Assim que os grupos da fase final das eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo 2014 foram sorteados, ficou evidente que duas seleções já estavam com os passaportes praticamente carimbados. Ninguém em sã consciência teria a audácia de cravar que Japão e Coreia do Sul não disputariam a Copa do Mundo 2014.

E aconteceu o que já estava previsto, com uma importante ressalva. Os japoneses decidiram sua classificação na penúltima partida, no empate sofrido diante da Austrália, em casa, isso porque já haviam tropeçado diante da fraca Jordânia (2 a 1, fora de seus domínios), a única derrota da equipe na etapa final. Os 17 pontos, quatro a mais que australianos e sete de vantagem para os jordanianos, mostram a superioridade sobre os adversários.

E a Coreia do Sul? 14 pontos, segunda posição do Grupo A, dois pontos atrás do Irã e vantagem diante do Uzbequistão apenas no saldo de gols (6 contra 5). Os comandados do técnico Choi Kang-Hee, desde 2011 no cargo, sentiram dificuldade. Só diante do Catar é que os sul-coreanos somaram duas vitórias. Mesmo assim, a segunda só ocorreu aos 51 minutos do segundo tempo (2 a 1, em casa).

Até contra o Líbano, lanterna da chave, a Coreia do Sul não venceu os dois jogos – no segundo, aliás, custou a empatar, aos 51 minutos do segundo tempo, com os libaneses eliminados. Diante do Uzbequistão, em casa, a equipe venceu por 1 a 0, com gol contra do adversário. Mas qual(is) o(s) motivo(s) para a Coreia do Sul, em sua oitava participação consecutiva em Copa do Mundo (desde 1986), não comprovar a superioridade dentro de campo?

Culpa do técnico

Choi Kang-Hee, de 54 anos, falou à imprensa após a classificação para o Brasil 2014, e o clima não era muito bom: “É tudo minha culpa. Como a partida de hoje (terça-feira) terminou assim, devo pensar sobre o que preciso fazer daqui para frente. Creio que o fato de eu ter sido treinador por tempo limitado no início teve uma influência negativa sobre o time. Tomara que a derrota de hoje seja um trampolim para o futebol coreano seguir evoluindo”, encerrou.

Quando chegou ao time, em novembro de 2011, após surpreendente derrota de 2 a 1 para o Líbano, fora de casa, pela terceira fase, Choi disse que ficaria no cargo até a classificação ser assegurada e que não tinha a intenção de comandar a equipe na Copa do Mundo. A Coreia do Sul até começou bem a fase final, com vitórias sobre Catar (4 a 1, fora de casa) e Líbano (3 a 0, em casa). Depois tudo desandou e quase acabou numa catástrofe.

A imprensa sul-coreana criticou bastante a desorganização da seleção no ataque, sem coesão e mal orientada. É fato que o Irã levou apenas dois gols na fase final, mas as jogadas de maior perigo da Coreia do Sul foram de bola parada ou cruzamentos para o gigante Kim Shin Wook, de 196 cm, que tem apenas um gol em 16 aparições com a camisa nacional.

Geração nova

Uma das razões para o mau desempenho da Coreia do Sul pode ser a troca de geração que o elenco vem sofrendo desde 2010. Veja um resumo dos atletas que jogaram o Mundial 2010 e tiveram presença na fase final das eliminatórias 2014.

Jung Sung-Ryong, 28 anos: goleiro do Suwon Bluewings e titular da equipe, tendo participado das oito partidas. (50 convocações)

Kim Bo-Kyung, 23 anos: meia do Cardiff City, foi o segundo mais presente no time titular, jogando sete partidas, uma começando no banco de reservas. Bo-Kyung marcou dois gols na vitória de 3 a 0 sobre o Líbano. (18 convocações)

Lee Chung-Yong, 24 anos: meia do Bolton, participou de cinco jogos, mas em apenas dois ficou 90 minutos em campo. Na derrota de 1 a 0 para o Irã, esteve no banco de reservas. (47 convocações)

Lee Dong-Gook, 34 anos: veterano, o atacante do Jeonbuk Motors jogou sete partidas, cinco como titular, sendo o capitão no último jogo (97 convocações).

Kim Nam-Il, 36 anos: meia do Incheon United,                jogou apenas uma partida na fase final, como titular, no empate suado diante do Líbano. (97 convocações)

Kim Young-Kwang, 29 anos: goleiro reserva, só não foi relacionado uma vez, mas também não entrou em campo na fase final. (17 convocações)

Pode-se atestar que há duas jovens promessas sul-coreanas, com carreira na Europa, dois veteranos que talvez não estejam na Copa do Mundo 2014, e os dois goleiros. De titulares com experiência em torneios importantes, apenas Dong Gook e Sung Ryong, pouco para uma seleção que perdeu nomes importantes.

Poderiam haver outros, mas o meia Park Ji Sung, ex-Manchester United, decidiu se aposentar da seleção após a Copa da Ásia 2011, aos 30 anos, para abrir espaço à “talentosa próxima geração”. O mesmo caminho tomou o zagueiro Lee Young-pyo, na mesma época, depois de ter jogado os mundiais de 2002, 2006 e 2010.

O atacante Park Chu Young, promessa do Arsenal depois de boa temporada no Monaco, pouco jogou no clube inglês (uma vez), sendo emprestado ao Celta de Vigo. Após três gols e uma assistência em 2012-13, Chu Young foi devolvido pelo clube espanhol, pois simplesmente não apareceu para jogar a última rodada da liga. Poderia ser titular da Coreia do Sul…

O que fazer?

Portanto, a Coreia do Sul se classificou para a Copa do Mundo mais pela ausência de qualidade dos adversários do que por ter amplo domínio no continente, papel que cabe ao Japão. Hoje, não é possível ver a seleção sul-coreana passando de fase no Mundial, mas é função do técnico Choi Kang-Hee quebrar a cabeça para montar o time.

Há novas peças em ascensão, como o jovem atacante Son Heung-Min, do Bayer Leverkusen desde 13 de junho de 2013, comprado ao Hamburgo por 10 milhões de euros. Ele jogou duas vezes como titular na fase final, outras quatro vindo do banco, inclusive marcando um gol salvador contra o Catar, aos 51 minutos do segundo tempo. Outros também poderão ser testados. Muito trabalho para Kang-Hee a um ano do Brasil 2014. Prazo para a Coreia do Sul voltar a ter um time competitivo…

Curtas

– Não se pode falar que Choi Kang-Hee não tenha experiência como treinador. Ex-atacante da seleção entre 1988-92, ele já foi auxiliar da Coreia do Sul (2003-04) e do time sub-20 (2002-03), além de ter sido campeão nacional com o Jeonbuk Motors (2009 e 2011) e da Liga dos Campeões da Ásia (2006). Desde 2007 o país não tem um técnico estrangeiro.

– O artilheiro da Coreia do Sul nas eliminatórias 2014 é Park Chu Young, com seis gols. Lee Keun-Ho vem logo atrás, com cinco, três na fase final, todos contra o Catar. Em seguida, há quatro atletas com dois tentos e cinco com apenas um gol.

– A melhor campanha da Coreia do Sul numa Copa do Mundo foi em 2002, dentro de casa (quarto lugar), com resultados cercado de polêmicas, contra Espanha e Itália. Fora isso, o máximo que o time conseguiu foi as oitavas de final, em 2010. Nas outras vezes, eliminação na fase de grupos.

– Em 2013, a Coreia do Sul não foi bem contra seleções não-asiáticas. A única vitória foi contra Zâmbia (2 a 1), com derrotas para Espanha (4 a 1) e Croácia (4 a 0). Em 2011, o time empatou com Turquia (0 a 0) e Polônia (2 a 2), mas venceu Honduras (4 a 0), Sérvia (2 a 1), Gana (2 a 1).


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