Gabriela Ventura é produtora dos canais ESPN, cresceu vendo jogos do Grêmio Mauaense e sabe que o maior templo do futebol mundial é o Baetão

Rio de Janeiro, 9 de julho de 2014. O dia em que ter sido uma testemunha da maior humilhação do futebol brasileiro virou uma parte de meu passado. Pois é, eu estava entre os 58.141 torcedores que foram ao Mineirão achando que veriam o Brasil dar o penúltimo passo para a final, mas acabaram vendo ver a Alemanha pisotear a Seleção como uvas que vão virar vinho.

LEIA MAIS: Brasil após a Copa: aprender com Picasso e galinhas estranguladas

O Mineirazo (já tem até um verbete na Wikipédia) foi um evento tão marcante que uns 300 mil brasileiros dirão a seus descendentes que presenciaram. Mas eu realmente estava lá, tenho ingresso e foto. Ou seja, tenho o direito adquirido de contar insuportáveis vezes a meus filhos e netos como foi estar nesse momento histórico. E o farei mesmo, pois adquirir esse direito foi bastante custoso.

Para uma jornalista que trabalha na produção de um canal de TV que está transmitindo a Copa do Mundo, sair para ver um jogo em outra cidade necessita de um jogo de cintura maior que comemorar um gol ao lado do Armero. No meu caso, ir ao Mineirão exigiu ma série de medidas que foi quase uma goleada pessoal sobre a existência de apenas 24 horas em um dia.

A minha semifinal de Copa do Mundo começou na segunda, pouco depois das 6 da manhã. Foi quando veio uma mensagem de texto e a confirmação da compra dos ingressos para Brasil x Alemanha. Meu segundo gol veio horas depois, com o OK da chefia para não trabalhar na terça e seguir para Belo Horizonte. Equipe de produção de televisão é isso, jogo da Seleção não é feriado (pelo contrário, é dia de trabalho dobrado, horas extras, jornada dupla, plantão, pescoção e qualquer apelido que se queira dar para o serão).

Estava fácil demais, e era óbvio que alguma coisa aconteceria. Como não haver mais passagens de avião do Rio a BH. E tome 7 horas de ônibus para ver, finalmente, uma partida de Copa do Mundo no estádio.

A partir daí, tudo virou um caldeirão de sensações. Pega máscara do Neymar, joga fora máscara do Neymar (a segurança confiscou na primeira revista…), come feijão tropeiro, percebe a empolgação diferente da torcida com a confirmação de Bernard como titular (o pequeno foi mais ovacionado pelos mineiros que o capitão David Luiz).

A arquibancada começa a se agitar, e transforma a energia acumulada pela ansiedade em forma de som:

MIL GOLS, MIL GOLS, MIL GOLS, MIL GOLS, MIL GOLS, SO PELÉ, SO PELÉ….

É legal, mas é só um prelúdio para o que realmente vale. Pode dizer que é piegas, mas a energia do momento do hino tem uma força muito maior do que eu jamais poderia imaginar. Absolutamente arrebatador, um gol que coroa todo o esforço para estar ali naquele momento. E um gol que ajuda a compensar todos os outros, menos metafóricos, que viriam em campo.

Thomas Müller abre o placar, mas a reação inicial da torcida foi seguir apoiando o time. Um gol dá para reverter, tem muito tempo ainda.

BRASIL Ê Ô! BRASIIIIL Ê ÔÔÔ!

Klose dois a zero. E ainda bateu o recorde do Ronaldo! No Brasil! O nervosismo fica palpável no ar, tão palpável quanto era a esperança antes do jogo começar. Hora de recorrer ao lema da campanha do Atlético Mineiro na Libertadores 2013:

EU ACREDITO! EU ACREDITO!!

Em 3 minutos, dois gols do Toni Kroos. Já era hora de começar a vaiar? Já podemos buscar um culpado pelos 4 a 0??

BUUUUUUUUUUUU!

Bum! Gol do Khedira. Silêncio no Mineirão. Mentira, a torcida da Alemanha estava em êxtase e se faz ouvir. Claro, nem eles esperavam uma pelada tão limpa, tão fácil.

Ao meu lado, Mauricio de Sousa, gigante dos quadrinhos, meu ídolo de infância muito a frente de qualquer jogador de futebol, consolava o filho, que chorava enquanto tentava incentivar a torcida a continuar, enfim, torcendo. E não era nem intervalo ainda.

Pode jogar toalha branca? Vale ajoelhar com a bola e acabar logo com isso?

No segundo tempo, Schürrle ainda marcou mais dois. E na arquibancada, ninguém mais olhava para o gramado. Não dava. O público ficou tão apático quanto aqueles caras de amarelo em campo. Não dava nem pra lamentar a ausência de Thiago Silva e Neymar.

EI, FRED, VAI TOMAR…

Claro, se não dá pra apoiar o time, se não adianta vaiar o adversário, a torcida xinga. E se o time não tem um vilão, o negócio é atacar o governo:

EI, DILMA, VAI TOMAR…

Os brasileiros que antes tentavam incentivar o time agora se dividiam em dois tipos: os que choravam copiosamente e os que passaram a ignorar o que acontecia em campo, saindo pra beber mais uma ou passando o tempo com o celular.

Era hora de ir embora. Sete a zero era demais, e a mistura de frustração com excesso de cerveja estava resultando em pequenas brigas pelos corredores. E meu lugar era perto demais da torcida alemã para ficar lá, esperando a confusão acontecer.

Na escadaria da saída, ouve-se a tímida comemoração pelo gol do Oscar. O gol de honra. Honra?

A discussão agora é o que foi pior: 1950 ou 2014. Barbosa e Flavio Costa podem descansar tranquilos. A Copa de 2014 entrara para a história como a que o Brasil foi humilhado e sequer chegou ao Rio de Janeiro.

Mas eu ia. Quem trabalha com esporte não tem tempo para sentir a ressaca do torcedor. Era momento de voltar para a rodoviária, pegar o ônibus para o Rio e voltar a curtir a Copa no trabalho.