Setor 2, torcida jovem e fanática que passou a tomar a Rua Javari na última década

[Times de capitais] Nem aumento da torcida impede que Juventus se aproxime da quarta divisão paulista

A derrota por 3 a 1 para o Novorizontino já era esperada. O Juventus ficou as 11 rodadas do Paulistão da Série A3 na metade de baixo da tabela, enquanto que o Tigre luta pela ponta. E a partida ainda foi em Novo Horizonte. Mas o impacto foi maior. Com as vitórias de São Carlos, Tupã e Santacruzense, o Moleque Travesso caiu para a 18ª posição. Sim, o tradicional clube da Mooca entrou na zona de rebaixamento para a quarta divisão estadual.

O curioso é que essa crise em campo vai contra o que se vê do outro lado do alambrado. Por seu caráter alternativo, o Juventus virou xodó de muitos amantes de futebol, que passaram a seguir o clube por considerá-lo um bastião contra o aumento do profissionalismo do futebol. Cantos contra o “futebol moderno” cresceram, assim como as médias de público, bem respeitável entre os clubes que transitam por segunda e terceira divisões paulistas.

O problema é que o clube ainda não descobriu como transformar esse aumento de torcida em dinheiro e, em última instância, em um time competitivo. E isso tem muito a ver com a falta de planejamento e de continuidade do trabalho.

Planejamento falho e troca de técnico no meio da competição

Após participar por três anos seguidos da elite do futebol paulista, entre 2006 e 2008, o Juventus acabou rebaixado para a Série A2 e, no ano seguinte, para a A3. Foram três anos na terceira divisão, e o retorno à segundona, em 2012, foi bastante breve, com o time novamente caindo para a A3, em 2013. Para Jeová Francisco Oliveira, diretor de futebol juventino, o planejamento do ano passado foi falho, com a contratação de jogadores sem identificação com o clube. “Quando o presidente Rodolfo Cetertick assumiu, o Juventus já se encontrava na terceira divisão. Fizemos um trabalho com dedicação e chegamos à segunda divisão. Na segunda, demos uma vacilada no planejamento e voltamos para a A3. Foi falta de planejamento. Tem que contratar os jogadores que tenham a cara do clube”, comenta o dirigente.

Apesar da queda no campeonato estadual, o Juventus teve uma boa campanha na Copa Paulista do mesmo ano, sendo eliminado nas quartas de final pelo Audax, que só caiu na final e, nesta temporada, é o time revelação da Série A1. Com o trabalho satisfatório realizado no segundo semestre, a ideia era que a equipe mantivesse a base e trouxesse mais alguns reforços para complementar o time, coisa que não aconteceu. Para Jeová, aí está a maior explicação para o momento difícil pelo qual o Moleque Travesso passa atualmente dentro de campo: “Ali eu achei que, se contratássemos três jogadores experientes e um centroavante, não precisaríamos contratar ninguém para o campeonato agora”.

Além de não terem chegado os nomes que complementaríam o elenco, a equipe acabou perdendo sua base. O jornalista Diego Wettstein, torcedor grená e autor do trabalho de rádio Clube Atlético Juventus – Um Sentimento Sem Explicação, foi mais fundo e criticou também a chegada do técnico Luiz Carlos Ferreira no meio do campeonato, quebrando o planejamento que vinha de 2012. “O Juventus montou um time competitivo na Copa Paulista com jogadores criados na base do clube, que dão mais coração. Aí, alguns jogadores são dispensados, vem técnico novo, jogadores novos, atletas de idade mais avançada e que não têm mais a mesma vontade de jogar, mas são homens de confiança do Ferreira, e acabam tirando a oportunidade de jovens que têm vontade”, analisa.

O Juventus sempre teve uma identidade de clube formador e, diante da boa campanha na Copa Paulista com um grupo repleto de garotos, é compreensível a crítica ao pouco uso de jogadores mais jovens. Mas a confiança da diretoria no trabalho de Ferreira é grande. Experiente e conhecido como “Rei do Acesso”, o técnico tem suas decisões justificadas por Jeová: “O Ferreira, com a experiência que tem, gosta de ter quatro ou cinco jogadores no mínimo de idade avançada e de confiança dele”.

Caminho conhecido, só não se sabe como percorrê-lo

O time em si não é dos melhores, e a dificuldade de investimento tem ligação direta. O quadro de associados sempre foi um dos pilares econômicos da equipe. No auge, o Juventus teve cerca de 100 mil sócios. Hoje, está com 20 mil. Consequência da mudança da cidade, com condomínios que incorporam estrutura de lazer para os moradores, que não têm mais motivos para manter o vínculo com um clube. O faturamento do Moleque Travesso caiu drasticamente, bem como a qualidade dos reforços.

Para manter o futebol do clube, Jeová revela que o clube conta com patrocinadores, venda de atletas e o dinheiro dos associados, mas a ideia é desenvolver o departamento de marketing em cima do bom número de torcedores e simpatizantes para que o futebol seja autossuficiente. O dirigente filosofa sobre a situação, mas não aponta um caminho concreto. “Faço uma comparação com a criança: você compra um calçado de tamanho 20, mas depois ela já está calçando 22. Você tem o marketing, tem que renovar as ideias, os investimentos, para uma hora livrar-se da dependência dos associados.”

O caráter revelador de jogadores do Juventus propicia algumas vendas de atletas a clubes de maior expressão, e Jeová acredita que parte do planejamento futuro precisa ser focada especialmente nas categorias de base. No entanto, assim como ao comentar as ideias de marketing para a equipe, o dirigente é vago ao falar do assunto. “Nós precisamos investir mais na base que no profissional, tanto financeiramente quanto no material humano para preparar os garotos. Isso é um trabalho que leva no mínimo dois anos, mas a ideia é muito primária.”

Exigência é tão grande quanto o apoio e a tradição

Embora o momento de fato não seja dos melhores, Jeová vê uma cobrança de certa forma desproporcional para um time com a estrutura que o Juventus tem justamente pelos feitos da equipe no passado. Uma agremiação cujo estádio foi palco de um gol histórico de Pelé e que já incomodou times grandes da capital tem obrigação de ter resultados melhores. “O Juventus é um time da capital visto também como time grande, porque a própria torcida mede o futebol pelos associados do clube, e o futebol é diferente de associados de clube. Mas os sócios preservam a paixão. Por termos participado algumas vezes no campeonato de cima, somos cobrados por isso”, explica o dirigente.

Apesar do ônus da cobrança, a popularidade do clube tem um bônus ainda maior. O estádio Conde Rodolfo Crespi é acolhedor, familiar e tradicional. A média de público da equipe na Copa Paulista de 2013, por exemplo, foi de mais de 1.200 torcedores por jogo, bastante para um torneio que tem nível técnico e valor bem pequeno. Em um jogo com o Marília, o Juventus chegou a levar 4 mil pessoas no estádio.

Jeová demonstra apreciar tudo isso e relembra com orgulho do dia em que viu dois recém-casados entrarem na Rua Javari com seus dois filhos e o público ao redor abriu passagem para que se dirigissem a seus lugares na arquibancada. A cena ilustra um pouco do clima do clube: convidativo, simpático e lugar para o lado romântico do futebol se manifestar. Mas todo mundo quer ganhar, e isso tem sido raro para os juventinos em 2014.

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