Quando Grêmio e Real Madrid entrarem em campo na decisão do Mundial de Clubes, estarão se reencontrando. Depois de 56 anos, os dois times voltam a se enfrentar. E o primeiro duelo entre gremistas e madridistas aconteceu de uma maneira bastante inusitada. Os tricolores estavam em turnê pela Europa quando foram convidados para “tapar buraco” em um amistoso: o Sedan não pôde cumprir seu compromisso com os merengues e, assim, os pentacampeões europeus precisavam de um adversário. Treinado pelo histórico Foguinho, o Grêmio encarou o Real de Miguel Múñoz. Os gaúchos, porém, não conseguiram segurar o esquadrão do outro lado, goleados por 4 a 1 no Estádio de la Meinau, em Estrasburgo.

O Grêmio x Real Madrid poderia ter sido realizado pouco antes de, de fato, acontecer. Em fevereiro de 1961, os merengues vieram ao Brasil. Enfrentaram o Vasco no Maracanã, em amistoso que fez parte dos eventos oficiais na posse do presidente Jânio Quadros. E empresários gaúchos chegaram a fazer uma proposta financeira para que os espanhóis estendessem a turnê até Porto Alegre, para enfrentar o Grêmio no Olímpico. Segundo o Diário de Notícias, foram oferecidos cinco milhões de cruzeiros aos madridistas. Entretanto, o amistoso acabou não se concretizando. Por linhas tortas, tomaria forma em Estrasburgo.

O Grêmio havia iniciado sua excursão pela Europa em abril de 1961, pegando o Stuttgart. Passou por Romênia, Grécia, Bulgária, Polônia e Alemanha até se cruzar o caminho com o Real Madrid. Curiosamente, os dois jogos anteriores ao duelo contra os merengues aconteceram em Hamburgo. Naquela ocasião, porém, os tricolores não enfrentaram o Hamburgo, seu adversário na conquista do Mundial em 1983. Os gaúchos golearam o Altona no Volksparkstadion, antes de baterem também o St. Pauli no Millerntor. Depois disso, ali na fronteira entre Alemanha e França, encararam o Real Madrid.

Foguinho, aliás, já conhecia o Real Madrid. O treinador do Grêmio tinha enfrentado os merengues em outra ocasião, oito anos antes, quando comandava o Cruzeiro de Porto Alegre. Pois o Estrelado segurou o empate por 0 a 0 com os espanhóis em pleno Estádio Santiago Bernabéu, então chamado de Chamartín. Alfredo Di Stéfano, que no mês anterior havia sido liberado para atuar pelos madridistas após o imbróglio em sua contratação, estava em campo. Não conseguiu passar por Walter Spiess, zagueiro dos gaúchos. Reza a lenda que, depois de uma entrada firme do defensor, o craque argentino tentou dar uma carteirada no adversário. “Mire, pibe, yo soy Di Stéfano, do Real Madrid”. Teria ouvido: “E daí? Eu sou o Waltão de Canoas”.

Meses depois de seu retorno da Europa, Foguinho acabou convidado para treinar o Grêmio, clube do qual foi atacante por quase uma década em seus tempos de jogador. E, na casamata tricolor, uniu aquilo que observara no exterior ao estilo aguerrido que tanto gostava de exigir de seus jogadores. Com ele, eclodiu a mentalidade que se entende hoje como o ‘DNA gremista’, de muito brio e pegada em campo. Sob as ordens do treinador, o time foi pentacampeão estadual, entre 1956 e 1960. Assim, quando os gaúchos duelaram com o Real Madrid, também estavam cheios de nomes históricos: Gessy, Aírton, Ênio Rodrigues e Milton fizeram parte daquele 11 inicial.

O Real Madrid, todavia, era o de Di Stéfano, Puskás, Gento e Del Sol na linha de frente. Também vinha de títulos expressivos recentes, sobretudo a goleada sobre o Eintracht Frankfurt na final da Champions, para selar o quinto título continental consecutivo, e também a vitória sobre o Peñarol na final do Mundial. Diante de 35 mil torcedores, os merengues não decepcionaram e fizeram valer o favoritismo. Del Sol abriu o placar aos espanhóis, antes que o atacante Cardoso empatasse. Contudo, Puskás assumiria o show para si logo depois. O Major Galopante anotou dois tentos antes do intervalo. Já na etapa complementar, Mateos fechou a conta aos madridistas.

Apesar da goleada, o Grêmio mereceu os elogios dos jornais. As agências internacionais ressaltaram a maneira como os tricolores enfrentaram os merengues, sobretudo os defensores Aírton e Ortunho. Exaltaram a participatividade de Ênio Rodrigues e também o incômodo causado pelo atacante Cardoso. “A imprensa local dedicou grandes espaços em suas páginas para os comentários sobre o espetacular jogo de ontem. Em linhas gerais, dizem que os brasileiros dominaram a maior parte do tempo, mas seu controle das ações não se materializou em gols, uma vez que cuidaram de apresentar um futebol brilhante sem buscar a meta adversária com maior insistência”, escreveu a UPI.

Depois da derrota para o Real Madrid, o Grêmio passou mais três semanas viajando pela Europa. Ainda atuaria na Bélgica, na Dinamarca e na União Soviética. Inclusive, os tricolores encararam a seleção da URSS, derrotados por 2 a 0. Mais de 95 mil assistiram ao jogo no Estádio Luzhniki. Histórias que se reavivam na memória, enquanto os tricolores sonham com o novo embate diante dos merengues.

Confira a ficha do jogo na Gremiopédia. Abaixo, as páginas do jornal O Dia e ABC, relatando a partida. Clique com o botão direito do mouse e em “abrir imagem em nova guia” para ver ampliado: