A Liga Profesional de Fútbol (LFP) da Espanha quer que a Uefa investigue os gastos do Manchester City, depois de ter pedido que a entidade analise se o Paris Saint-Germain infringiu as regras do Fair Play Financeiro. O presidente de La Liga, nome comercial da LFP, Javier Tebas, disse que o PSG é financiado por um país – no caso, o Catar – e tem causado danos ao futebol, caso que ele considera parecido com o Manchester City – este financiado por um xeique dos Emirados Árabes. Como os dois clubes se tornaram ameaças no mercado, La Liga se volta contra eles com acusações, mas parecem esquecer de olhar um pouco para o próprio umbigo.

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Em comunicado enviado à Associated Press nesta segunda, Javier Tebas afirma que o Manchester City, financiado pelo dinheiro de Abu Dahbi, e o PSG, financiado pelo Catar, estão se beneficiando por auxílios estatais que distorcem as competições europeias e “está irreparavelmente prejudicando a indústria do futebol”. Tebas enviou cartas separadas à Uefa no dia 22 de agosto solicitando investigações sobre o Manchester City e o PSG.

Um dos argumentos usados por Tebas é algo que está previsto no Fair Play Financeiro: a análise de como os clubes conseguem as receitas, evitando fraudes. Para Tebas, os dois clubes “se beneficiam de patrocínios que não fazem sentido econômico e não tem um valor justo” para os ajudar a cumprir o Fair Play Financeiro. “O financiamento do PSG e do Manchester City por auxilio estatal distorce as competições da Uefa e cria uma espiral de inflação que está irreparavelmente prejudicando a indústria do futebol”, disse Tebas. “A Uefa tem que reforçar as regulações do Fair Play Financeiro para evitar discriminação entre os clubes”, continuou o dirigente.

Em 2014, Manchester City e PSG foram punidos pelo Fair Play Financeiro e tiveram que pagar multas de € 60 milhões (divididas em três anos), além de ter reduzido o número de jogadores que poderiam inscrever na Champions League, de 25 para 21 e de ter limitação de gastos no período. A punição acabou ao final da temporada 2016/17. Uma das razões para punições foi que a Uefa avaliou que o patrocínio com a autoridade de turismo do Catar tinha valores inflacionados e muito acima do mercado, algo que segue sendo uma suspeita tanto em relação ao PSG quanto ao Manchester City.

Na última sexta-feira, a Uefa anunciou que irá analisar as contratações do PSG, que na sua primeira janela sem punição da Uefa gastou € 222 milhões nesta temporada para trazer Neymar e se comprometeu a pagar € 180 milhões ao final desta temporada para contratar Mbappé, que fica nesta temporada por empréstimo vindo do Monaco. A transferência foi o mais recente caso de uso do empréstimo com obrigação de compra, uma prática que se espalhou por diversos clubes europeus para tentar burlar o Fair Play Financeiro.

“O PSG é um infrator habitual e tem violado as regras do Fair Play Financeiro da Uefa por anos”, afirmou Tebas. “É importante que a Uefa não olhe apenas as transferências de jogadores mais recentes, mas a história do PSG de não cumprimento. As transferências são resultado de anos de doping financeiro no PSG”, continuou o dirigente da liga espanhola.

O Manchester City gastou € 244 milhões em contratações nesta temporada, sendo a mais cara dela a do lateral esquerdo Benjamin Mendy, de 23 anos, contratado por €57 milhões. Kyle Walker chegou por € 51 milhões, além de outros € 50 milhões por Bernanrdo Silva, € 40 milhões por Ederson e € 30 milhões por Danilo. São as maiores transferências do time nesta janela.

O Fair Play Financeiro avalia se os patrocínios estão dentro do valor de mercado e tem restrições quanto a patrocinadores que são do mesmo dono do clube, ou de familiares deste dono. O Manchester City tem ao menos cinco patrocínios estatais, como a Etihad Airways, a autoridade de turismo e cultura de Abu Dhabi, a empresa de investimentos Aabar, a empresa de comunicação Etisalat e o Firs Gulf Bank. O Manchester City tem como dono o xeique Mansour, membro da família real de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes. Mansour ainda é vice-primeiro ministro do país e ministro de assuntos presidenciais.

O PSG tem sete patrocinadores do Catar, que incluem a empresa de comunicação Ooredoo, Qatar National Bank, Aspire Academy, hospital Aspetar, o projeto cultural Katara, a TV BeIN Sports e a Autoridade de Turismo do Catar. O clube foi comprado em 2011 pela Qatar Sports Investment (QSI), empresa estatal dirigida pelo governo do Catar.

Auxílio estatal? Acusações também já surgiram na Espanha

Barcelona e Real Madrid se acostumaram a serem as duas maiores potências do futebol europeu nos últimos anos. Se tornaram supertimes que reúnem alguns dos melhores jogadores do mundo nos seus ricos elencos. Um dos pontos questionados por adversários de dentro e fora da Espanha é o auxílio estatal que os dois clubes recebem, de formas bem mais indiretas e menos óbvias que a de PSG e Manchester City, mas que possuem o mesmo efeito na competitividade, seja na Espanha, seja na Europa.

A acusação contra Real Madrid e Barcelona não veio de um adversário, mas sim da União Europeia, em 2016. Segundo o órgão europeu, os dois clubes “receberam ajudas indevidas do governo”. A União Europeia considerou irregular e exigiu que o governo espanhol recebesse de volta os valores dos clubes. Isso foi um caso apenas, mas é algo que precisa ser lembrado no momento que o presidente da liga espanhola fala em uma espécie de concorrência desleal.

Também é preciso lembrar que durante muito tempo os dois principais clubes da Espanha ganharam uma vantagem enorme no dinheiro de TV da liga espanhola justamente para serem fortes em termos europeus. Essa realidade começou a mudar por pressão dos outros clubes. Só que essa divisão que começou a ser mais distribuída e menos desigual na Espanha só veio depois de intervenção estatal, curiosamente.

É preciso sim que a Uefa olhe para o que fizeram Manchester City e PSG, que gastam muito dinheiro e possuem mesmo receitas que são suspeitas do ponto de vista das regras do Fair Play Financeiro. Mas é também preciso que olhe para Barcelona e Real Madrid, para o Bayern de Munique e para todos os outros clubes que são fortes na Europa e possuem faturamentos gigantes.

A lupa tem que estar em todos eles, para que as regras não sejam aplicadas de forma desigual. Tebas critica a gastança de PSG e Manchester City e realmente cabe investigação. Só que vale o mesmo para Barcelona e Real Madrid. Enquanto os dois gigantes espanhóis dominaram o mercado de forma predatória, Tebas não pareceu estar insatisfeito. É preciso olhar para o próprio umbigo e que a competitividade na Espanha também não seja afetada. Um pouco de autocrítica faz bem.