O caso envolvendo o rebaixamento da Portuguesa ainda reverbera no futebol brasileiro, especialmente depois do ocorrido no sábado, quando o time rubro-verde se retirou de campo para cumprir uma decisão judicial (uma decisão, aliás, bem suspeita). Uma disputa que tem a CBF como ré contra um torcedor, autor da ação. A CBF precisa de um advogado para defendê-la e escolheu, certamente não por acaso, o escritório de Carlos Miguel Aidar, agora presidente do São Paulo. Aliás, o dirigente são-paulino responde pessoalmente sobre o caso, como advogado. Não é preciso que haja qualquer lei ou algum tipo de proibição para isso. É evidente que há um enorme conflito de interesses e uma enorme falta de ética de Aidar ao atuar profissionalmente ao lado da CBF em um caso, sendo que ele é presidente do São Paulo. É inviável e é inaceitável.

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Luis Augusto Simon, o Menon, escreveu em seu blog hoje exatamente falando sobre isso. Em carta aberta ao presidente, ele diz: Carlos Miguel, o São Paulo não merece ser chamado do time do porrete, em uma comparação com o estilo Juvenal Juvêncio de pouco diálogo, similar ao do ex-presidente americano Theodore Roosevelt. E não importa se a Portuguesa faça um monte de lambanças, se ela está errada ou está certa. Não importa se o ato de sábado, de tirar o time de campo, tenha cara de uma manobra desastrada (mais uma) da sua direção. Simplemente não importa.

Com tantos escritórios de advocacia no Brasil, a escolha da CBF de José Maria Marin e Marco Pólo del Nero pelo de Aidar não é aleatória. É claro que há um interesse evidente, no momento que a escolha foi feita, em colocar o então futuro presidente do São Paulo ao seu lado. O São Paulo fica com uma proximidade perigosa com o poder, com um poder que Aidar mesmo tem na sua história como algo a se combater. Lembremos que o agora presidente do São Paulo está no cargo novamente depois de passar pelo posto nos anos 1980, quando foi uma peça-chave na articulação para criar o Clube dos 13 e a Copa União de 1987. Algo que mudou o futebol brasileiro, modernizou e transformou o negócio Campeonato Brasileiro em algo realmente lucrativo.

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Marin e Del Nero fazem mal ao futebol e se Aidar queria manter a sua imagem de um dirigente moderno, que teve como proposta da sua candidatura a criação de uma liga de clubes, jamais poderia ter essa proximidade com a CBF. Não essa CBF, de Marin e Del Nero. O escritório de Aidar certamente pode viver sem esse dinheiro da CBF, sem comprometer a sua idoneidade como presidente do São Paulo, sem colocar o clube sob a desconfiança geral. Nem ele, nem o São Paulo precisam disso. Nenhum lucro financeiro que ele tiver com o caso pagará a mancha de defender esses dirigentes em um caso tão controverso.

Aidar, aliás, poderia aproveitar que se tornou presidente do São Paulo para resolver um conflito estúpido que se criou em relação à Copa União de 1987 e a maldita taça de bolinhas. Como dirigente importante que foi na concepção da Copa União, deveria reconhecer publicamente que o título foi do Flamengo, receber a taça de bolinhas e repassá-la, em ato simbólico, ao clube da Gávea. Além de acabar com uma novela chata para diabo, ainda faria o que ele mesmo defendeu em 1987.

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Mas também não fará isso. Porque aquele Aidar que presidiu o São Paulo entre 1984 a 1988, em dois mandatos, não parece mais ser o mesmo. O Aidar atual é o que diz que Itaquera é outro mundo, diz que é longe de tudo (o Morumbi, por exemplo, é fácil, perto e acessível, claro) e ainda fala sobre Kaká desta forma: “Gostaria muito de ter o Kaká. É alfabetizado, tem todos os dentes na boca, alfabetizado, bonito, falam bem. Mas não dá para concorrer com o mercado os árabes e os chineses. Se der para trazer, cairia feito uma luva”, afirmou o novo-velho presidente são-paulino “Esporte em Debate”, da Rádio Bandeirantes. Esse é o Aidar que preside o São Paulo em 2014: cheio de preconceitos sociais.

Se, por acaso, o senhor ler esse texto, presidente Aidar, espero que o senhor se lembre do dirigente que foi nos anos 1980, do presidente da OAB que foi e saiba da responsabilidade que carrega como presidente de um dos grandes clubes desse país. Que nesse mandato de três anos, até 2017, o senhor possa trazer benefícios ao futebol brasileiro. A começar por abrir mão dessa história do seu escritório defender a CBF. Se não quiser fazer pelo futebol brasileiro, nem pelo São Paulo e sua torcida, faça por você mesmo.

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