasileira junto à Electronic Arts, que no fim de 2009 encerrou as atividades de seu escritório no País e que retirou a narração em português-Brasil do FIFA 11, acabando com uma “tradição” iniciada com Milton Leite no antigo FIFA 99. “É a parte que o pessoal do futebol virtual pode fazer para mostrar à EA que o Brasil está firme contra a pirataria”, finaliza Aley.

Ideias

A “bola dentro” do pessoal do Arte Virtual no tocante à organização e a um trabalho de congregamento de fãs de futebol e de games certamente não é único. Caso você, leitor, conheça um grupo com uma proposta nas linhas deste que foi retratado neste espaço, independente da plataforma ou de o título ser FIFA, PES, Football Manager ou qualquer outro game do meio futebolístico, é só entrar em contato com o colunista pelo e-mail chaveslincoln@gmail.com ou no Twitter (@lincolnchaves).

O colunista bateu um longo papo com o presidente do Arte Virtual, Aley Sadi. Ao longo da semana, a íntegra da conversa (curiosidades, reflexões sobre antigos FIFAs) será publicada no blog deste escriba, o Esporte Clube 8-Bit.