A Data Fifa desta quarta-feira significa muito. Faltando 99 dias para o início da Copa do Mundo, é a última oportunidade para quem quiser provar seu valor com a camisa da seleção. E também para os treinadores fazerem os últimos ajustes imaginando suas convocações finais. O desafio não é uniforme para todas as grandes seleções, mas são sete jogos para ficar de olho: Espanha x Itália, Brasil x África do Sul, Alemanha x Chile, França x Holanda, Inglaterra x Dinamarca, Uruguai x Áustria e Argentina x Romênia.

O que cada um dos técnicos das oito seleções campeãs do mundo deverão observar? Pensando nessa questão, apontamos as principais necessidades de cada uma dessas equipes às vésperas da Copa do Mundo. Porque, se as certezas não vierem dentro de 24 horas, somente observando muito os clubes para se chegar a uma conclusão. Confira:

Brasil: A Copa das Confederações é o parâmetro

Após oito anos no Shakhtar Donetsk, Fernandinho quer aparecer no Manchester City

A situação do elenco de Luiz Felipe Scolari é bem clara. O treinador ainda tem suas interrogações, mas deverá mesmo se pautar no que viu na Copa das Confederações. Ainda falta definir o nome do terceiro goleiro, entre Victor e Diego Cavalieri; o quarto zagueiro, entre Réver, Dedé e Henrique; se Fernandinho poderá mesmo roubar a vaga de Lucas Leiva; e como comporá os reservas de sua trinca de meias, com Hernanes, Robinho, Willian, Lucas Moura e Bernard disputando três vagas.

O momento talvez fosse de observar outros centroavantes, mas Felipão preferiu abrir mão disso. Diante das desconfianças físicas sobre Fred e técnicas sobre Jô, o técnico bancou seus homens de referência em um amistoso que não valerá tanto assim – talvez, até mesmo para observar em que condições a dupla chega ao Mundial. Difícil é imaginar uma reviravolta com alguém correndo por fora pelo posto, por mais que o comandante banque a convocação de dois camisas 9 de área.

Alemanha: Nem tudo é bonito quanto se pinta

Klose e Gómez, favoritos no ataque do Nationalelf

A declaração de Joachim Löw foi categórica: “A Alemanha não é tão boa quanto parece no papel”. Há um pouco de dramatização, é claro, mas o treinador tem sua parcela de razão. O Nationalelf sobrou nas Eliminatórias e conta com um elenco recheado de ótimos jogadores. Ainda assim, existem vários problemas pontuais. A defesa convive com várias instabilidades por conta das lesões e, por isso mesmo, os jovens Matthias Ginter e Shkodran Mustafi serão observados pela primeira vez, alternativas para o miolo de zaga. Já na cabeça de área, Sami Khedira e Ilkay Gündogan seguem machucados, mas o treinador tem substitutos confiáveis em Toni Kroos e Lars Bender e ainda conta com o retorno de Bastian Schweinsteiger.

A questão mais delicada talvez esteja justamente onde a Alemanha é mais forte: no quarteto de ataque. Como referência na área, as condições físicas de Mario Gómez e Miroslav Klose não passam nenhuma confiança. Pierre-Michel Lasogga é o eleito da vez, depois de Max Kruse já ser aproveitado – e Mario Götze testado como ‘falso nove’. Enquanto isso, na trinca de meias do 4-2-3-1 armado por Löw, fica o dilema entre fase e experiência, como já tinha acontecido na Euro. Mesut Özil e Lukas Podolski não vêm tão bem, mas permanecem fazendo sombra a Thomas Müller, Marco Reus, André Schürrle, Götze, Kroos ou qualquer outro do setor. Definir seus titulares logo será importante para um encaixe melhor dos alemães na Copa. Para sorte de Löw, Bayern e Dortmund são ótimas bases para a seleção – e talvez o treinador até adote alguns elementos táticos, como Phillip Lahm de volante, algo que já fez em amistoso anterior.

Argentina: Falta gente na defesa e sobra no ataque

Argentina Albania Soccer

Alejandro Sabella fez a maioria dos técnicos da Argentina não conseguiram nos últimos anos: montar uma equipe de verdade. Soube tirar o melhor dos craques que tinha à disposição e também dar consistência a uma defesa bem aquém do sonhado. Ainda assim, a situação da Albiceleste está longe de ser uma maravilha plena. A começar à crônica dor de cabeça no gol. Tanto Sergio Romero quanto Mariano Andújar vivem baixa. A terceira via é Agustín Orión, que também não inspira total confiança. Na defesa, Pablo Zabaleta é o dono da lateral direita e o miolo de zaga está bem servido, com Ezequiel Garay no comando. Mas a lateral esquerda continua sem dono, apesar das várias improvisações nos últimos ciclos.

Já na trinca do meio-campo, Javier Mascherano e Ángel Di María estão garantidos, mas falta definir que os acompanha. Fernando Gago, Ever Banega e Lucas Biglia já passaram por ali e o último parece ser mesmo a primeira opção de Sabella. Já o ataque conta com as maiores certezas do treinador e, paradoxalmente, os maiores motivos de reclamação. Messi, Agüero, Higuaín, Lavezzi e Palacio são nomes praticamente certos na Copa, mas deixam Tevez para escanteio. E a ausência do atacante, que, além de ser xodó da torcida, está jogando muito na Juventus, pode ser motivo de comoção popular às vésperas da convocação final.

Espanha: A renovação de um campeão não é tão simples

Thiago troca o Barcelona pelo Bayern Munique e voltará a trabalhar com Guardiola (AP Photo/Ariel Schalit)

Vicente Del Bosque tem a árdua missão de defender o título mundial. E com um elenco quatro anos envelhecido, além de vários jogadores pedindo passagem. Faltam peças na defesa. Jordi Alba não tem um reserva definido, assim como Álvaro Arbeloa precisa se garantir depois de tantas más atuações. Nessa brecha nas laterais, quem surge como uma possível solução é César Azpilicueta, com capacidade de jogar dos dois lados do campo. E, no miolo de zaga, sem a esperada volta de Carles Puyol, é bem possível que Javi Martínez sirva de coringa no setor – algo que o treinador poderá testar nesta quarta.

No meio-campo, a questão é a decadência de Xavi. Por isso mesmo, Thiago Alcântara será titular, o mais capacitado para ditar o ritmo intenso da Roja. E ainda há Koke galgando seu espaço, uma boa opção para manter a consistência e dar mais saída pelos lados ao setor. E se os meio-campistas de contenção estão contados nos dedos, os ofensivos e ponteiros sobram. Del Bosque tem Iniesta, Cazorla, David Silva, Jesus Navas e Pedro à disposição nesta convocação, enquanto Isco e Juan Mata ficaram de fora. Se optar por muitos deles, diminui as vagas para o centroavante, com Diego Costa, Negredo, Soldado, Llorente, Fernando Torres e David Villa – isso sem contar Fàbregas, o costumeiro falso 9, que deve ocupar um dos lugares entre os meio-campistas.

França: É bom abrir o olho com os Bleus

Astro da França, Pogba é marcado por Xavi em jogo com a seleção principal

Foram vários percalços no caminho até a Copa do Mundo. Tanto é que a França precisou de uma vitória contundente no jogo de volta da repescagem, contra a Ucrânia, para assegurar a vaga. Mesmo assim, os Bleus contam com um elenco em evolução. Se Didier Deschamps contornar a guerra de egos que sempre costuma aparecer nos vestiários, pode surpreender. A começar pela defesa confiável que tem à disposição, liderada por Hugo Lloris. Laurent Koscielny cometeu uma pixotada sem tamanho nas Eliminatórias, que quase custou a classificação. Agora, precisará provar com a camisa azul a mesma segurança que apresenta no Arsenal, concorrendo com Mamadou Sakho, Eliaquim Mangala, Raphaël Varane e Adil Rami. E ainda há a questão de Éric Abidal, que, apesar dos percalços, é uma grande liderança. A lateral direita possui duas boas alternativas com Sagna e Debuchy. Dúvida maior está na esquerda, com a queda de produção de Evra, a falta de experiência de Digne e a inconsistência de Clichy.

Ao menos, a cabeça de área da seleção francesa é uma das melhores do mundo. O time que já tinha Cabaye, Matuidi e Sissoko viu Pogba botando banca nos últimos meses e ainda têm Guilavogui como uma opção para o futuro. Operários talentosos para livrar a obrigação de Ribéry e quem o acompanhar nas pontas – Valbuena e Payet são os mais tarimbados, mas é bom ficar de olho em Grenier e Griezmann, que roubaram o espaço de Nasri e Ménez nesta convocação. E o comando do ataque, que parecia um enigma, está resolvido ao menos pelo que os jogadores vêm apresentando em seus clubes. Benzema está sobrando, engolindo a concorrência de Giroud e Rémy.

Inglaterra: Os bons são os mesmos de sempre

Rooney é o grande nome da Inglaterra e deve ter a companhia de veteranos como Gerrard e Lampard ao seu lado (AP Photo/Matt Dunham)

Roy Hodgson ainda tem um longo caminho a percorrer até a Copa do Mundo. E as dúvidas são tantas que o treinador convocou 30 jogadores para esse último amistoso antes da decisão final. Pelos menos desses, devem sair a maioria dos 23 escolhidos dos Three Lions. Joe Hart é o goleiro titular, mas seus dois reservas estão indefinidos. O miolo de zaga não conta com Phil Jagielka, mas só Gary Cahill parece mesmo ter garantido a viagem ao Brasil – tanto é que até mesmo John Terry chegou a ser cogitado. E, nas laterais, enquanto Kyle Walker e Glen Johnson são soberanos na direita, Luke Shaw tenta cavar sua vaga entre o decadente Ashley Cole e Leighton Baines.

O meio de campo possui idade elevada, mas o talento de Steven Gerrard e Frank Lampard é a coluna vertebral que todo treinador gostaria de contar. Ainda mais quando se pode ter também Jack Wilshere e Michael Carrick. A decisão mais delicada deve ser para as pontas, onde há muitos nomes à disposição, mas ninguém muito acima dos outros – Sterling, Lallana, Oxlade-Chambelain, Townsend e Henderson (que ainda é um coringa para o meio). E, diante da grande referência de Rooney, falta um parceiro que lhe acompanhe em alto nível. Sturridge está voando, mas as não é o homem de área  que Hodgson pretendia, com mais presença física. Rickie Lambert é quem ascende, mas sem criar grandes expectativas.

Itália: O meio tem craques, os lados nem têm donos

Giuseppe Rossi comemora seu gol contra a Nigéria (AP Photo/Sang Tan)

A Copa das Confederações já ajudou bastante Cesare Prandelli. A maior parte do elenco da Itália já está delineada, como o Brasil. Aliás, a situação do técnico da Azzurra se assemelha um pouco à de Felipão. Precisa escolher alguns reservas pontuais, como o terceiro goleiro e o quarto zagueiro. Apesar disso, as laterais fraquejam muito e os italianos precisam apontar quem serão suas apostas – contando inclusive com Chiellini como opção para o lado esquerdo. Já no meio-campo, sobra talento. Será mais difícil pensar quem ficará de fora, em um setor encabeçado por Pirlo, Montolivo e Marchisio. De Rossi, excluído desse amistoso por questões disciplinares, não deve ser problema para a Copa.

As interrogações se acumulam mais no ataque. Mario Balotelli é o cara na posição. Mas será acompanhado por dois ponteiros ou outro homem centralizado? Quem são as opções? Giuseppe Rossi parecia a resposta para todas as perguntas, mas se lesionou gravemente e é séria dúvida para a Copa. Lorenzo Insigne e Alessio Cerci querem provar que têm cancha para a titularidade. Já Alberto Gilardino, Pablo Osvaldo, Matti Destro e até o garoto Ciro Immobile tentam ganhar a confiança do treinador com o papel de homem de referência. E, apesar dos anseios de alguns, é quase impossível que vejamos Totti no Brasil.

Uruguai: A afinação para que os craques façam seus solos

Suárez e Cavani são os principais jogadores do Uruguai

Luis Suárez, Edinson Cavani e mais 21. Sim, há um exagero nisso. Mas representa um pouco do abismo técnico entre os dois craques de Óscar Tabárez e o restante do elenco. O time experiente da Copa de 2010 agora está velho e, muitos jogadores que deram o sangue na África do Sul, já não têm as mesmas energias para fazer isso no Brasil. Maxi Pereira, Lugano, Godín e Cáceres são intocáveis na zaga mais pela solidez que têm em conjunto do que por fase individual – com as maiores críticas sobre o capitão. E nenhum deles tem um reserva à altura, com até o veterano Andrés Scotti seguindo entre os convocáveis. No gol, Fernando Muslera continua o mediano de sempre, podendo ser atropelado nesta reta final por Martín Silva, que foi bem nos jogos da repescagem.

Já para o meio-campo, são vários volantes, com Tabárez precisando mais apontar quem comporá a base de seu time, já que ninguém vem se sobressaindo tanto nos clubes. E, com Lodeiro sendo o nome mais certo na criação, Diego Forlán terá que mostrar-se refeito no futebol japonês para não ser preterido em definitivo por Cristian Rodríguez ou Gastón Ramírez. Ah, e claro, há Cavani e Suárez. Abel Hernández e Christian Stuani são bons nomes para servir de opção no segundo tempo, mas a lesão de qualquer um dos dois já limita bastante o poderio do ataque.