Se quiserem fazer um filme, o roteiro já está pronto. Se decidirem escrever um livro, há conteúdo para preencher páginas e páginas. Mas talvez o ludismo das telonas ou das letras seja insuficiente para representar o que foi o retorno da seleção peruana à Copa do Mundo. Esta é a conquista que merece entrar nos livros de história do país. Que deveria se transformar em monumento. Afinal, é difícil encontrar um exemplo maior de comoção nacional. Até parece que cada um dos 30 milhões de peruanos se esforçaram para que a Blanquirroja voltasse ao Mundial após 36 anos. Que cada um dos 30 milhões deu sua pequena contribuição. A apoteose, por fim, veio no Estádio Nacional de Lima abarrotado e pintado completamente de branco e vermelho. Toda a população parecia estar ali, em alma e pensamento, invadindo o campo após a vitória por 2 a 0 sobre a Nova Zelândia. Este 16 de novembro ficará marcado como o feriado oferecido para se celebrar a viagem à Rússia. Mas deveria permanecer no calendário para sempre, como uma data nacional de patriotismo. A proclamação da república do futebol. O grito de independência do Peru a todo o mundo. Da libertação à Copa do Mundo.

Se resolverem transformar a epopeia em arte, fica até difícil de escolher o ponto de partida. Boas histórias não faltaram. Podem começar por 1970, o ano dourado em que a seleção peruana chegou às quartas de final da Copa do Mundo. Por 1982, com a classificação na raça, apesar da campanha cheia de percalços na Espanha. Talvez por 1986, ano em que Ricardo Gareca (olha o spoiler!) negou o quarto Mundial aos Incas, salvando a pele da seleção argentina. Por 1998 e aquela vaga que ficou tão próxima, pisoteada justamente pelo eterno rival, o Chile. Ou por todos os anos de penúria nas Eliminatórias a partir de então. As campanhas medíocres, em que o Peru passou bem longe da Copa do Mundo. Nunca foi além do sétimo lugar, nunca ficou mais próximo do que dez pontos.

Mas 2015 talvez seja o melhor marco para recontar a jornada. Mais precisamente, fevereiro de 2015, quando Ricardo Gareca, justo o velho carrasco, assumiu uma seleção desacreditada. Primeiro, fez uma campanha digna até as semifinais da Copa América, algo que não era necessariamente um bom indicativo para as Eliminatórias. E, ao menos pelo início, realmente não foi. O Peru fez um primeiro turno fraco. Venceu apenas duas das nove primeira partidas, embora tenha levado os três pontos contra a Bolívia depois, nos tribunais. O símbolo da depressão veio logo na segunda rodada. Em pleno Estádio Nacional de Lima, perderam para o Chile por 4 a 3. Os arqui-inimigos, que ao mesmo tempo atingiam o seu ápice, com os dois títulos continentais.

Havia tempo para dar a volta por cima. Havia força. E Ricardo Gareca a tirou de onde poucos esperavam. A seleção peruana pode estar abaixo das potências do continente. Pode não impressionar pelos nomes que têm no papel. Ainda assim, mostrou seu brio. Pegou embalo para acumular excelentes resultados no returno das Eliminatórias. E na melhor competição de pontos corridos do mundo, tão parelha, a confiança muitas vezes consegue ser a chave do sucesso. As vitórias seguidas contra Uruguai, Bolívia e Equador jogaram os Incas em definitivo na briga. Até que acontecessem as duas rodadas finais. Tão cardíacas, tão vitais, tão emblemáticas.

Na noite de desespero na Bombonera, a Blanquirroja segurou o 0 a 0 contra a Argentina graças a uma atuação enorme de Pedro Gallese, que frustrou os gigantes. E por muito pouco não saiu o triunfo, quando Paolo Guerrero quase marcou de falta. E, enfim, o compromisso com a Colômbia no Estádio Nacional. O Peru não jogou bem. Estava tenso demais, desencontrado. Começou perdendo. No entanto, contou com dois erros que, juntos, permitiram o gol heroico: a afobação de Guerrero e a falta de raciocínio de Ospina. Ao final, o empate por 1 a 1 era suficiente, em noite na qual os astros certamente se alinharam com Machu Picchu, depois do que aconteceu com Chile e Paraguai.

A seleção peruana estava viva. Ainda tinha a repescagem para disputar, mas permanecia viva. E só a duas partidas de retornar à Copa do Mundo, o que desatou a comoção nacional. Cada canto do país parecia se unir na corrente para empurrar a Blanquirroja. Uma união que se tornou ainda maior depois que Guerrero, justamente o capitão e maior referência do time, foi flagrado no exame antidoping. No temor é que os peruanos encontraram o caminho para empurrar a equipe nacional com mais força. Faziam sua parte, da própria maneira. Todos enfrentavam juntos os All Whites. Jogavam juntos, como bem se viu em Wellington.

Era só um jogo de repescagem? Para quem vê de fora, talvez. Mas já era Copa do Mundo. E só isso explica os milhares de torcedores que atravessaram o Pacífico para se juntar à seleção. Para recepcionar os jogadores no aeroporto, para aplaudi-los nos treinamentos, para tomar as ruas de Wellington ao longo da semana. Nas arquibancadas do Estádio Westpac, a quantidade de blanquirrojos era enorme. Em certos momentos, pareciam até mesmo os donos da casa, tamanho barulho que faziam no ‘Anel de Fogo’, tradicional palco do rúgbi. E viram sua seleção ser superior, mas não levar a vitória para casa, com o empate por 0 a 0 prevalecendo durante os 90 minutos. A erupção teria que acontecer mesmo em Lima.

E então, todas as cenas que se viram nos últimos dias. Os milhões que mal conseguiam pensar em outra coisa. As cores da bandeira pela rua. O sonho delirante pela Copa do Mundo que certamente tomou o sono de muita gente. Quando os All Whites chegaram, os peruanos trataram os visitantes como um rival de Libertadores. Usaram das mais diferentes táticas para tirar a concentração dos adversários – do tradicional foguetório da madrugada até a acusação de caças enviados para atrapalhar o descanso dos neozelandeses no hotel. De qualquer maneira, tudo se resolveria em campo. No jogo mais importante do país nas últimas três décadas e meia.

Gareca, como deveria encarar a oportunidade, escalou o Peru de maneira bastante ofensiva. Aproveitou as virtudes de seu grupo. Apenas Renato Tapia fazia a proteção na cabeça de área, com um quinteto de virtuosos para tentar buscar os gols necessários: Christian Cueva, Andy Polo, Édison Flores, Raúl Ruidiaz e Jefferson Farfán. Os homens que, dentro de campo, se transformaram nos pilotos de caça da Blanquirroja. Que, contra uma seleção bem organizada, mas inferior tecnicamente, proporcionariam o bombardeio. E a entrada em campo ofereceu uma atmosfera eletrizada, com torcedores gritando alto, bandeirão se desenrolando nas arquibancadas, hino nacional cantado a plenos pulmões por cada um dos jogadores.

Os primeiros minutos marcaram a imposição da seleção peruana. A pressão foi gigantesca e quase rendeu o gol logo de cara, em bomba de Luis Advíncula que estalou o travessão. Os Incas apostavam principalmente nas jogadas pelos lados, com enorme fluidez, mas não conseguiam encontrar espaços na retranca da Nova Zelândia. E, aos poucos, pareceram perder a própria confiança. O escanteio em que Cueva chutou a bandeirinha, não a bola, era uma mostra clara disso. Os anfitriões passaram a se limitar aos cruzamentos na área, sem um centroavante que aproveitasse. Davam espaços para os neozelandeses também saírem ao jogo. Curiosamente, esta foi a chave para a vitória.

Em um dos raros ataques da Nova Zelândia, o Peru conseguiu contragolpear. Cueva foi lançado e arrancou pela ponta esquerda, partindo em direção à área. Mesmo muito menor que seu marcador, conseguiu se livrar dele na habilidade e cruzou para Jefferson Farfán. La Foquita, o mais tarimbado do atual elenco, já com 14 anos desde sua estreia pela equipe nacional. O camisa 10 voou. E foi perfeito na conclusão daquele contra-ataque. Dominou a bola com a direita, e ela subiu ligeiramente, pedindo para ser chutada. Com espaço, o veterano soltou o canudo. Afundou Stefan Marinovic, impotente. A bola estufou as redes com força. Com a força dos 30 milhões que vibravam e causavam um terremoto em todo o país.

E então, veio a cena que poderia servir de monumento, ser transformada em estátua. Farfán saiu correndo à beira do campo na comemoração. Pegou a camisa 9, de Guerrero. Porém, não visava homenagear apenas o capitão ou o companheiro de ataque. Ali, oferecia um abraço ao amigo de anos, ao compadre, passando tamanha provação nas últimas semanas. Com o manto blanquirrojo, La Foca se prostrou. Desabou no gramado em lágrimas. Um choro que se rompeu sincero, por tudo o que acontecia naquele instante. Pela honra de ter sido o primeiro a avistar a imensidão da Copa do Mundo no horizonte.

A fome de gols aumentou e o Peru teve a chance de ampliar a diferença antes do intervalo. Depois de bater roupa, Marinovic fez um milagre para evitar que Farfán anotasse novamente. Nada parecia capaz de derrubar os peruanos, com a emoção multiplicada nas arquibancadas. Mas o segundo tempo começou indigesto. Primeiro, porque os Incas voltaram sem o mesmo ritmo. Depois, porque a Nova Zelândia ganhou poderio ofensivo com a entrada de seu melhor jogador, Chris Wood, deixado no banco por não estar 100% fisicamente. E a presença de área do centroavante se sentiu em pouco tempo. Aos quatro minutos, em lance que acabou parado por falta, o substituto fuzilou. Exigiu um defesaça de Gallese.

Naquele momento, o Peru flertava com a tragédia. Mas tudo se transformou em um lance fortuito. Em um lançamento de Miguel Trauco que não daria em nada, mas Marinovic se complicou para segurar e cedeu o escanteio. Após a primeira cobrança, o goleiro se redimiu com uma defesaça, evitando o gol contra. Já no segundo, surgiriam novos heróis. Cueva cobrou e, depois do desvio no meio do pagode, a bola sobrou limpa para Christian Ramos. Para que o zagueiro soltasse a bomba, ampliando a vantagem aos 19 minutos. O gol que oferecia tranquilidade aos anfitriões, que permitia a todos os peruanos contarem os minutos sem tanta aflição.

Parecia improvável que a Nova Zelândia marcasse dois gols, por mais que tentasse os últimos suspiros. A seleção peruana se seguraria até a última gota de suor. Conseguia se defender com 30 milhões. E tinha os ponteiros a seu favor, em minutos que renderam pouquíssimo dentro de campo. Gareca reforçou a marcação, esperou o apito final. Nos acréscimos, a beira do campo já estava tomada por dezenas que queriam desatar no gramado. Invadir, comemorar, fazer acreditar que o momento finalmente chegou. Pois chegou. A multidão celebrava eufórica, como tinha que ser. Entre sorrisos e lágrimas, por tudo o que passaram. Por tudo o que gerações não tinham vivido. Por tudo que pais e filhos, separados pela impiedade do tempo, não puderam experimentar juntos. Por tudo o que tornou esta conquista ainda mais saborosa, mais valorizada. Nem mesmo quem estava no exercício de seu trabalho deixou de festejar. Do rico ao pobre, a festa é de todo o país. Era hora de regozijar.

A madrugada certamente foi pequena em Lima, Cusco e todas as outras centenas de cidades do Peru. O Tahuantinsuyo, o grandioso império incaico, ressurgiu no delírio febril proporcionado pelo futebol. Faltarão degraus nas vertiginosas escadarias de Machu Picchu para que todos paguem suas promessas pelo feito. E o feriado desta quinta dificilmente será suficiente para que os peruanos despejem o sentimento que pulsa no peito e toma a cabeça. Gareca, Farfán e os demais guerreiros se eternizam como heróis nacionais. É a Copa do Mundo. A Copa do Mundo que eles certamente invadirão, mesmo disputada tão longe –  o que nem de longe será problema. A seleção peruana encerrou a sua história com letras de ouro. E deseja um epílogo igualmente épico a ser contado na Rússia. É nesse tipo de envolvimento que se mede o tamanho do Mundial. Por consequência, o gigantismo do futebol, pela maneira como consegue transformar uma nação inteira em apenas uma partida.

O Peru é uma nação diferente depois desta noite. Como dizia um bandeirão no Estádio Nacional, o país inteiro se transformou em bairro querido, defendido com toda a alma. Dentro do coração dos 30 milhões de vizinhos.