A Atalanta vive semanas de sonho. Depois de eliminar o Napoli dentro do San Paolo, chega às semifinais da Copa da Itália experimentando uma campanha histórica que não repetia há décadas na competição. A última vez que a Dea chegou tão longe no torneio foi em 1995/96, quando terminou derrotada pela Fiorentina na decisão. Antes disso, porém, os torcedores de Bérgamo desfrutaram de muitos momentos memoráveis. E o ápice daquela caminhada ocorreu justamente contra o adversário desta terça-feira, a Juventus. Se o favoritismo atual se concede à Velha Senhora, não aconteceu diferente 22 anos atrás, pelas oitavas de final. O timaço bianconeri faturaria a Liga dos Campeões naquela temporada. Mas sucumbiu na Coppa graças a um golaço raivoso dos nerazzurri.

A Juve vinha em uma fase esplendorosa sob o comando de Marcello Lippi. Em 1994/95, conquistou a dobradinha nacional, celebrando a Serie A e a Copa da Itália, além de ter sido vice da Champions. Assim, não existiam muitas dúvidas em quem apostar naquele embate das oitavas de final. A Atalanta, que até havia registrado feitos respeitáveis na virada da década, acabara de conseguir o acesso à primeira divisão e buscava se restabelecer na elite do futebol italiano. Os nerazzurri eram completos azarões, por mais que contassem com o apoio das arquibancadas em Bérgamo naquele confronto único.

Treinador de trabalhos expressivos por Atalanta, Torino e Cremonese, Emiliano Mondonico eram quem comandava a Dea na época. Os nerazzurri possuíam com um elenco modesto, sem grandes estrelas, mas com jogadores tarimbados – a exemplo do goleiro Fabrizio Ferron, do ala José Herrera, do meio-campista Valter Bonacina e do zagueiro Antonio Paganin. Além disso, despontavam jovens promissores, como Paolo Montero e Domenico Morfeu, além de um tal Christian Vieri, que apenas esquentou banco naquela noite. Do outro lado, se não entrava com força máxima, a Juventus tinha um time respeitabilíssimo. Ciro Ferrara, Gianluca Pessotto, Antonio Conte, Alessio Tacchinardi, Alessandro Del Piero e Fabrizio Ravanelli calçaram chuteiras na ocasião.

Apesar de todo o talento disponível à Velha Senhora, porém, a Atalanta conseguiu segurar o empate sem gols. Manteve o equilíbrio durante os 90 minutos, em duelo que contou com as expulsões de Tacchinardi e Montero. A prorrogação já parecia um prêmio aos anfitriões, diante de toda a festa incendiária de seus torcedores. No entanto, haveria mais. E o duelo terminaria com mais alegria em Bérgamo, graças a um substituto.

Revelado pela Internazionale, Fabio Gallo era um volante de pouca projeção. Passou por Oltrepò, Spezia, Alessandria e Brescia, até chegar à Dea naquela temporada, aos 25 anos de idade. Pois aquela aposta seria a estrela da sorte de Emiliano Mondonico. Aos 12 do segundo tempo da prorrogação, Gallo recebeu uma inversão, no bico da grande área. Dominou e, apertado pela marcação, soltou um petardo sem deixar a bola cair. O goleiro Michelangelo Rampulla não teve qualquer chance de defesa, em tiro que ainda tocou no travessão antes de entrar. Golaço. O gol da classificação da Atalanta às quartas de final, eliminando a Juve.

Aquele foi o primeiro gol de Fabio Gallo pelos nerazzurri. Permaneceria seis temporadas defendendo o clube, acumulando 188 partidas no total. Curiosamente, balançaria as redes apenas mais uma vez, num jogo contra a Udinese pela Serie A. No fim das contas, aquela bomba certeira marcou também a sua carreira. “Eu me lembro perfeitamente daquela noite, tudo ainda está fresco na minha mente. Essa partida permaneceu na memória coletiva: aquele gol me fez entrar para a história da Atalanta e para as lembranças de sua gente. É o gol mais notável que eu marquei, pela importância e pelas emoções despertadas. O estádio estava transbordando, foi fantástico. O resultado nos deu grande impulso na campanha, nos levando até a final”, relembra o volante, ao L’Eco di Bérgamo.

Depois do triunfo sobre a Juventus, a Atalanta ainda alcançaria uma vitória épica por 4 a 3 sobre o Cagliari, antes de derrotar o Bologna nas semifinais. Já na decisão, melhor para a Fiorentina de Batistuta e Rui Costa, que se impôs em ambos os confrontos. Aos nerazzurri, restam as lembranças e as esperanças. Por linhas tortas, Fabio Gallo tem sua contribuição ao sucesso recente da Dea: ele trabalhou como treinador nas categorias de base, ajudando a aprimorar talentos como Mattia Caldara, Andrea Conti e Roberto Gagliardini. Mas o que os torcedores realmente desejam relembrar é a inspiração daquela pintura tão marcante ao clube.