As obras de mobilidade urbana, ampliação de aeroportos e outras melhorias de infraestrutura nas 12 cidades que receberiam a Copa do Mundo de 2014 foram o principal argumento para convencer os céticos de que organizar o torneio valeria a pena. O dinheiro gasto seria um investimento para melhorar a qualidade de vida da população. Mas ao longo dos sete anos de preparação, muitas obras atrasaram, algumas foram descartadas e, de concreto, houve poucas melhorias.

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De acordo com um levantamento da Folha de S. Paulo, apenas 53% dos 167 compromissos dos governos ficaram prontos, um pouco mais da metade. Esse estudo inclui os estádios, todos concluídos a tempo. O mesmo relatório mostra que 45 projetos ficaram incompletos, 23 têm inauguração prevista para depois do torneio e 11 foram abandonados. Enquanto avaliamos se vamos acreditar que as obras previstas vão realmente ficar prontas, agora que não há mais a pressão da Copa do Mundo para agilizar as coisas, conversamos com pessoas em quase todas as cidades-sede para descobrir: qual infraestrutura o torneio deixou para o futuro?

São Paulo

Naturalmente, as cidades mais com economias mais desenvolvidas do país precisavam de menos retoques para receber a Copa do Mundo, mas isso não significa que não tenham problemas que poderiam ser resolvidos se a ocasião fosse bem aproveitada. São Paulo recebeu obras pontuais. O Aeroporto de Guarulhos teve algumas pistas revitalizadas e ganhou um terceiro terminal, cuja capacidade plena será atingida pouco a pouco. A ideia é ter 80% dos voos internacionais nele até setembro. Foi construído um estádio em Itaquera, e a ideia é rodeá-lo com outras novidades, como a Fatec e a Etec que já estão por lá. O prefeito Fernando Haddad prometeu levantar também escolas do Sesi, do Senai, museus e centros culturais. Disse que o legado da Zona Leste “ainda não está claro para a população” porque a segunda etapa do projeto começa depois da Copa do Mundo. Ou seja, nesta segunda-feira.

Rio de Janeiro

As duas principais obras prometidas pelo governo ficaram prontas, meio em cima da hora e meio às coxas. Mas ao menos saíram do papel. No começo de junho, a presidenta Dilma Rousseff inaugurou as obras de ampliação do terminal 2 do Aeroporto Antonio Carlos Jobim, no Galeão. A previsão era a reforma ficar pronta depois da Copa, segundo o ministro da Aviação Civil, Moreira Franco. A outra grande novidade foi o BRT, ligando o Galeão à Barra da Tijuca, que estreou com cerca de metade das estações previstas funcionando.

Belo Horizonte

Belo Horizonte ainda tem algumas obras atrasadas, mas ao menos já conseguiu melhorar as rodovias LMG 800 e MG 424, que dão acesso ao Aeroporto de Confins, que chegou às vésperas da estreia da capital mineira na Copa do Mundo ainda com algumas obras em andamento. O BRT, um sistema de ônibus articulado, funciona parcialmente desde fevereiro e deve ser o principal legado do torneio para a população. Houve também a construção do Boulevard Arrudas para aliviar o trânsito na região da Via Expressa e um aumento no leito de hotéis. O lado negativo (bastante negativo, diga-se), foi a ponte que caiu dias antes de o Brasil enfrentar a Alemanha nas semifinais. Duas pessoas morreram.

Fortaleza

Pouca coisa saiu do papel em Fortaleza. Além da reforma no Castelão, as duas avenidas que dão acesso a ele foram reformadas: a Alberto Craveiro e a Paulino Rocha. As reformas previstas na importante avenida Beira-Mar e na Rui Barbosa estão atrasadas. O contrato com o consórcio responsável pelo Veículo Leve sob Trilhos (TLC) foi cancelado por incompetência da empresa responsável e uma nova licitação foi aberta, há cerca de dois meses. A obra, que seria utilizada para a Copa do Mundo, está, portanto, bastante atrasada.

Brasília

Brasília teve o Estádio Mané Garrincha, o mais caro da Copa do Mundo, que pode atrair um ou outro jogo grande para a capital federal, mas dificilmente vai conseguir se sustentar com o futebol local e afastar a imagem de elefante-branco. Houve uma intervenção no caminho que leva ao aeroporto Juscelino Kubitschek que melhorou o trânsito e um corredor de BRT ligando Santa Maria e Gama ao Plano Piloto, centro da cidade. A principal esperança dos candangos, porém, era ganhar um monotrilho que ligaria o aeroporto ao Plano Piloto, projeto que constava na matriz de responsabilidade inicial. Foram descobertas fraudes milionárias na licitação e infelizmente não deu.

Salvador
Dilma Rousseff e Jaques Wagner durante a inauguração do metrô de Salvador (Divulgação)

Dilma Rousseff e Jaques Wagner durante a inauguração do metrô de Salvador (Divulgação)

Salvador teve algumas melhorias. O Aeroporto Luis Eduardo Magalhães recebeu esteiras de check-in novas e uma boa reforma estrutural, que incluiu uma torre de controle. Mas o principal problema dele, a escassez de esteiras de bagagem, não foi resolvido. O porto está prestes a inaugurar e vai ter muito mais estrutura para receber cruzeiros, o que é muito importante por conta do turismo. E o metrô, após quase 15 anos de construção, enfim ficou pronto, mas com apenas algumas estações e em fase experimental. Até o fim do ano, deve ser aberto plenamente e com mais uma estação.

Porto Alegre

As obras que melhoram o acesso ao Beira-Rio ficaram prontas antes mesmo da Copa do Mundo. A avenida e o corredor de ônibus na Padre Cacique foram alargados, a Avenida Edvaldo Pereira Paiva, entre o estádio e o Rio Guaíba, ampliada, e o viaduto Pinheiro Borda foi entregue. As outras intervenções urbanas continuarão sendo tocadas com prazo para o final de 2014 e começo de 2015, como a implantação de BRTs e a construção de viadutos na avenida Bento Gonçalves e na região da rodoviária de Porto Alegre.

Recife

As principais obras pernambucanas foram realizadas nas cercanias da Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, a 30 quilômetros do Recife. Portanto, a capital, em si, não melhorou tanto quanto poderia. A Via Mangue, que liga as zonas norte e sul da cidade e deveria aliviar o trânsito, demorou oito anos para ser concluída e a construção já estava em andamento quando foi colocada dentro do plano de mobilidade da Copa do Mundo. Custou mais de R$ 400 milhões e no dia da inauguração já estava engarrafada. Apenas três estações de BRT funcionaram durante o Mundial e as obras complicam ainda mais a vida dos carros.

Trabalharam bastante para criar acessos ao estádio. A Estação de Metrô Cosme e Damião – outra obra que não era planejada para a Copa, mas foi colocada no bolo pelo governo – fica a dois quilômetros do estádio e ganhou um terminal de ônibus. A BR 408, a que passa à frente da Arena, foi duplicada e asfaltada, mas não é uma das rodovias mais utilizadas do estado. Outras, como a 232 e a 101, por exemplo, recebem mais carros e estão em condições muito piores.

O que mais se fala sobre o legado da Copa do Mundo no Recife é a construção da Cidade da Copa, um empreendimento imobiliário, com as construções previstas de shoppings centers e prédios, para levar desenvolvimento à região da Arena Pernambuco. Mas também muita gente duvida que esse projeto vai sair do papel.

Manaus

O governador do Amazonas disse no dia da abertura da Copa do Mundo o que considera ser os dois principais legados de Manaus: um centro de convenções e o investimento na segurança pública, o que inclui um Centro Integrado de Comando e Controle Regional, base dos serviços da polícia. Logo, a qualidade de vida da população melhorou muito pouco. Um monotrilho deveria ser construído, de acordo com a matriz de responsabilidade, mas foi abandonado. O BRS (Bus Rapid System) foi inaugurado com metade das plataformas previstas. E a requalificação das ruas, que também foi prometida, chegou apenas à Arena Amazônia e aos pontos turísticos. Apenas por onde os turistas passearam.

Natal

O estádio Frasqueirão foi reformado para servir como centro de treinamentos para as seleções, assim como o campo da Universidade Federal. As principais obras, naturalmente, foram de mobilidade urbana, principalmente as avenidas Salgado Filho e Prudente de Morais, nas cercanias da Arena das Dunas. Quatro túneis e um viaduto foram entregues antes do início da Copa do Mundo, mas a construção de duas passarelas, o viaduto da Salgado Filho e os túneis na Raimundo Chaves e Capitão-Mor Gouveia foram intensificadas apenas depois do fim do torneio em Natal. A Copa e as chuvas reduziram o ritmo de trabalho.

Curitiba

Um levantamento do Tribunal de Contas do Estado, segundo o Portal UOL, apontou que seis das 14 obras de infraestrutura planejadas para a Copa do Mundo não foram concluídas. A Avenida das Torres, principal ligação entre o Aeroporto São José dos Pinhais e Curitiba, foi recapeado e está com a pista muito melhor. O local de entrada e saída de aviões da cidade também começou a ser reformado, mas ainda está em obra. A Rodoviária foi completamente transformada e houve um aumento de policiamento durante a Copa do Mundo, que fez a população se sentir mais segura.

Cuiabá

Além da Arena Pantanal, um dos estádios cuja ocupação mais preocupa para depois da Copa do Mundo, Cuiabá recebeu novos terminais no Aeroporto Marechal Rondon, inaugurados em fase de testes. O Veículo Leve sob Trilhos (VLT) recebeu um investimento de R$ 1,4 bilhão do Estado e apenas 300 metros dos 22 quilômetros de trilhos previstos estavam prontos na semana da abertura do torneio. Apenas 51% das 56 obras de infraestrutura prometidas ficaram prontas a tempo, e o governo promete que todas terminarão até 31 de dezembro deste ano. Até lá, o legado de Cuiabá é um canteiro de obras em cada esquina.

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