Passarella: teve a chance de treinar o Corinthians, ficou 11 jogos invicto, mas não aguentou a goleada para o São Paulo (Foto: AP)

O que impede os técnicos estrangeiros de fazerem sucesso no Brasil?

Com colaboração de Leandro Stein e Pedro Venancio

Bastou o técnico Pep Guardiola supostamente mencionar que gostaria de treinar a seleção brasileira que a gritaria contra técnicos estrangeiros no comando do time pentacampeão mundial foi mais alta que um show do Manowar. Era previsível, pois treinadores que não nasceram no País sempre encontraram uma dificuldade enorme para fazer carreira por aqui e poucos conseguiram ser relevantes. As causas, além do corporativismo, também incluiriam conflitos culturais, como dificuldades com o idioma, e a falta de profissionalismo que ainda persiste por essas terras.

Depois do húngaro Nicolas Ladanyi, tetracampeão carioca pelo Botafogo no começo dos anos 1930, os principais casos de sucesso estão mais ou menos na metade do século. Exceto pelo também húngaro Bela Guttman, o paraguaio Fleitas Solich e o argentino Filpo Nuñez, poucos conseguiram passagens consistentes. Aliás, Nuñez é o único que treinou o Brasil. Em 1965, ele era o técnico do Palmeiras quando o clube paulista representou a nação nas festividades de inauguração do Mineirão contra o Uruguai.

Essa lista poderia ser mais extensa. O período pré-Copa do Mundo de 1958 foi um caos e, entre os Mundiais da Suíça e da Suécia, Zezé Moreira, Osvaldo Brandão e Flávio Costa treinaram a Seleção, sem contar interinos. O primeiro passo de João Havelange, em janeiro daquele ano, ao vencer Carlito Rocha nas eleições para presidente da Confederação Brasileira de Desportos, foi definir quem escolheria e escalaria os jogadores no torneio que começaria seis meses depois.

Havelange queria Solich, tricampeão carioca pelo Flamengo, mas Paulo Machado de Carvalho insistia em Flávio Costa. Enquanto isso, como mostra a Folha da Manhã (reproduzida abaixo), a Associação dos Técnicos de Futebol do Estado de São Paulo “não topou” a indicação do paraguaio em defesa “dos interesses dos nossos coaches”. A justificativa oficial para preterir Solich foi o artigo 38 do decreto-lei 1.212 de 1939, que diz: “As instituições desportivas, que funcionarem nas cidades de população superior a 100 mil habitantes, em todo o país, não poderão admitir ao provimento das funções de técnico desportivo (..) sinão os portadores dos competentes diplomas”.

Uma baita desculpa esfarrapada porque o Rio de Janeiro tem mais de 100 mil habitantes e Solich era treinador do Flamengo. O que aconteceu foi uma queda de braço que Havelange, apenas no início do seu segundo mandato, perdeu para Paulo Machado de Carvalho, influente personagem do futebol paulista e ex-presidente do São Paulo. No fim, até pela antipatia que Flávio Costa acumulou nas suas passagens anteriores pela Seleção, o escolhido acabou sendo Vicente Feola, mas o corporativismo dos treinadores brasileiros já fez pelo menos 55 aniversários.

O estrangeiro mais importante que trabalhou no Brasil foi Guttmann, bicampeão europeu pelo Benfica e treinador do Honvéd de Puskas, Czibor e Kocsis. Como mostramos aqui, o título mundial do Brasil em 1958 pode ser creditado em parte a ele pela revolução tática que implementou no São Paulo e posteriormente foi estendida à seleção brasileira por Feola.

“Nós estamos vivendo o auge da globalização”, lembrou Vágner Mancini, ex-técnico do Atlético Paranaense que, curiosamente, foi substituído pelo espanhol Miguel Ángel Portugal, ex-Bolívar. “Não temos o direito de impedir ninguém de trabalhar no Brasil e nós também almejamos ir para fora, para a Europa, Ásia, mundo árabe”.

O diretor de futebol do Coritiba, Mário André Mazzuco, não vê como o futebol poderia se beneficiar de trabalhos pontuais de estrangeiros no Brasil. Afinal, como vimos, eles existiram e não necessariamente foram revolucionários – com a exceção de Guttmann. O importante, na opinião dele, é haver um intercâmbio de métodos e informações com profissionais de outros países. “A conversa com os estrangeiros precisa ser aberta, para acrescentar novas ideias. Se houvesse um trabalho de capacitação dos técnicos, e eles (os estrangeiros) contribuíssem com isso, seria um caminho interessante”, explicou. Caio Júnior, por exemplo, fez estágio com Carlo Ancelotti no Real Madrid ano passado.

Caio Júnior foi trocar figurinhas com Carlo Ancelotti na Espanha

Caio Júnior foi trocar figurinhas com Carlo Ancelotti na Espanha

“O brasileiro trabalha melhor que qualquer um lá fora”, rebateu Geninho, técnico do Sport desde setembro de 2013. “Todo ano, eu viajo e não vejo nada diferente. Em termos de trabalho, trabalha-se muito mais aqui. Lá, há muito investimento, aporte financeiro. Se você tem os melhores do mundo, com pouco trabalho, rende”. O diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Mattos, explicou que é por isso que o clube prioriza o mercado interno. “O Brasil não precisa importar. Exportamos jogadores e treinadores, e temos bons profissionais por aqui”, justificou.

E o profissionalismo, professor?

A falta de profissionalismo do futebol brasileiro atrapalha bastante a aventura dos técnicos estrangeiros por aqui. A paciência dos dirigentes semi-amadores já é limitada com os treinadores que eles conhecem. Adicionado uma pitada de corporativismo e alguns punhados de desconfiança à receita, os gringos precisam de resultados mais do que imediatos para não serem demitidos.

Foi isso que se viu em experiências mais recentes. O argentino Daniel Passarella teve 15 jogos para mostrar trabalho no Corinthians em 2005. Ganhou sete deles, empatou quatro e perdeu quatro. O problema é que uma das derrotas foi aquela goleada de 5 a 1 para o São Paulo. Foi mais do que o suficiente para a diretoria, que tinha Paulo Angioni como um dos membros, perder a paciência. “Ainda existe um pouquinho de falta de entendimento. A língua influi bastante porque trabalhamos muito com o imediato, e a adaptação precisa ser instantânea”, confirmou Angioni.

“Acho que se o cara vier para cá tem que se adaptar”, acrescentou Geninho. “Acho muito difícil ele se adaptar ao jeito que o futebol brasileiro é porque não tem o profissionalismo que tem lá fora. O Corinthians trouxe o Passarella, que ficou um, dois meses, e deu com o burro n’água”.

O argentino não foi o único que fracassou recentemente. O alemão Lothar Matthäus ficou apenas oito jogos no Atlético Paranaense (seis vitórias e dois empates) e voltou para a Alemanha de uma hora para a outra, sem sequer se despedir da torcida. Mesmo semifinalista da Libertadores, o uruguaio Jorge Fossati foi demitido do Internacional depois de uma derrota para o Vasco, pelo Campeonato Brasileiro, e Celso Roth assumiu o resto da campanha que terminou com o título sul-americano.

Matthäus deixou o Atlético Paranaense com boa campanha e sem mais nem menos (Foto: AP)

Matthäus deixou o Atlético Paranaense com boa campanha e sem mais nem menos (Foto: AP)

O atual técnico do Coritiba, Dado Cavalcanti, vê também um problema cultural. As estruturas do elenco, com muitos jogadores da base, e do calendário, do qual os estaduais ainda são partes essenciais, dificultam essa adaptação. “Imagina a seguinte situação: Você traz um treinador de fora do país, inclui ele em um contexto com o qual ele não está acostumado, jogando em quatro regiões diferentes, com quatro climas diferentes e aí com três ou quatro derrotas, demite”, exemplificou. “Não há muito tempo de adaptação, mas isso está mudando”.

E o que também atrapalha, acreditem, é o tamanho do país. Vágner Mancini elege a diferença de idiomas como a principal culpada da questão, mas acha que há treinadores demais no mercado brasileiro, principalmente ex-jogadores que acabaram de encerrar suas carreiras.

A Associação Brasileira de Treinadores de Futebol não tem um plano de importar técnicos estrangeiros como se eles fossem médicos cubanos, mas quer trazer cursos de aperfeiçoamento para capacitar os seus membros. Assim, acredita que o Brasil pode exportar treinadores para mais países. Os casos de bons trabalhos de treinadores brasileiros em outros países, com as exceções de centros menos desenvolvidos, como Ásia e Oriente Médio, são tão raros quanto os de sucessos de estrangeiros por aqui. Não deve ser coincidência.