Cerca de 15 mil pessoas lotaram a Vila Belmiro para prestigiar o futebol feminino nacional na última quinta. O recorde de público do estádio no ano foi superado em jogo válido pela finalíssima do Campeonato Brasileiro da modalidade, entre Santos e Corinthians. Dias antes, mais de 25 mil espectadores encheram a Arena da Amazônia na semifinal entre Iranduba e o time santista, estabelecendo o maior público da história do futebol jogado por mulheres do país. Bom, mas o que isso tem a ver com a Eurocopa Feminina?

A resposta é nada. A não ser pelo fato de Suzane, meio-campista das Sereias da Vila, ter sido convocada para disputá-la com a seleção de Portugal, e, por isso, ela desfalcou o Peixe na segunda partida contra o Hulk e agora na decisão. A relação entre os excelentes públicos no Brasileirão e o Campeonato Europeu femininos tem a ver comigo e com você que está lendo este texto. A Euro da modalidade está prestes a começar e terá transmissão aqui no Brasil, a cargo do SporTV. E eu justifico por que é importante nós, apaixonados por futebol, darmos uma atenção especial à competição acompanhando os jogos que serão transmitidos.

Com o sucesso de público recente no futebol feminino doméstico, mais do que nunca o Brasil passa por um ótimo momento relacionado à visibilidade para as mulheres que praticam o esporte. Então por que não aproveitarmos o embalo e permitirmos que a modalidade como um todo comece a ganhar mais força internamente? Na Eurocopa do ano passado, a masculina, ficou atestado que o brasileiro tem muito interesse em acompanhar o futebol europeu de seleções. Para se ter uma ideia, o confronto que decidiu se a taça ficaria na França ou seria levada para casa por Portugal registrou 28 pontos no Ibope em São Paulo, dez a mais do que rendeu o jogo do Corinthians exibido no dia anterior.

A Euro feminina é um dos campeonatos mais importantes entre equipes nacionais e uma espécie de prévia das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Ainda que o período europeu de classificação para o Mundial tenha começado de fato em abril, é em setembro que o bicho pega, com as principais seleções entrando na disputa por vagas no Mundial. Então, a Eurocopa é também um torneio de aquecimento para os times mais fortes do continente. Os 16 mais.

Desta vez, o número de participantes é maior do que na edição passada (até 2013 eram 12) e estas equipes estão fracionadas em quatro grupos. Bélgica, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Itália, Suécia, Rússia, Áustria, França, Islândia, Suíça, Inglaterra, Espanha, Portugal e Escócia estão na Holanda e se juntam à seleção da casa nesta Eurocopa. O pontapé inicial está marcado para este domingo e a final, reservada para o próximo dia 6. As cidades que sediarão o torneio são Breda, Roterdã, Utrecht, Deventer, Doetinchem, Tilburgo e Enschede.

euro feminina

Dá para esperar não somente um, mas dois jogões logo de cara, na primeira rodada do torneio. Ambos com transmissão confirmada pelo SporTV. Primeiro, na segunda-feira, a Alemanha e a Suécia se esbarram pela primeira vez desde a decisão pelo ouro olímpico, às 15h45, horário de Brasília. As suecas vêm de três vitórias, um empate e três derrotas nos amistosos disputados este ano e de um sétimo lugar na Copa Algarve – entre 12 seleções. O revés das escandinavas na final do futebol feminino nas Olimpíadas de 2016 será o mote do encontro entre os times, junto com as finais perdidas em 1995 e 2001 para as alemãs, que sustentam essa rivalidade.

A Alemanha, por sua vez, é a maior campeã da Eurocopa, em função da hegemonia que construiu ao longo das últimas seis edições. A fase atual também é bastante favorável, com as germânicas tendo somado duas vitórias em dois amistosos que disputaram (elas, aliás, foram responsáveis pela primeira derrota de Emily Lima no comando da seleção brasileira). Já na Copa SheBelieves, na qual foram vice-campeãs, acumularam uma vitória, um empate e uma derrota. O time agora treinado por Steffi Jones, ex-assistente técnica e sucessora de Silvia Neid, técnica por 11 anos do Nationalelf, entra na Euro como um dos favoritos – pelos precedentes no torneio, pela tradição e pelo momento.

O segundo duelo que promete reservar um jogo bem agradável é entre as duas seleções ibéricas. Espanha e Portugal se encaram às 13 horas da próxima quarta. Paralelamente ao crescimento da Liga Iberdrola, o campeonato espanhol de futebol feminino, a equipe nacional vem se desenvolvendo e é um time para ficar de olho nesta Eurocopa. As espanholas só chegaram à semifinal do torneio uma única vez, em 1997, e sem êxito. Este ano, elas se sagraram campeãs da Copa Algarve e viram as portuguesas somarem apenas um ponto na fase de grupos, o que as deixou em último lugar na competição da qual são anfitriãs anualmente.

É por conta desse mau retrospecto recente e por não ter história para contar nas edições passadas que Portugal entra na Eurocopa desacreditadas. No entanto, a promessa é de bom jogo ante a Espanha pela rivalidade histórica entre os países no futebol de seleções. E, a julgar pelos amistosos que fizeram este ano, as espanholas detêm o favoritismo nesse duelo.

Outras seleções que merecem menção são a Noruega, a Holanda, a Inglaterra, a Dinamarca e a França. As norueguesas vão em busca do seu primeiro título de Eurocopa, depois de serem vice-campeãs quatro vezes – em 1989, 1991, 2005 e em 2013. Nas últimas seis Euros, elas chegaram pelo menos às semifinais cinco vezes, fato que revela a força do talentoso time que estará abastecido ofensivamente com duas vencedoras: Caroline Graham Hansen, campeã duas vezes em 2016/17 com o Wolfsburg, e Ada Hegerberg, estrela do Lyon campeão europeu nas duas últimas temporadas.

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Já a ênfase à Holanda se dá mais por ser anfitriã e ter este fator como aliado, principalmente porque já não restam mais ingressos para assistir a algumas de suas partidas. As anfitriãs, que agora estarão devidamente representadas em seus novos uniformes, disputarão a Eurocopa pela terceira vez e têm a atacante Viviane Miedema, do Arsenal, como destaque. Ela é uma das quatro jogadoras holandesas convocadas que atuam na Premier League feminina.

Por falar no campeonato inglês, em alta, as Lionesses (como são chamadas as jogadoras da Inglaterra) têm um caminho que pode ser árduo pela frente. Apesar de terem ficado com o terceiro lugar na última Copa do Mundo, elas dividem chave com Espanha, Portugal e Escócia. Tudo indica que elas brigarão com as espanholas pelo primeiro lugar do Grupo D, mas é bom tomar cuidado com as outras duas seleções. A Inglaterra decidiu a Euro duas vezes e foi vice em ambas, levando uma goleada da Alemanha por 6 a 2 em 2009 e perdendo nos pênaltis para a Suécia em 1984. Olho também na Dinamarca, que já disputou as semifinais do Campeonato Europeu em cinco oportunidades.

Por último, a França é uma menção óbvia. Desde o início da era Champions League, o país só não esteve representado na finalíssima uma vez, em oito edições. A última final foi entre Lyon e PSG, o que mostra o nível e o que o futebol local tem conquistado na modalidade ultimamente. Na Euro, porém, a história é outra, e o sucesso passa longe das francesas. A França não aparece entre as quatro melhores seleções desde a primeira edição da competição, em 1969. O problema é que naquela ocasião, o torneio era disputado entre quatro equipes apenas. E as francesas acabaram ficando no último lugar. Este ano, elas tentam levar sua relevância na modalidade a outro âmbito: ao futebol de seleções.

As chaves da Eurocopa Feminina:

Grupo A: Holanda (anfitriã), Noruega, Dinamarca e Bélgica (estreante)
Grupo B: Alemanha (última campeã), Suécia, Itália e Rússia
Grupo C: França, Suíça (estreante), Islândia e Áustria (estreante)
Grupo D: Inglaterra, Espanha, Escócia (estreante) e Portugal