A era Silvio Berlusconi não chega ao fim, mas o Milan viverá uma mudança brusca nos próximos tempos. Quem acompanhava o clube, estava acostumado a ver Adriano Galliani marcando presença. Desde 1986, ele era o braço direito de Berlusconi. Embora seu cargo fosse de vice-presidente, o italiano foi o grande executivo dos rossoneri no período, especialmente quando o presidente esteve mais envolvido na política italiana, como primeiro ministro. Uma gestão que se encerrará no fim do ano, quando Galliani deixará seu cargo à disposição.

A saída do vice-presidente já era comentada havia algum tempo. A saída de Berlusconi do governo promoveu sua volta parcial ao cotidiano do Milan e, de certa forma, ajudou a inserir sua filha, Barbara, nos bastidores. O choque entre o velho estilo de gestão de Galliani e as ideias da novata provocaram diversos atritos em Milão. E a má fase da equipe em campo, em seu pior início de campanha desde o rebaixamento na Serie A, só reforçaram o conflito interno.

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“Eu irei deixar o clube nos próximos dias por uma boa razão. Talvez eu espere até o jogo contra o Ajax. Minha reputação tem sido manchada e irei com ou sem indenização. A mudança de geração é favorável, eu entendo isso, mas não como ocorreu. Era preciso um pouco mais de elegância”, declarou Galliani. “Meu futuro? Primeiro irei descansar. Depois de um tempo eu verei. Mas minha afeição a Silvio Berlusconi é imutável”.

Em 27 anos, 20 taças levantadas

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O cargo de vice-presidente apenas servia para conotar que Adriano Galliani estava abaixo de Silvio Berlusconi na hierarquia do Milan. O que nem sempre acontecia na prática. O ex-primeiro ministro gostava de agir nos bastidores dos rossoneri, mas também dava liberdade suficiente para seu companheiro. E, como o magnata da comunicação e político tinha vários afazeres além do clube, cabia a Galliani o exercício de conduzir a administração do Milan. Mais do que isso, era um faz-tudo, acumulando também funções na aproximação com o elenco e com a imprensa.

Assim, o vice-presidente foi responsável pela contratação de técnicos e jogadores no período. Sobretudo, pela construção de uma máquina em Milão na virada da década de 1980. O primeiro comandante empossado por Galliani foi justamente Arrigo Sacchi, o criador de um dos maiores esquadrões da história, substituído logo depois por Fabio Capello, que manteve o legado de seu antecessor. Em um período de dez anos, o Milan faturou cinco títulos da Serie A e três da Liga dos Campeões. Alta retomada especialmente a partir de Carlo Ancelotti, quando o clube conquistou a Europa mais duas vezes.

Em 27 anos, Galliani também foi hábil o suficiente para contratar alguns dos melhores jogadores do mundo. Com a fortuna de Berlusconi, chegaram ao San Siro craques do nível de Gullit, Van Basten, Weah, Shevchenko e Pirlo. Seu último grande negócio aconteceu nesta pré-temporada, quando conseguiu desamarrar o litígio de Kaká com o Real Madrid e trouxe o antigo ídolo de volta ao Milan.

Obviamente, a passagem de Galliani pelo Milan não foi feita apenas de grandiosidades. O dirigente recebeu uma curta suspensão por ter se envolvido com o escândalo do Calciopoli, além de ter sido acusado de maquiar balanços financeiros do clube. Ainda assim, não foram manchas suficientes para atrapalhar sua gestão. Nada até o cartola ver os fracassos em campo se somarem com alguém também bancado por Berlusconi nos bastidores.

Como ficará o futuro do Milan?

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Com ou sem Galliani, é difícil esperar uma reviravolta do Milan na Serie A. As fracas atuações não têm rendido nem mesmo vitórias suadas, como em outros tempos, e os rossoneri já estão a 14 pontos da zona de classificação para a Liga dos Campeões. Ao menos, o time se salvou de uma situação de perigo na fase de grupos da Champions e depende de um empate para avançar às oitavas de final, depois da convincente vitória sobre o Celtic em Glasgow – segundo o vice-presidente, algo possibilitado por suas novas meias da sorte.

A saída de Galliani também se une ao ostracismo de Silvio Berlusconi, que teve a imagem ainda mais abalada depois de sua última passagem pelo governo italiano. O que abre o caminho para que a próxima geração da família tome controle do negócio. A ascensão de Barbara sugere uma transformação tanto no modelo de administração quanto na gestão do elenco. Segundo a Gazzetta dello Sport, ela quer uma identidade profissional diversa – nada centrada em um manda-chuva – e um projeto para as categorias de base e a observação de jogadores. Resta saber qual o manejo de alguém tão inexperiente no comando de um dos maiores clubes do mundo.

De uma vez só, quatro novos cargos deverão ser criados para substituir o vice-presidente. O nome mais forte entre os especulados é o de Paolo Maldini. Um ídolo da torcida, o que ajudará na aceitação nesta nova fase, que também possui muito trânsito nos corredores do clube. O ex-zagueiro seria o novo diretor técnico. Outro ex-jogador comentado é Demetrio Albertini, enquanto Barbara também deverá buscar executivos com experiência em outros clubes para as posições de diretor geral e diretor esportivo.

Por enquanto, a renovação é um tiro no escuro. Galliani foi um dos pilares para o sucesso do Milan durante quase três décadas, mas a mudança de ares não é tão indesejada assim pelos rossoneri. A fase ruim dentro de campo é resultado das dificuldades em lidar com os problemas enfrentados pelo futebol italiano e, particularmente, por Berlusconi. A próxima administração precisará rever alguns conceitos. E, também, agir rápido se quiser uma melhora de resultados já no segundo semestre da temporada.