Seis clubes, seis eliminações. A última vez que o Brasil não colocou um time nas semifinais da Libertadores foi em 1991. Outros tempos da competição, quando cada país tinha apenas dois representantes e eles ainda se digladiavam no mesmo grupo. Desta vez, porém, essa desculpa não existe. Os clubes brasileiros eram maiores em quantidade, muito maiores em dinheiro. Nenhum deles foi capaz de se impor apenas por isso.

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Logo após a eliminação do Cruzeiro, surgiram os anjos do apocalipse, proclamando a falência do futebol brasileiro. Também não é assim, ainda que o fracasso nesta edição da copa ensine bastante. O que dá para tirar de tudo o que aconteceu? É só tentar perceber o que é cornetagem exagerada e o que, de fato, faz sentido em meio a tantas opiniões.

“O futebol brasileiro está em crise!”

Cornetagem demais, né? Não é a eliminação do Cruzeiro que determina isso, da mesma forma como a classificação (ou o possível título) decretaria o auge do futebol brasileiro. A hegemonia nos últimos anos está clara. Eram seis títulos em nove edições, com pelo menos um time do país na decisão desde 2004. O poderio econômico dos brasileiros garantia essa hegemonia. Entretanto, a edição deste ano deixa claro que não é só isso o necessário. E os seguidos milagres do Atlético Mineiro em 2013 até adiaram um pouco essa percepção.

“Os brasileiros não sabem jogar a Libertadores”

Não tem só cornetagem aí não. É lógico que não é algo tão a ferro e fogo assim. Mas os clubes brasileiros já notaram (ou pelo menos deveriam ter notado) que as folhas de pagamento (no mínimo) dez vezes maiores que a de seus rivais não são suficientes para garantir o título eternamente. Em nenhum outro campeonato do mundo jogar com os fatores extracampo faz tanta a diferença, como a altitude ou a pressão da torcida. Algo que nem sempre os brasileiros dominam. Também é um torneio no qual se precisa saber muito bem o que fazer. Retrancar, jogar nos contra-ataques, partir para o abafa, aproveitar as bolas paradas. Nem todos tinham esses planos de jogo bem definidos, o que atrapalhou demais.

Ronaldinho, do Atlético Mineiro (Foto: AP)

“Falta vontade aos brasileiros na Libertadores”

Cornetagem deslavada. Não dá para questionar o suor que Flamengo, Grêmio, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Atlético Paranaense deixaram em campo nos seus jogos de eliminação – a noite apática do Botafogo contra o San Lorenzo é a exceção. A soberba, sim, tem sido um fator negativo e prejudicou muitos nesta edição da Libertadores. Quando perceberam o prejuízo, a hora de botar o pé na dividida e se concentrar, era tarde demais. Nem sempre estavam centrados em seus objetivos.

“O futebol brasileiro passa por uma baixa técnica”

Não é bem assim, a cornetagem é um pouco exagerada. Não dá para dizer que os jogadores dos times brasileiros são inferiores aos de outras equipes da América do Sul. Há, claro, vários talentos espalhados pelo continente, mas não é tão simples assim. O problema pareça ser maior na parte tática e na organização. Individualmente, o San Lorenzo não é tão melhor do que Grêmio ou Cruzeiro. Então, o que fez a diferença? A obediência tática da equipe de Edgardo Bauza foi notável nas quatro partidas. Já o Atlético Nacional, por exemplo, foi muito mais organizado diante do pandemônio que tomou conta do Atlético Mineiro – e a pressão sobre os brasileiros, com crises estourando facilmente, quase sempre pesa.

Barcos, do Grêmio, e Villalba disputam uma bola pelo alto no empate entre Newell's Old Boys e Grêmio (AP Photo/Eduardo Di Baia)

“O futebol brasileiro não sabe explorar o talento sul-americano”

Eis algo que está longe de ser pura cornetagem. Por mais que a abertura para os estrangeiros tenha aumentado, a deficiência em perceber os jogadores talentosos na vizinhança ainda é grande, perdendo-os com frequência para a Europa e até para o México. Falta até mesmo saber separar bondes dos bons, com os clubes gastando mais do que deveriam – algo que se aplica também aos jogadores brasileiros. E é notável a diferença que alguns desses sudacas pinçados com critério têm feito nos times do Brasileirão, como Conca e Aranguiz bem exemplificam. Só não dá para esperar o cara se tornar o melhor de seu país e se valorizar demais para tentar trazê-lo, pagando fortuna. A observação constante, com um departamento apenas para isso nos clubes, é fundamental.

“A Libertadores de 2014 é um vexame para o Brasil”

Cornetagem com altas doses de verdade. Pelo nariz empinado dos clubes brasileiros no início da competição, é um vexame enorme. Mas também é útil. Para notar as carências do futebol daqui. Ver que também dá para ser campeão com organização e baixos gastos – todos os sobreviventes do torneio, exceção feita ao Atlético Nacional, são exemplos disso em suas realidades locais. Principalmente, não ignorar as qualidades do futebol do resto do continente. O Brasil tem muito mais dinheiro, mas não é só isso que faz com que os outros não tenham inteligência e talento.

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