O Brasil é o oitavo país estrangeiro que mais cedeu jogadores à Premier League em seus 25 anos de história. Ao todo, 69 jogadores do país atuaram na primeira divisão inglesa desde 1992/93. O meio-campista Isaías, vestindo a camisa do Coventry City, foi o primeiro. Juninho Paulista se tornou o primeiro ídolo, também o primeiro (e único) eleito o melhor jogador da temporada, em 1997. Edu, o primeiro campeão, com o Arsenal em 2002. E se outros brasileiros ergueram a taça ou conquistaram torcidas na Inglaterra, Mirandinha permanece como o representante de um marco. Antes da revolução vivida com a criação de uma nova liga, ele foi o “ancestral”. O primeiro a atuar na elite do Campeonato Inglês e o único do período pré-Premier League, vestindo a camisa do Newcastle entre 1987 a 1989. Até hoje, o cearense carrega consigo o carinho dos apaixonados torcedores dos Magpies. Mesmo que sua estreia pelo clube já complete 30 anos nesta semana.

Nascido em Aerolândia, na periferia de Fortaleza, Francisco Ernandi Lima da Silva teve uma infância dura, como a de tantos outros jogadores profissional. Cresceu em uma família com sete irmãos, ajudando no sustento de casa. Trabalhou vendendo frutas e limpando vidros nos semáforos da cidade, além de também fazer bicos como pedreiro e salineiro. O futebol, mais uma vez, foi um elemento transformador.

A carreira começou nas categorias de base do Maguari, tradicional clube cearense que voltava à ativa. A dissolução da agremiação, porém, interrompeu momentaneamente a trajetória do garoto. Depois de se frustrar em rápidas passagens por Ceará e Fortaleza, o atacante se encontrou no Ferroviário. Por lá, ganhou o apelido de Mirandinha – inspirado no atacante homônimo que, na época, fazia sucesso no São Paulo – e trabalhou com o lendário Vavá, que o incentivou a confiar mais em seus chutes. Seu impacto na base do Ferrão logo chamaria a atenção da Ponte Preta, levado para Campinas aos 17 anos.

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A estreia de Mirandinha como profissional aconteceu rapidamente, numa ocasião um tanto quanto atípica. A Ponte Preta faria um amistoso contra a seleção da Tunísia, preparando-se à Copa do Mundo de 1978. Entretanto, os problemas no ataque abriram uma brecha no banco de reservas para o cearense, que tinha começado muito bem nos juniores. E a lesão do atacante titular foi a deixa para que o novato mostrasse a sua estrela. Decidiu a partida, anotando o gol da vitória por 1 a 0 sobre os tunisianos. Demonstrava bem o faro de gol.

Mirandinha não permaneceu na Macaca, ao ter sua liberação dificultada pelo Ferroviário. Ainda assim, seguiu em São Paulo e assinaria o seu primeiro contrato com o Palmeiras de São João da Boa Vista, brilhando nas divisões inferiores. Rodou bastante no início dos anos 1980, defendendo Botafogo, Náutico, Cruzeiro, Santos e Portuguesa. Neste período, os maiores sucessos vieram com o Timbu, o que o projetou à seleção olímpica. O atacante participou da conquista do Torneio de Toulon e foi o artilheiro do Pré-Olímpico, mas não foi convocado aos Jogos de Los Angeles. Entre altos e baixos, chegou ao Palmeiras em 1986. Justamente o clube que seria o seu trampolim à seleção principal e à Inglaterra.

A primeira passagem de Mirandinha com a camisa alviverde foi marcante. Ele fez parte do time que perdeu a final do Campeonato Paulista para a Inter de Limeira, mas os gols aos montes o referendavam. Anotou 45 em seu primeiro ano com os palestrinos, o suficiente para chamar a atenção da seleção brasileira. Acabou convocado por Carlos Alberto Silva no primeiro semestre de 1987, primeiro para disputar o Pré-Olímpico. O atacante foi um dos grandes destaques da competição, que assegurou o Brasil em Seul. Carlos Alberto Silva, que havia assumido a equipe de supetão diante da bagunça generalizada que se seguiu após a Copa do Mundo de 1986, seria mantido interinamente ao menos até o final do ano. Incluiu o cearense também na turnê europeia que a Seleção faria em maio, já com o elenco principal.

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A concorrência de Mirandinha no ataque era bastante pesada. Melhor jogador do futebol brasileiro naquele momento, Careca comandaria o ataque, mas acabou cortado do elenco ao se transferir para o Napoli. Assim, Romário foi acrescentado à lista e surgia o principal concorrente de Mirandinha. A ascensão no Vasco e a juventude referendavam o Baixinho como o futuro da Seleção. Contudo, Carlos Alberto Silva confiou no centroavante do Palmeiras. Seria ele o escolhido para iniciar os amistosos como titular, em gratidão pelos importantes gols anotados durante o Pré-Olímpico.

A estreia de Mirandinha na Seleção seria uma oportunidade de ouro. Enfrentaria a Inglaterra em Wembley, pela Taça Stanley Rous. Mas não era só o peso da tradição que fazia a ocasião importante. Naquele momento, o atacante já tinha as suas conexões com o futebol inglês. No Palmeiras, ele pegou amizade com um estudante, fanático pelo clube, que fazia intercâmbio em Londres. O jovem, por sua vez, estava hospedado na casa de uma família que tinha contato com o empresário do piloto Nigel Mansell. Este, por sua vez, fez o meio de campo com Malcolm MacDonald, antigo ídolo do Newcastle que seguia conectado ao alto escalão dos Magpies. E o torcedor palmeirense passou a alimentar a rede de influências com vídeos e artigos sobre o cearense. Assim, o amistoso era a chance de se firmar na equipe nacional e também de se mostrar aos possíveis interessados.

“MacDonald me contou que um dia apareceu um sujeito no pub do qual ele era dono e começou a falar que conhecia uma pessoa no Brasil que podia intermediar a contratação de atletas brasileiros para o Newcastle. No início, ninguém levou a sério. Mas essa pessoa era tão insistente que MacDonald aceitou ver alguns vídeos. Entre os jogadores, estava o Mirandinha”, relembra o técnico Willie McFaul, em entrevista ao UOL.

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“Saber que pessoas ligadas ao Newcastle estavam me assistindo naquele dia me deu muita força”, declarou Mirandinha, em entrevista ao ESPN FC internacional. Além de Malcolm MacDonald, também estavam na arquibancada outras pessoas ligadas aos Magpies, inclusive McFaul. Não se decepcionariam. Gary Lineker abriu o placar para a Inglaterra, mas o próprio Mirandinha buscou o empate minutos depois. Müller chutou cruzado, o goleiro Peter Shilton bateu roupa e o presente sobrou nos pés do centroavante, para cutucar às redes. Foi eleito o melhor em campo, responsável pelas principais oportunidades do ataque, sempre em jogadas individuais.

Quatro dias depois, o Brasil voltaria a campo pela Taça Stanley Rous. Perdeu para a Irlanda por 1 a 0, gol de Liam Brady. Já na sequência, em 26 de maio, a partida aconteceu no Hampden Park. O Brasil encarou a Escócia e mais uma vez os representantes do Newcastle estavam nas arquibancadas. Mirandinha passou em branco, mas fez o jogo de sua vida na vitória por 2 a 0. Foram várias arrancadas que incomodaram a defesa escocesa, e não só isso. Depois que Raí abriu o placar no segundo tempo, o palmeirense criou o segundo gol. Deu um belíssimo lançamento de trivela para Valdo, que entortou o marcador duas vezes e venceu o goleiro Andy Goram. O Brasil conquistava a Taça Stanley Rous. De novo, Mirandinha foi eleito o melhor em campo. A certeza que os Magpies precisavam.

O Brasil seguiu sua excursão indo a Helsinque. Mirandinha se machucou no amistoso contra a Finlândia e Romário o substituiu, anotando seu primeiro gol com a seleção principal. O Baixinho ainda faria estrago contra Israel, antes que o elenco voltasse ao país. Convocado à Copa América de 1987, realizada em junho, o palmeirense não chegou a entrar em campo. Careca era o capitão e compôs o ataque com Müller, substituído por Romário em alguns jogos. Já em meados de agosto, quando Mirandinha se preparava aos Jogos Panamericanos, a transferência ao Newcastle se concretizou, após semanas de negociações com o Palmeiras – os Magpies, inclusive, atravessaram o interesse do América do México, que estava próximo de contratar o cearense. O atacante deixou a concentração e viajou a Londres, onde fez exames médicos e assinou pré-contrato. A transação custou £575 mil aos ingleses.

NEWCASTLE UPON TYNE, UNITED KINGDOM - AUGUST 29: Newcastle United striker Francisco Ernani Lima da Silva, known better as Mirandinha (c) is paraded round the ground by manager Willie McFaul (r) before a League Division One match against Nottingham Forest at St James' Park on August 29, 1987 in Newcastle, England, Mirandinha signed for ?575,000 and was the first Brazilian to play in English football, scoring 24 times in 58 starts for the club. (Photo by Rusty Cheyne/Allsport/Getty Images)

O desembarque no novo país, então pouco afeito aos jogadores estrangeiros, foi difícil. A Inglaterra só havia reaberto seu mercado a atletas sem a nacionalidade britânica ou irlandesa a partir de 1978. Mesmo assim, eram raros os forasteiros, e ainda mais os sul-americanos. A realidade era totalmente nova a um brasileiro. “Eu nunca tinha ouvido falar no Newcastle antes de assinar e eu não conheci a cidade antes de minha chegada. Foi certamente difícil no começo. Eu não falava uma palavra em inglês e mesmo os ingleses têm dificuldades para entender o sotaque geordie. A barreira da linguagem era bem difícil”, afirmou Mirandinha, ao ESPN FC. O clube bancou aulas de inglês três vezes por semana, para auxiliar na sua adaptação. Além disso, houve um intérprete nos primeiros meses, até que ele se aclimatasse à língua.

A contratação de Mirandinha causava grandes expectativas em St. James’ Park, e não apenas pela presença inédita de um jogador brasileiro nos gramados ingleses ou por seu impacto nos amistosos recentes. Havia também certa responsabilidade sobre o novo centroavante, que vinha para substituir o ídolo Peter Beardsley. Presente na Copa de 1986, o atacante defendeu os Magpies por quatro temporadas e foi o artilheiro do clube no período. Disputado por Liverpool e Manchester United, acabou se mudando a Anfield depois que os Reds quebraram o recorde nacional em uma contratação, desembolsando £1,9 milhões. O brasileiro teria que lidar com as expectativas.

Malcolm MacDonald, que foi intermediário na transferência, se tornou um tutor de Mirandinha no primeiro momento. Na chegada do atacante ao seu primeiro treino, o antigo artilheiro foi seu porta-voz. Perguntado se o novo contratado saberia lidar com o jogo físico dos clubes ingleses, o veterano respondeu com uma confiança marcante: “Os zagueiros não conseguirão alcançá-lo para dar pontapés. Ele vai finalizar mais vezes que todos os outros 21 jogadores em campo juntos”.

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Fisicamente, Mirandinha não parecia o jogador talhado para o futebol inglês da época, especialmente por sua baixa estatura. Entretanto, aos 26 anos, estava em ótima forma. Combinava força e velocidade, passando pelos adversários em aceleração máxima. Além disso, gostava de chutar de qualquer canto, mesmo se tivesse companheiros livres ao lado – o que valia a fama de ‘fominha’. Treinava finalizações incessantemente e também se tornou cobrador nas bolas paradas. “Mira tinha habilidades exóticas, os torcedores não estavam acostumados a um jogador como ele. Passe não era uma palavra familiar a ele e, infelizmente, o time não era bom o suficiente para deixá-lo aparecer quando se sentisse à vontade. Tinha habilidade, mas provavelmente estava cinco ou seis anos mais cedo do que deveria no clube”, descreve Kev Fletcher, no livro sobre os 100 maiores jogadores do Newcastle.

A estreia de Mirandinha aconteceu em 1° de setembro de 1987. O atacante era dúvida para a visita ao Norwich City, mas sua situação acabou regularizada duas horas antes do jogo. Iria a campo em Carrow Road, já como titular. “Eu estava amedrontado antes de meu primeiro jogo. A partida era muito veloz e os jogadores marcavam forte. Era difícil encontrar tempo e espaço para controlar a bola”, analisou, ao ESPN FC. O brasileiro passou em branco, marcado forte por Steve Bruce. Ainda assim, com o satisfatório empate por 1 a 1, teve o seu nome gritado pelos torcedores presentes nas arquibancadas.

“Depois do que parecia uma interminável espera, o homem finalmente chegou. A empolgação foi intensa, assim como a especulação. Ele faria o gol? Seria expulso? A noite estava limpa e um pouco abafada – como o inverno no Rio. O Norwich não estava com vontade de deixar a noite se transformar em um carnaval brasileiro, embora talvez as camisas amarelas fizesse Mirandinha se sentir um pouco em casa. Felizmente, elas não o confundiram. ‘Mirandinha, Mirandinha’, cantava o coro geordie, jubilante”, relatou Stephen Bierley, no texto do jornal The Guardian sobre o jogo, publicado no dia seguinte. Dimensiona bem a ‘febre brasileira’ que acometeu os Magpies naquele momento. “Tem umas jogadas do meio do campo. Arrisquei umas batidas de falta. A estreia foi muito bacana. Recebi um calor humano fantástico, dos jogadores, da torcida. Inclusive do Norwich, por causa do verde-amarelo, o canarinho inglês”, complementa o cearense, em entrevista à revista Corner.

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Na saída de Carrow Road, Mirandinha viveu uma situação peculiar, como muitas que aconteceriam na Inglaterra. O clube ofereceu frango e peixe com fritas para os jogadores após o jogo. Então, Paul Gascoigne deu uma ‘dica’ ao brasileiro: sugeriu que dissesse ao treinador Willie McFaul que estava “fodidamente” morrendo de fome. Ele não sabia o que significava e, quando repetiu, todos caíram na gargalhada. Gazza seria justamente uma das principais amizades do novato naqueles primeiros meses. Aos 20 anos, o genial e genioso meia se firmava como a grande revelação do Newcastle.

“Gazza era meu parceiro. A gente estava sempre junto. Ele morava em um bairro próximo, então quase todo dia ele tocava a campainha de casa querendo comer comida brasileira. Eu levei uma empregada baiana e ela fazia arroz, feijão, uma farofa típica baiana e bistecona de porco frita. Ele gostava muito quando tinha feijão preto, quase como feijoada, comia até passar mal. A gente passou a fazer muitos eventos juntos. Sempre andei muito com ele, criamos uma amizade muito grande”, rememora Mirandinha, à Corner. Gazza era o ‘tradutor extraoficial’ do centroavante, a quem ensinou diversos palavrões.

Em sua biografia, Gascoigne conta que, logo na chegada do brasileiro, pediu emprestado o carro que ‘Mira’ (como o chamavam por lá) havia recebido de um patrocinador. Saiu para dar uma volta e bateu o automóvel, ao apostar um racha. Apesar da péssima impressão inicial, acabaram se aproximando. Gazza ainda deu um cachorro aos filhos do companheiro, tamanha era a consideração. Segundo Mirandinha, os dois chegaram mesmo a criar uma rivalidade para ganhar publicidade dentro da mídia. “Tudo na vida era engraçado para ele, menos quando entrava em campo. Neste lugar, ele era sério. Ele podia até mesmo brigar com você no gramado, se importava muito. Foi uma pessoa brilhante, que me apoiou”, resumiu o camisa 9, ao ESPN FC.

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Dentro de campo, por mais que o individualismo de Mirandinha e Gascoigne pesasse, ambos ajudaram o Newcastle a fazer uma boa campanha no Campeonato Inglês. O primeiro gol do brasileiro aconteceu em seu terceiro jogo. E não era qualquer partida. Os Magpies visitavam o Manchester United em Old Trafford. O camisa 9 abriu o placar com uma cobrança de falta rasante, que o goleiro Gary Walsh aceitou. Já no segundo tempo, depois do empate dos Red Devils, o brasileiro voltou a aparecer ao balançar as redes de cabeça. Ao final, o United encerrou o placar em 2 a 2, mas o novo contratado já tinha dado motivos para a adoração dos torcedores.

Miradinha precisou de tempo para se aclimatar ao futebol inglês. “Naquela época, a maioria dos clubes ingleses jogavam com bolas longas. Para minha sorte, o Newcastle não era tão ‘inglês’. Eles jogavam um tipo de jogo similar ao meu, com muita velocidade. Embora fosse totalmente diferente do Brasil, penso que o maior problema que eu tive quando cheguei foi a língua”, refletiu, em entrevista ao site da Fifa. E sua visão à Corner é complementar: “Eu fazia dupla de ataque com Paul Goddard e nós tínhamos muita dificuldade por sermos bem mais baixos que os zagueiros. Ganhamos muito porque o Gazza vinha de trás com a bola no chão, o Neil McDonald era um lateral que jogava bem com a bola no chão, o Kenny Wharton que era um canhotinho que jogava bem no meio-campo. Eram jogadores técnicos. O Newcastle passou a jogar em função da baixa estatura dos atacantes, um pouco mais no chão. O Willie McFaul trabalhava muito as jogadas pelo chão. Era um estilo mais brasileiro, francês, espanhol”.

Nos sete jogos seguintes após o empate em Manchester, Mirandinha anotou apenas dois gols. O primeiro contra o Southampton, no final de setembro. O tento saiu graças a uma enfiada de bola fenomenal de Gascoigne, para o brasileiro tocar na saída do goleiro. Na comemoração, o camisa 9 saiu correndo direto para o banco de reservas, abraçando o técnico McFaul, pressionado pela sequência de resultados ruins. E a vitória por 2 a 1 seria selada com participação do centroavante, em falta que desviou na barreira e sobrou para Paul Goddard fuzilar. Depois, marcou de cabeça também contra o Everton, atual campeão nacional, arrancando o empate por 1 a 1.

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Curiosamente, Mirandinha deslanchou quando o inverno se tornou mais rigoroso. O cearense sofreu com as baixas temperaturas do nordeste inglês, mas soube superar o entrave. “Eu vim de São Paulo e nunca tinha experimentado um frio tão intenso. Nunca pensei que tentaria jogar nessas condições. Uma vez vesti luvas para jogar, mas caí logo nos primeiros minutos e elas ficaram ensopadas. O inverno parecia ainda mais frio, então eu desisti de usá-las”, contou, ao ESPN FC. Entre o fim de novembro e o primeiro dia de 1988, o centroavante anotou seis gols em nove jogos. Graças aos seus tentos, o Newcastle conquistou cinco vitórias no período e ganhou posições na tabela.

O moral era tamanho que Mirandinha chegou a ser convidado para acender as luzes da árvore de Natal montada na frente da prefeitura de Newcastle. “Eu estava lá com meus filhos, pronto para distribuir autógrafos, mas os torcedores vieram em massa. Houve tanta confusão que nós precisamos ser tirados dali. A experiência foi melhor que qualquer gol que eu tenha marcado. Isso me fez sentir bem e amado”, relembrou, ao ESPN FC. Havia até mesmo uma música cantada nas arquibancadas do St. James’ Park: “We’ve got Mirandinha, he’s not from Argentina. He’s from Brazil, he’s fucking brill”. Destacava a rivalidade vigente com a Argentina pelas Malvinas e ainda dizia que o camisa 9 era ‘fodidamente’ brilhante.

A fonte de gols voltou a secar no primeiro semestre de 1988.  Fez só mais dois, ambos contra o Chelsea em St. James’ Park, proporcionando a vitória por 3 a 1. Ainda assim, Mirandinha manteve o seu protagonismo no Newcastle, que terminou na oitava colocação do Campeonato Inglês. Foi o artilheiro do time com 13 gols, 11 deles na liga nacional, pela qual disputou 26 jogos. A repercussão era tamanha que o brasileiro chegou a integrar a ‘seleção da liga’, formada para disputar um jogo festivo. O problema viria na temporada seguinte, quando Gascoigne acabou negociado com o Tottenham. Paulo Goddard foi outro a sair, arrumando as malas para o Derby County. Os Magpies tentaram reformular a sua linha de frente com as contratações de Rob McDonald, Frank Pingel e John Hendrie, mas as novas peças não se encaixaram.

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De qualquer maneira, o momento mais memorável de Mirandinha no Newcastle aconteceu exatamente naquela temporada. Em 1° de outubro, os Magpies visitavam o Liverpool em Anfield, pela sexta rodada da liga. Atuais campeões nacionais, os Reds acabaram surpreendidos. Gary Gillespie abriu o placar para o time de Kenny Dalglish logo aos três minutos, mas os visitantes empataram ainda no primeiro tempo, com John Hendrie. Aos 38 do segundo tempo, por fim, o Newcastle teve um pênalti marcado a seu favor. Mirandinha encararia Mike Hooper. Apenas deslocou o goleiro adversário e saiu correndo para o abraço. Na comemoração, vibrou muito e bateu no peito bem em frente da famosa The Kop, provocando a fúria dos torcedores do Liverpool – em tempos nos quais a reputação dos torcedores ingleses estava longe de ser boa.

A vitória por 2 a 1, todavia, não aliviou a pressão sobre o Newcastle. Na rodada seguinte, os alvinegros foram batidos em St. James’ Park pelo Coventry City, por 3 a 0. O suficiente para a demissão do técnico Willie McFaul. Mirandinha perderia um dos seus maiores apoiadores no clube. “A saída dele foi uma das causas para o fim da minha passagem pelo Newcastle. Eles trouxeram o Jim Smith, que era um louco varrido, não tinha nada na cabeça. Era agressivo, batia, falava palavrão, xingava achando que ia motivar a gente”, pontua o brasileiro, à Corner. O camisa 9 marcaria apenas mais dois gols até dezembro, ambos em uma vitória sobre o Middlesbrough. Os resultados eram péssimos.

Entre janeiro e março, Mirandinha voltou a viver uma boa sequência. Marcou seis gols em nove partidas, dando três vitórias ao Newcastle. Além disso, assombrou novamente o Liverpool, no empate por 2 a 2 em St. James’ Park. O camisa 9 abriu o placar em uma saída em falso de Bruce Grobbelaar e quase anotou um gol antológico em chute do meio da rua, que bateu na parte interna da trave antes de sair. Não foram os gols tardios do brasileiro, no entanto, que salvaram os Magpies. O atacante ainda sofreu com problemas no tendão de Aquiles e, mesmo artilheiro da equipe com nove gols, não evitou o rebaixamento, na lanterna do campeonato.

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De volta ao Brasil para tratar a lesão, Mirandinha teve as portas fechadas no clube por Jim Smith. “Por mim, ele pode apodrecer em sua fazenda de porcos em São Paulo”, disse o treinador, em frase que se tornou célebre, fazendo referência ao rumor de que o brasileiro usara o dinheiro que ganhou na Inglaterra para criar porcos. Inicialmente emprestado ao Palmeiras, o atacante optou por permanecer no Brasil, visando suas chances na Copa do Mundo de 1990. Porém, sequer foi convocado por Sebastião Lazaroni.

O Newcastle ainda tentou recontratar Mirandinha. Em 1992, o empresário John Hall adquiriu o clube de coração e queria levar o atacante, de quem era admirador. O cearense declinou a oferta. Pouco tempo depois, os Magpies se tornariam uma potência nacional, disputando o título da Premier League sob as ordens de Kevin Keegan. “Foi o maior erro da minha vida: escolhi permanecer no Brasil. Como eu lamento esta decisão…”, avaliou o camisa 9, em entrevista à FourFourTwo. Ele seguiria em frente a sua carreira, passando também por Portugal e Japão, na recém-estabelecida J-League. Aposentou-se sem nunca mais atuar na Inglaterra.

Os laços de Mirandinha com o Newcastle, de qualquer maneira, permanecem. Sir Bobby Robson tentou contratá-lo para trabalhar nas categorias de base, mas não deu certo. Posteriormente, o ex-atacante seria olheiro dos Magpies na América do Sul. Já em abril de 2016, ele retornou ao St. James’ Park. Foi homenageado antes da partida contra o Manchester City, pela Premier League. “Na Inglaterra, o time dá um propósito às pessoas. E, em Newcastle, isso se torna uma religião. O Newcastle foi a melhor experiência da minha vida. O clube tem a melhor torcida que eu já vi. Ainda hoje, alguns torcedores malucos vêm tirar fotos comigo. Eu não conseguia um descanso nem quando estava trabalhando na Malásia como técnico!”, afirmou ao jornal Chronicle Live. “Eu continuo pensando no Newcastle. Eu amo Newcastle e fui muito feliz por lá”.