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O que a France Football realmente fala sobre o Brasil

A internet é uma ótima ferramenta para quem quer se informar. No entanto, impressiona também a facilidade que a rede tem para propagar inverdades. Um caso notável disso vem sendo espalhado pelo Facebook nas últimas semanas. A página ‘Isso é Brasil’ publicou um post que virou hit, com mais de 80 mil compartilhamentos: ‘Revista Francesa resume o Brasil em todos os sentidos’. O texto cita a reportagem de capa da revista France Football de 28 de janeiro, ‘Brésil, peur sur le Mondial’ – ‘Brasil, medo sobre o Mundial’, em tradução livre. Mas o post do Facebook passa muito longe do conteúdo publicado pelos franceses.

Não, a France Football não diz que “o que menos se vê na preparação da Copa é Ordem ou Progresso”, nem compara o número de vencedores do Prêmio Nobel do país com o dos vizinhos sul-americanos e muito menos tem a foto de garotas do BBB de topless. A matéria assinada por Éric Champel, Éric Frosio e François Verdenet faz, sim, uma análise crítica e profunda da situação do Brasil às vésperas da Copa do Mundo. Mas se prende nisso. Chega até mesmo relacionar a insatisfação pelos investimentos na Copa, em detrimento de outros setores de necessidades básicas, como o principal motivador dos protestos na Copa das Confederações de 2013. Contudo, passa longe da maioria das críticas do texto do Facebook, em especial da abertura e da conclusão.

Pode até ser que algumas ‘informações extras’ publicadas no post sejam corretas. Porém, não dá para confiar, já que há vários erros crassos facilmente notados. E também nem dá para colocá-los como responsabilidade da France Football. Nas próximas linhas, comparamos o conteúdo do post e da reportagem, tópico por tópico. E também apresentamos muitas informações relevantes apresentadas pela revista francesa, que tornariam realmente rico o conteúdo compartilhado nas redes sociais.

Confrontos

O que o texto do Facebook fala
Pela primeira vez o Brasil teve um movimento de manifestação, reprimido pelo governo; há os Black Blocks ameaçando revidar a violência do governo; os brasileiros pedem para os estrangeiros não virem ao Brasil; o governo gastou € 400 milhões em compras de armas e está disposto a colocar o exército na rua contra o próprio povo; há o Bom Senso FC; o Brasil matou mais do que qualquer outro país-sede dentro dos estádios nos 16 anos anteriores à Copa – 234 vítimas, no total.

O que o texto da France Football fala
De fato, a revista fala sobre as manifestações e também sobre a violência nos episódios, mas sem juízo de valor. Ao invés dos Black Blocks, os franceses apresentam a Mídia Ninja. A matéria também aponta para o investimento do governo em segurança, € 266 milhões de uma maneira geral, e € 16,7 milhões em armas não letais, mas sem aludir em momento algum ao uso do exército. Inclui o Bom Senso FC entre os movimentos reivindicatórios surgidos no Brasil durante os últimos meses. E realmente soma 234 vítimas do futebol no Brasil, mas em conflitos gerais relacionados ao esporte, como as brigas de torcidas, não apenas dentro dos estádios, e ocorridos nos últimos 26 anos – sem mencionar nenhuma vez mortes em outros países.

Detalhe do local do acidente no Itaquerão (AP Photo/Nelson Antoine)

Obras

O que o texto do Facebook fala
O Brasil foi o país que teve mais tempo na história de todos os mundiais para prepará-lo, mas é também o mais atrasado; Jérôme Valcke criticou o Brasil; França e África do Sul foram mais rápidos nas obras; ainda falta 15% das obras para serem construídas; os preços dos estádios no Brasil são exorbitantes; tudo é financiado com recursos públicos; os trabalhadores recebem salário de fome; as empreiteiras ganham muito e há corrupção para os políticos; não há segurança nas obras; os estádios são ruins; o Engenhão não durou seis anos e custou mais do que o Vélodrome; na França, os estádios são multiuso, o que não acontece no Brasil; em São Paulo, preferiram construir um estádio sem metrô por perto ao invés de reformar os existentes; Lula se empenhou para que o Itaquerão fosse construído; Lula tem relações próximas com a Odebrecht; e Itaquerão é ruim.

O que a France Football fala
É um dos pontos mais criticados pela revista. E mais deturpados pelo post do Facebook. A reportagem fala que o Brasil teve mais tempo para preparar a Copa e é o mais atrasado, mas apenas durante a gestão de Blatter. E também relata as críticas de Jêróme Valcke. Embora os franceses apontem os atrasos nas obras e o uso de dinheiro público, não são específicos sobre a porcentagem de conclusão e nem comparam seus preços com os de outros estádios – como o citado Vélodrome que, na verdade, foi construído em 1937 e só reformado desde então. Muito menos fazem juízo de valor sobre a qualidade das arenas brasileiras ou dizem que não serão multiuso. Sobre o Itaquerão, a matéria realmente envolve Lula e cita o desprezo pelo Morumbi, que custaria duas vezes menos. E, mesmo chamando o estádio de Lulão, não insinua corrupção do ex-presidente.

Em compensação, há vários trechos incisivos da France Football que o texto do Facebook ignora. No próprio parágrafo sobre o Itaquerão, a revista critica a legislação brasileira, que dá brechas a grandes construtoras tirarem vantagem de arranjos governamentais – “como elas também são as principais financiadoras dos partidos políticos e de suas campanhas, quase todo mundo encontra sua conta. Exceto o contribuinte”. Logo na abertura do texto, há a analogia entre os € 11 bilhões gastos com os estádios e os € 12,8 milhões investidos pelo governo em 2013 na educação. Também relacionam a pressa para a conclusão das obras com as mortes de quatro operários ocorridas em Brasília, Manaus e São Paulo. E há um erro pontual, ao dizer que Curitiba corre o risco de contar com um elefante branco, ao lado de Manaus e Brasília – uma confusão provavelmente feita com Cuiabá.

Transportes

O que o texto do Facebook fala
O trem-bala prometido por Dilma Rousseff ligando quatro cidades não foi construído porque o dinheiro desapareceu, após um orçamento exorbitante; nenhuma cidade-sede tem metrô até o aeroporto; os taxis são caríssimos e os taxistas enganam turistas; as prostitutas aprendem inglês em um programa público, não contemplado a outros profissionais; metrôs e ônibus são precários; ônibus são incendiados em protestos; o aeroporto de São Paulo tem capacidade inferior ao de Orly, interior da França (que, na verdade, fica na região metropolitana e é um dos principais aeroportos do país); os preços das passagens dispararam; alugar carros é caríssimo; o trânsito é uma selvageria; as estradas estão caindo aos pedaços; a gasolina é uma das mais caras do mundo; não existe transporte fluvial e nem por trens.

O que a France Football fala
A revista realmente cita a questão do TGV, mas apenas que não saiu do papel e que ligaria São Paulo e Rio de Janeiro (e não Belo Horizonte e Brasília, como o texto do Facebook erroneamente aponta). Assim como o aumento abusivo das passagens de avião é abordado, mas não com os números apresentados no Facebook. A matéria também evidencia a inquietação de Valcke com o atraso nas obras de infraestrutura. Afirma que o VLT de Brasília teve suas obras suspensas por corrupção. E que a maioria dos aeroportos tem problemas em suas reformas – Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Cuiabá e Rio de Janeiro. Não há qualquer citação sobre um programa do governo de ensino de língua estrangeira para prostitutas, que, aliás, não existe.

Saúde

O que o texto do Facebook fala
Reze para não ter problemas de saúde enquanto estiver ali; vacina contra febre amarela é recomendada; use repelentes; faça seguro de saúde privado; hospitais públicos são péssimos; número de leitos caiu; o Brasil precisa importar médicos de Cuba; o investimento em saúde é três vezes menor do que em funcionalismo público; Brasil é o 72º na OMS; e cita frases de Zidane e Ronaldo – o primeiro dizendo que o Brasil deveria se preocupar com a saúde e o segundo, que a Copa não se faz com hospitais.

O que a France Football fala
Nada.

Hospedagem

O que o texto do Facebook fala
O Brasil tem péssimos números em turismo; os preços dos hotéis são abusivos em São Paulo; os brasileiros não tem o hábito de intercambiar casas; e o Brasil lucrou muito com as mudanças constantes no sistema de tomadas.

O que a France Football fala
Nada.

Telecomunicações

O que o texto do Facebook fala
O minuto de celular no Brasil é o mais caro do mundo; o sinal é péssimo; o 4G não existe; e a internet é ruim, com investimentos menores que os do Iraque.

O que a France Football fala
Nada.

Protestos durante a Copa das Confederações

Segurança

O que o texto do Facebook fala
O Brasil tem mais assassinatos que vários países em guerra e regiões do mundo bem mais populosas; que todo brasileiro conhece alguém que foi assassinado; que 1% dos casos resultam em prisão; que as cadeias não recuperam os encarcerados; os sequestros relâmpago são frequentes; não se pode andar com objetos de valor pelas ruas; não é recomendável andar pelas ruas depois das 22h; existe grande quantidade de moedas falsas; policiais são monoglotas; existem falsas blitz para assaltar as pessoas.

O que a France Football fala
A revista não menciona episódios de violência na sociedade em geral e nem mesmo fala sobre assassinatos. Os franceses se atêm mais à questão dentro dos estádios, contando o episódio da Arena Joinville e pensando se esse problema existirá também na Copa do Mundo – para eles, o preço dos ingressos terá um efeito dissuasivo. E a matéria também discute como as forças especiais montadas pelo governo lidarão com a segurança das multidões, em especial nos arredores dos estádios e nas Fan Fests da Fifa – há mesmo uma preocupação internacional sobre o tema, incluindo cobranças da ONU sobre a violência contra as manifestações de junho.

E sobre o que mais a matéria da France Football fala?

CBF

A revista não deixa passar batido os desmandos de Ricardo Teixeira à frente da CBF. Os franceses expõem a liberdade excessiva que o cartola teve para modificar os estatutos e acumular poderes, buscando um trampolim político para sua eleição à presidência da Fifa. Também lista as acusações contra o dirigente: os casos de propina da ISL e a apropriação de dinheiro público no amistoso entre Brasil e Portugal, em 2008. A reportagem também indica os laços de amizade de Teixeira com Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, que em 2007 trabalhou justamente na elaboração da candidatura do Brasil como sede da Copa.

Clima

Sim, a France Football também tratou de assuntos estritamente ligados às partidas. E demonstraram maior preocupação em relação à temperatura nos estádios durante a Copa. Meia página é dedicada apenas para discutir o tema. “Ao modificar os horários de sete partidas no dia seguinte ao sorteio, a Fifa explicitamente reconheceu um dos principais problemas da próxima Copa do Mundo: as condições climáticas, e mais particularmente o calor, em certas cidades da competição”, escrevem. A reportagem relata os cuidados da Fifa em relação à questão e também apresenta o parecer médico sobre os problemas físicos podem ocorrer durante o Mundial.

Em conversa com estudantes em Oxford, Joseph Blatter "provocou" C. Ronaldo

A entrevista com Joseph Blatter

Sim, o manda-chuva da Fifa aceitou conversar com a France Football sobre o Mundial. E, como era de se esperar de uma fonte oficial, Blatter garante que “nunca esteve tão convencido que a vigésima Copa do Mundo será formidável”. O presidente admitiu sua inquietude quanto aos atrasos nas obras, mas ressaltou o compromisso do governo em seus encontros com Dilma. Sua resposta mais interessante fala sobre a cólera social que aconteceu na Copa das Confederações: “Foi um movimento espontâneo que não teve propósito e nem cabeça. Além do mais, eu creio que as coisas evoluíram. Você sabe, o futebol é como as batatas, ele é bom para todos. Talvez alguns se utilizem da plataforma do Mundial para se fazer ouvir. Mas, assim que a competição começar e a seleção se lançar à conquista da sexta estrela, eu não creio que haverá uma vontade de fazer mal ao futebol. O futebol estará lá para reunir as pessoas e construir pontes”. De uma ingenuidade (ou uma cara de pau) impressionante.

A entrevista com Mauricio Murad

O bate-papo com o sociólogo, autor do livro ‘A violência no futebol’, é talvez o ponto da reportagem que deixe as críticas mais evidentes – mas sempre nas palavras do entrevistado.  Murad é bastante enfático ao analisar a falta de legado ao povo brasileiro, a corrupção, o uso de dinheiro público nos estádios e o atraso nas obras – todos motivos apontados como indutores dos protestos populares que aconteceram durante a Copa das Confederações e que, segundo ele, têm grandes chances de acontecer novamente durante a Copa do Mundo.

“O que é que se passará depois do mês de junho? As pessoas não terão visto nada. Elas não serão beneficiadas em nenhuma melhoria do cotidiano. O país não fez nada e a Copa do Mundo não deixará nenhuma herança. O governo prometeu, mas não teve palavra. Há atrasos em todos os níveis. E não falamos apenas dos estádios, mas dos aeroportos, dos transportes. Onde estão os projetos sociais? Onde está a herança?”, responde Murad. “O dinheiro público que é gasto supostamente era para ser usado para melhorar a saúde, a educação. É um absurdo. Essa situação social explosiva vai gerar novamente as manifestações”.

Murad também afirma que uma grande campanha da seleção brasileira na Copa pode reduzir a força das manifestações. E que também talvez sirva de artifício político nas eleições de outubro: “O governo está muito inquieto, já que é um ano eleitoral e a economia não é tão florescente. A inflação aumenta, a produção e o consumo estão em baixa. A situação não é favorável. Dilma Rousseff faria bom proveito de uma boa campanha da Seleção para limitar o impacto da conjuntura atual”. Por fim, o sociólogo também demonstra sua preocupação com a falta de preparo da polícia para lidar com grandes multidões e que, independente do belo espetáculo no futebol, a Copa não lhe traz otimismo, especialmente ao que concerne aos transportes, à segurança pública e ao possível aumento da violência.