A mera presença no San Siro já era uma conquista e tanto ao Pordenone. O clube pequenino do nordeste da Itália disputaria a partida mais importante de sua história. Quinto colocado em seu grupo regional na Serie C, a zebra tinha aprontado nas fases anteriores da Copa da Itália. Eliminou Lecce, Venezia e Cagliari, adversários bem mais tradicionais e poderosos. Era uma façanha alcançar as oitavas de final e a Internazionale surgia como um adversário pouco acessível, mas e daí? Os neroverdi jogavam por uma noite épica, e assim aconteceu. A classificação não veio, o que não impediu o júbilo dos quatro mil torcedores visitantes presentes nas arquibancadas. O Pordenone foi capaz de segurar os líderes da Serie A por 120 minutos e, depois do empate por 0 a 0, só acabou eliminado nas cobranças alternadas da disputa de pênaltis. O pesadelo iminente dos gigantes foi o sonho dos nanicos.

Fundado em 1920, o Pordenone passou a maior parte de sua história limitado ao semiprofissionalismo, vagando principalmente entre a terceira e a quarta divisão do Campeonato Italiano. Contudo, como tantas outras agremiações do país, o clube passou por sérias dificuldades financeiras e precisou ser refundado em 2003. Reiniciou sua trajetória na Eccellenza Friuli-Venezia Giulia, uma das divisões regionais do Calcio. Em 2008, enfim, os neroverdi voltaram a se estabelecer na Serie D, equivalente na época à quinta divisão. E o acesso seguinte aconteceu no momento mais oportuno possível: faturando o Scudetto da Serie D em 2014, o Pordenone em teoria deveria subir à quarta divisão, mas a reformulação da Lega Pro o alçou diretamente à terceirona.

Não foi simples lidar com a ascensão meteórica. O Pordenone acabou a temporada 2014/15 rebaixado de volta à Serie D. No entanto, um episódio de manipulação de resultados reverteu aquilo que aconteceu em campo e salvou os neroverdi. Continuaram na Lega Pro e deram um salto no rendimento, passando a brigar pelas primeiras posições. Boas campanhas que acabaram respingando no feito histórico desta terça, já que possibilitaram a classificação dos nanicos às etapas iniciais da Copa da Itália.

A vitória sobre o Cagliari, em plena Sardenha, já valeria toda a epopeia do Pordenone. Os neroverdi eliminaram um time da primeira divisão, abrindo o placar e buscando a vitória por 2 a 1 após sofrerem o empate. E os pequeninos não desperdiçariam a chance de também fazer frente à Internazionale em Milão. Os jogadores faziam ali a partida de sua vida, que valeria não apenas a classificação, mas também poderia dar visibilidade para buscar destinos maiores no futuro. E assim se comportaram, com muita fome de bola.

Ao contrário do que poderia se pensar, o Pordenone não foi covarde no primeiro tempo. Criou as suas chances e chegou a acertar uma bola na trave. A Inter, que escalou um time recheado de reservas, estava claramente incomodada. Para o segundo tempo, os neroverdi precisaram se conter um pouco mais. Luciano Spalletti saiu para buscar o resultado e tirou do banco três de seus principais jogadores ofensivos – Mauro Icardi, Ivan Perisic e Marcelo Brozovic. Mas o bombardeio não abalava a segurança do goleiro Simone Perilli, responsável por defesas vitais aos visitantes. Com o zero prevalecendo durante os 90 minutos, a partida seguiu à prorrogação. Perilli continuou intransponível, ajudado também pela trave, que barrou Icardi. Ao apito final depois de 120 minutos sem gols, a multidão que acompanhava os nanicos já comemorava euforicamente nas arquibancadas.

Nos pênaltis, a cobrança desperdiçada logo de cara por Gianvito Misuraca colocou os planos do Pordenone em risco. Entretanto, Perilli defenderia o tiro de Milan Skriniar e ainda deixou o time em vantagem, ao barrar Roberto Gagliardini. Logo na sequência, Luca Lulli isolou, forçando as alternadas. O sonho só acabou na sétima série de batidas, quando Daniele Padelli pegou o arremate de Giulio Parodi e Yuto Nagatomo confirmou a classificação dos interistas, com a vitória por 5 a 4 na marca da cal.

“Os rapazes foram brilhantes, eu não poderia exigir mais. Levar esse jogo aos pênaltis foi como se tivéssemos vencido a Copa. Eu até pensei que poderíamos avançar, e apreciei a coragem de cada um dos nossos jogadores nas cobranças. Spalletti me disse que nós merecíamos a classificação e eu agradeci a sinceridade. A partir de amanhã, voltamos a botar os pés no chão pensando na Serie C. Todos estavam tristes nos vestiários, eu entendo isso, mas eles precisam se recuperar. Precisam se lembrar que perderam apenas nos pênaltis para os líderes da Serie A e nós criamos quatro ou cinco chances de marcar”, declarou o técnico do Pordenone, Leonardo Colucci, após a partida.

Apesar da eliminação, o Pordenone sabe que foi muito além das expectativas, e que agora seu nome ganha notoriedade ao redor do mundo. O trabalho das redes sociais do clube, aliás, também ajudou nesta repercussão. Findada a campanha, fica o orgulho pelo momento que será recontado por muito tempo entre os torcedores. E ainda dá para sonhar na Serie C: quinto colocado no Grupo B, o time está a nove pontos do líder Padova, mas pode continuar brigando pelo acesso caso fique entre os nove primeiros, se classificando à repescagem. Nos mata-matas, os neroverdi deverão se tornar um time temido. Fizeram por merecer este rótulo, diante de tudo o que se viu nesta Copa da Itália.