Laurent Blanc teve três anos quase impecáveis no âmbito doméstico comandando o Paris Saint-Germain. Ganhou 11 das 12 competições francesas que disputou, com exceção da Copa da França de 2013/14. A sequência inclui três títulos consecutivos da Ligue 1, que, junto com a conquista de Carlo Ancelotti, deram ao PSG o tetracampeonato nacional. Não foi o bastante para o presidente Nasser Al-Khelaifi, cuja ambição é o troféu da Champions League. Demitiu Blanc e buscou experiência em competições europeias com Unai Emery, tricampeão seguido da Liga Europa. Mas o projeto parisiense acabou ficando grande demais também para o ex-treinador do Sevilla. 

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Nesta sexta-feira, Emery anunciou que seu contrato de dois anos não será renovado. “Eu disse aos jogadores que estou indo embora. Agradeço ao presidente Nasser Al Khelaifi e ao diretor esportivo Antero Henrique, aos torcedores e a todos os jogadores por essas duas temporadas”, afirmou, na entrevista coletiva desta sexta-feira, antes da partida contra o Guingamp, no próximo domingo. 

A missão de Emery ao chegar ao Paris Saint-Germain, em 2016, era clara: fazer grandes campanhas na Champions League. Cobrar o título seria injusto, mas pelo menos quebrar a barreira das quartas de final, fase em que os parisienses foram eliminados nos quatro anos anteriores à sua chegada. Não conseguiu, com requintes de crueldade. Depois de fazer 4 a 0 na partida de ida, o PSG levou o histórico 6 a 1 do Barcelona e foi eliminado ainda nas oitavas de final da temporada passada. Este ano, mais uma vez parou na primeira fase do mata-mata, perdendo os dois jogos para o Real Madrid. 

Pode ser argumentado que o sorteio não foi gentil com Emery, colocando dois gigantes pela frente logo nas oitavas de final. Por outro lado, o objetivo do Paris Saint-Germain é justamente lutar de igual para igual com essas equipes e vencê-las de vez em quando. E, com, exceção do primeiro jogo contra o Barcelona, a equipe do treinador espanhol esteve longe da meta nos duelos mais importantes, apesar dos erros de arbitragem no Camp Nou. Mesmo contra o Bayern de Munique, outro membro da elite europeia, fez 3 a 0 em um elenco fragmentado, com os problemas do fim da passagem de Ancelotti, e foi derrotado pelos bávaros rejuvenescidos pelo retorno de Jupp Heynckes. 

Além disso, houve um retrocesso no âmbito doméstico. O Paris Saint-Germain de Emery caminha para conquistar todas as copas francesas, falta apenas a Copa da França desta temporada, cuja final será disputada contra o Les Herbiers, da terceira divisão. Mas permitiu que o Monaco quebrasse a sequência de títulos da Ligue 1. A pontuação altíssima de 87 pontos seria suficiente para conquistar o Campeonato Francês em todas as temporadas com três pontos por vitória com exceção de duas conquistas do próprio PSG, mas a diferença de investimento para o resto da tabela faz com que qualquer segundo lugar seja considerado um fracasso. 

Principalmente porque Emery teve carta branca para trazer jogadores de confiança no seu primeiro mercado com acesso aos bolsos polpudos do xeique. E nenhum deles deu certo. Apenas Meunier se firmou. Krychowiak e Jesé custaram € 50 milhões e já foram embora. Os melhores negócios acabaram vindo em janeiro, com as chegadas de Gonçalo Guedes, que acabou emprestado para o Valencia, e Julian Draxler, este sim uma peça de reposição importante. As exigências ficaram ainda maiores quando o Paris Saint-Germain decidiu quebrar a banca para contratar Neymar e Mbappé. 

Com duas novas estrelas para manejar, o vestiário pareceu além das capacidades de Emery, um treinador muito competente, de perfil tático, mas longe de ser uma das estrelas da profissão. Ele não tinha tamanho para bater de frente com Neymar quando fosse necessário, tanto que, depois da polêmica das bolas paradas, definiu o brasileiro como cobrador oficial de pênaltis em detrimento de Cavani. Problemas de relacionamento continuaram pingando na imprensa europeia e, verdadeiros ou não, são sintomas de um técnico que não está no controle do seu elenco, pelo menos não o bastante para limitar o vazamento de histórias e boatos. 

Mesmo na parte tática, que deveria ser o forte de Emery, o Paris Saint-Germain não mostrou uma consistência acima da média, especialmente na segunda temporada do técnico. Neymar contra a rapa foi a tônica de vários duelos. Além disso, como Blanc, ele fez pouco para inserir uma mentalidade vencedora que um clube em formação precisa para os grandes duelos europeus. O Paris Saint-Germain tem uma equipe altamente qualificada, dinheiro à vontade, estrutura de primeira linha. Então por que não consegue alcançar todo o seu potencial? Como sempre, o técnico é o primeiro culpado, o elo mais frágil.  

Não basta ser um ótimo treinador de futebol para liderar o Paris Saint-Germain. O projeto, que sempre foi ambicioso, adquiriu uma exigência tão grande com os € 400 milhões gastos em Neymar e Mbappé que apenas um nome de alcance midiático similar teria costas largas para administrar os egos e mudar a chavinha, de uma equipe altamente qualificada para uma vencedora. Emery foi uma aposta interessante, mas não deu certo. Thomas Tuchel, quase certo para assumir o cargo, também terá dificuldades para fazer isso.