Por Nathalia Ferrari*

Eu não sou muito boa em datas exatas, só sei que vivi. Era o ano de 1993, morávamos num pequeno apartamento  na Avenida Paes de Barros, situado no número 1340. Meu pai colocou a camisa do seu time naquela tarde e equilibrava o radinho entre o ombro e a orelha direita. O volume alto ecoava a voz de Osmar Santos. Eu ainda era filha única, meu irmão só nasceria no dezembro do ano seguinte, portanto, tive atenção do meu pai só para mim naqueles finais de semana. Neste mesmo apartamento, o 132, eu vi meu primeiro Palmeiras e Corinthians.

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Eu tinha quase três anos, os completaria em setembro. Minha mãe diz que não se lembra da minha primeira palavra, porque eu sempre falei até pelos cotovelos. Agora, se eu disser que me lembro do jogo com exatidão, estaria mentindo. Sei que vi o verde listrado vencer por 4 a 0. E sei que ali, meu coração se encheu de alegria. O uniforme era bonito, alegre. A criança ria, comemorava, tinha encontrado o escudo que ficaria do lado esquerdo do peito para o resto da vida. O pai, fechou a cara e tirou sua camisa alvinegra. “Pai, eu sou palmeirense!”

Naquela semana, tive febre. Não era garganta, não era virose, nem uma destas doenças de criança. Era vontade. Eu pedia uma camisa do Edmundo, a ‘7’. Meu pai, contrariado, mas a mando da minha mãe, resolveu acabar com os sintomas e me levou a uma loja para comprar o manto. “Fala o que você quer, porque eu não tenho coragem”. “A 7, moço, listrada! Do Animal!”

Meu sobrenome é Ferrari, mas nem o Don Ferruccio era parmerista. Também corintiano, tivemos muitas discussões, mas no final das contas, ele sempre quis me agradar e me acompanhou ao estádio várias vezes. Na parte dos Alves, minha avó conta que a bisa – palestrina, italiana braba – travava brigas dignas de filme com o marido, sempre que tinha Palmeiras e Corinthians. Ou seja, estava no sangue, não tenho culpa se ninguém havia herdado!

Eu amei o Palmeiras sem ninguém precisar me ensinar. E só o conheci pessoalmente 10 anos depois. Minha primeira ida ao saudoso Palestra Itália aconteceu em 2003. Subi as escadas da cadeira descoberta – que mais parecia um banquinho de praça – e vi o campo verde-esmeraldino, lindo como o escudo do clube. Senti um arrepio e uma emoção tão forte, que não pude segurar as lágrimas. O hino ecoava nas alamedas e me dava certeza de que este era o meu lugar, aonde eu pertencia. Aprendi os cantos, me senti instantaneamente integrada àquela grande famiglia. Fui sócia do clube por uns dois anos e só cancelei meu título porque era difícil sair da Mooca e ir até lá. Mesmo que o velho Palestra tenha dado espaço à novas paredes, minhas memórias ainda estão por lá. Eu e o Palestra vamos nos conhecer de novo, numa mesma vida. Só não demore, pois a saudade está me consumindo!

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E como comemorei a Libertadores de 99! Nesta época, já morava na Rua Ilansa e acompanhei os fogos da minha varanda. Passei aquela noite de pé, só olhando a festa no bairro. Pouco tempo depois, passei a frequentar com mais afinco a turma do amendoim – cadeira coberta – e as tribunas de imprensa no período em que exerci o jornalismo esportivo. Fiori Gigliotti, meu saudoso e querido padrinho de rádio, me ensinou muito naquele 4º andar. Carreguei sua maleta diversas vezes, parei para conversar na lanchonete do clube, cumprimentei César Maluco, entrevistei o Divino Ademir da Guia num jantar dos veteranos… Tive uma curta carreira no meio, mas fui muito feliz nestes pequenos detalhes.

Ainda me lembro de ter chorado muito pela derrota para o Boca Juniors em 2000. Mas lembro também de ter gritado “Maaarcos” – mais de 30 vezes ao dia – depois do Santo da Nostra Casa pegar os pênaltis de Vampeta e Marcelinho Carioca. Chorei de novo em 2002 e em 2012, me senti anestesiada pela dor já conhecida. Vivo numa relação eterna de amor e ódio por Felipão e depois de Paulo Nunes ter saído para o rival, só o Kleber foi capaz de me causar um sentimento tão amargo de decepção. Mas quem liga? Vi Cafu, Roberto Carlos, Evair, César Sampaio, Rivaldo, Alex, Arce, Galeano, Zinho, Júnior, Edmundo duas vezes, Valdivia no seu auge em 2008…

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São 100 anos de Palestra Itália, o nostro Palmeiras. Resido agora na Chamantá, nunca saí da Mooca. Já já, eu completo 24 anos de idade. Somos regidos pelo mesmo signo astrológico. Temos altos e baixos. Problemas de autoestima, um psicológico que precisa de atenção. Mas a esmeralda nunca perde seu brilho. O verde que representa uma montanha-russa de emoções, superações, lágrimas de alegria e tristeza. Somos milhões, contra todo mundo. Somos bigode, somos santos, somos animais na ambição de querer vencer sempre. 26 de agosto de 2014. Obrigada, Palmeiras. A minha vida teria sido monótona demais se eu não te amasse tanto. Por nosso alviverde inteiro. Avanti, Palestra mio! Cent’anni!

Nathalia Ferrari

*Nathalia Ferrari foi comentarista mirim do Kajuru, agora é jornalista diplomada, loira por opção, parmerista da Mooca (desde sempre), viciada em cultura pop e criadora do popchiclete.com

Foto no alto: Gabriel Uchida, do Foto Torcida

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