Não é de hoje que o futebol costuma ser usado pela diplomacia de um país para afirmar sua posição no exterior. Há inúmeros casos, sobretudo em Copas do Mundo. A Arábia Saudita, porém, adotou um caminho diferente para tecer seus laços no Oriente Médio. Nesta semana, o Rei Salman anunciou que construirá um estádio com 100 mil lugares no Iraque (a princípio em Bagdá), a fim de estreitar as relações com os vizinhos. Uma maneira de se aproveitar da paixão pelo esporte também para ganhar o apoio do povo iraquiano.

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O anúncio acontece dias após o amistoso entre Iraque e Arábia Saudita, vencido pelos Leões da Mesopotâmia por 4 a 1. Mais notável que o resultado, todavia, foi a manifestação dos iraquianos nas arquibancadas. Eles lotaram os 65 mil lugares do Basra Sports City, estádio construído pelo governo local e inaugurado em 2013, no extremo sudeste do país – próxima à fronteira com o Irã e ao litoral do Golfo Pérsico. Deram diversas demonstrações de patriotismo, com bandeiras tremulando nas tribunas e o hino nacional cantado em uníssono. Assim, os sauditas embarcam na comoção e oferecem seu presente ao “povo iraquiano”.

Vale dizer que uma das maiores lutas recentes do futebol no Iraque é realizar as partidas da seleção em seu território. A partir de 2002, quando se iniciaram as acusações dos Estados Unidos sobre as armas de destruição em massa, que resultaram na Guerra do Iraque, o país atravessou um longo período sancionado, sem poder sediar jogos internacionais. Houve uma breve trégua em 2013, com dois amistosos em Bagdá, mas a sanção da Fifa retornou logo depois disso, diante da guerra civil com o Daesh, o autointitulado Estado Islâmico. Em outubro, com o abrandamento do conflito, a restrição afrouxou. Basra e Karbala, cidades distantes da zona mais afetada pelas batalhas, receberam os Leões da Mesopotâmia. Já em dezembro, o Iraque anunciou o fim da guerra com o Daesh, após a retomada de áreas no norte do país.

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Há um otimismo quanto ao fim da limitação imposta pela Fifa ao restante das cidades iraquianas. Os dirigentes da entidade deverão discutir o assunto nos próximos dias, durante o reunião de seu conselho que acontecerá em Bogotá. A Arábia Saudita se comprometeu a apoiar o Iraque na Fifa. Nesta semana, o Rei Salman esteve em contato com Haider al-Abadi, primeiro ministro iraquiano. Além das pautas futebolísticas, ambos reafirmaram as relações estratégicas entre os países. Desejam aumentar a cooperação mútua, que vem ascendendo nos últimos meses.

A aproximação, afinal, faz parte de um cenário diplomático mais amplo. A disputa de influências entre Arábia Saudita (sunita) e Irã (xiita) é fundamental ao tabuleiro geopolítico no Oriente Médio. Particularmente, iraquianos e sauditas estiveram em lados opostos desde quando entraram em conflito na Guerra do Golfo, com os Estados Unidos apoiando seus aliados ao retaliar Saddam Hussein. Já nos últimos anos, as relações regrediram um pouco mais, por causa dos entraves internos no Iraque. Há indícios e acusações, inclusive feitas pelo ex-premier iraquiano Nouri al-Maliki, de que a Arábia Saudita financiou o Daesh como forma de fortalecer o movimento ultraconservador sunita no Iraque. Por outro lado, a influência dos iranianos cresceu no Iraque desde a última década. Teerã se opôs à invasão americana em 2003 e auxiliou a reconstrução dos vizinhos após o conflito. Já a partir de 2014, o governo persa se envolveu diretamente na luta contra o Daesh, apoiando iraquianos e curdos em suas estratégias militares. Além disso, milícias xiitas também se juntaram ao combate.

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Já a partir de 2015, após a realeza saudita declarar o Daesh como grupo terrorista, os dois estados voltaram a se aproximar, apesar de atritos por conta do Iêmen. Nos últimos meses, representantes de Iraque e Arábia Saudita se reuniram com frequência, assinando acordos de cooperação – que incluem a abertura de um consulado saudita em território iraquiano, o desenvolvimento de portos, a construção de estradas, a permissão a investimentos sauditas no Iraque e a reabertura da fronteira após quase três décadas, fechada desde a Guerra do Golfo. Conforme analistas políticos entrevistados pela Al Jazeera, enquanto o governo iraquiano vislumbra o dinheiro dos novos aliados para a sua recuperação, os sauditas desafiam as alianças do Irã em Bagdá. O governo do Iraque, de qualquer forma, mantém o equilíbrio em sua diplomacia, inclusive reafirmando as relações com os iranianos recentemente.

Neste contexto, entra o estádio prometido pela Arábia Saudita. Basra e Karbala, cidades onde aconteceram os últimos jogos da seleção iraquiana, são de maioria xiita, na zona de influência do Irã. Os investimentos sauditas deverão se concentrar no norte, mais afetado pela guerra contra o Daesh, onde a população é majoritariamente sunita. Há mesmo um acordo de cooperação para a reconstrução das cidades devastadas pelos conflitos. Assim, reforçam-se as relações políticas e econômicas na região. E, nisso, o futebol se transforma em elemento a mais.