A Premier League se tornou muito rica com a venda do seu pacote de TV do último ciclo, 2016/17 até 2018/19. Nesta terça, a liga negociou os direitos para o Reino Unido do próximo triênio, 2019/20 até 2021/22, com uma diferença: o valor não só não aumentou, como teve uma leve redução. Ao menos momentaneamente. No total, cinco dos sete pacotes foram cedidos por £ 4,464 bilhões (€ 5,02 bilhões ou R$ 20,25 bilhões). O anúncio acontece poucos dias depois do anúncio de um aumento significativo no contrato de TV da Serie A. Assim, os italianos se aproximam da Alemanha e diminuem a diferença para a Inglaterra.

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Se no último contrato da Premier League as duas principais emissoras, Sky Sports e BT Sport, travaram uma batalha feroz pagando rios de dinheiro pela transmissão, desta vez as coisas mudaram e os valores diminuíram. Analistas no Reino Unido previam que o acordo total não bateria o recorde do ciclo passado, de £ 5,1 bilhões. O aumento de 70% que ocorreu na última renovação trouxe uma avalanche de dinheiro aos clubes ingleses, mas desta vez a tendência é contrária e parece ter furado a bolha dos crescentes valores dos direitos de transmissões nacionais.

A Sky Sports segue sendo a emissora com mais jogos. A emissora pagou £ 3,579 bilhões por quatro pacotes, um valor abaixo dos £ 4,1 bilhões que pagou no ciclo anterior, sendo que terá 128 jogos transmitidos no total, dois a mais que o último contrato. Além disso, o canal ainda terá a primeira escolha dos jogos aos fins de semana. Terá o novo horário, sábado à noite, além dos jogos às sextas e segundas à noite. No total, a Sky Sports pagou 14% menos que no contrato atual. O outro dos pacotes vendidos foi comprado pela BT Sport, que pagou £ 885 milhões, diminuindo também o valor pago no contrato anterior, £ 960 milhões (preço 8% menor), por 10 jogos a menos – no total, serão 32 jogos no novo contrato.

O discurso das duas empresas foi de austeridade. Os custos que subiram nas alturas no último contrato criaram uma pressão enorme nas duas companhias. Assim como aconteceu no Brasil há alguns anos, os dois canais concorrentes eram exclusivos de operadoras de TVs diferentes. Por isso, a disputa no último leilão dos direitos da Premier League foi tão acirrada.

A mudança para o próximo contrato passa justamente por uma mudança nesse cenário. As duas operadoras entraram em acordo para terem os respectivos canais, ou seja, quem quer ter Premier League (Sky Sports) e Champions League (BT Sport) não precisa mais de duas assinaturas diferentes. Assim, as duas empresas consideram que ganham com isso.

Nesse novo cenário, a BT Sport não considerou fazer uma proposta para tirar os principais horários da Sky Sports e considera ter um cardápio de opções interessante como uma segunda opção de canal esportivo. A pressão financeira na BT Sport era grande, mas com o acordo com a Sky para compartilhar conteúdo – que vai além do esporte – amenizou isso. E, portanto, a disputa pela Premier League tornou-se menos importante na atratividade aos assinantes. O canal se contenta em ter 20 jogos de segunda escolha e outros 12 de quinta escolha para somar ao seu já variado número de opções de direitos de transmissão.

O logo da Premier League (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

Sobram ainda dois pacotes, que a Premier League quer vender para empresas de mídias digitais, como Amazon, Facebook, Youtube ou Netflix. Com isso, a liga quer manter os preços aumentando a cada novo contrato. A ameaça de um gigante digital entrar na disputa pelos direitos de transmissão efetivamente não se materializou.

A Amazon abarca o mercado de direitos de transmissão de esportes e tem, por exemplo, o direito de passar via streaming um jogo por rodada da NFL, o chamado “Thursday Night Football”, evidentemente às quintas. Tratando do Reino Unido, a Amazon comprou os direitos do US Open de tênis, além do ATP Tour.

A BT Sport também se interessa pelos pacotes que restaram, mas eles não foram vendidos porque ainda não se chegou ao valor mínimo estabelecido. Os pacotes não criaram a demanda que se esperava. Um dos motivos é que as empresas de mídia digital se interessam mais pelos direitos globais, já que atuam em dezenas de países simultaneamente, e restringir apenas ao Reino Unido pode não ser tão atraente para gigantes americanas como a Amazon e Netflix.

A Premier League, porém, tenta aumentar a atratividade para se aproximar dos £ 5,1 bilhões do atual contrato. Para chegar a um valor similar, será necessário vender os dois pacotes restantes por um total de £ 636 milhões, algo que parece improvável no momento. A Sky Sports ainda pode comprar mais um pacote e a BT Sport dois, mas ao que parece, todos esperam que o preço se consolide abaixo da margem para assegurá-lo.

A diminuição do valor pago pelos direitos de transmissão no Reino Unido era esperada, assim como é esperado um aumento do valor do contrato de direitos internacionais. A Premier League cresceu em prestígio e o interesse em transmiti-la é enorme ao redor do globo. O atual contrato rende mais de £ 3 bilhões em direitos internacionais. A expectativa é que esse valor cresça ainda mais para a atual rodada de negociações.

O que o novo contrato significa para os clubes?

O atual contrato teve uma valorização de 70% em relação ao anterior, o que elevou o poder financeiro dos clubes de forma assustadora. O constante aumento de gastos se espalhou por todos os times da Premier League, dos maiores aos menores.

Os custos dos clubes têm aumentado, especialmente com salários de jogadores e valores pagos em transferências. Por isso, é possível que vejamos uma contenção de custos. Isso deve criar uma pressão para que os valores de transferências diminuam, já que os clubes mais ricos do mundo sabem que suas receitas com TV não irão aumentar nos próximos cinco anos.

Ao mesmo tempo, é possível termos uma aproximação das outras ligas com a Premier League nas renovações que vierem, o que acaba por dar um pouco mais de equilíbrio em termos europeus. Mas esse é um efeito que só será sentido em alguns anos, com o acréscimo dos direitos das outras ligas, como já aconteceu com a Itália.

Na Itália, valor recorde de contrato

A Serie A teve uma grande valorização. Em contrato anunciado no dia 22 de janeiro, o Campeonato Italiano foi vendido por € 1,05 bilhão por ano, em um total de € 3,15 bilhões pelo triênio. O grupo que comprou os direitos foi a MediaPro, da Espanha.

Embora o valor seja muito menor que a Premier League (38% menor, aproximadamente), houve muita comemoração entre os italianos, já que o montante aumentou 11% em relação ao anterior, de € 2,853 bilhões.

O valor coloca a Serie A bem próxima à Alemanha, que tem um acordo de € 1,16 bilhão por temporada (em um contrato de quatro anos, de 2017 a 2021), € 1 bilhão da Espanha e € 726 milhões da Ligue 1, da França. Todas seguem bastante atrás da Premier League, que renderá, pelo novo contrato, € 1,67 bilhão por temporada.

Além dos direitos de transmissão na própria Itália, em outubro do ano passado foram vendidos os direitos de transmissão internacionais por € 371 milhões por ano, totalizando € 1,113 bilhão pelos três anos, de 2018 a 2021 – o dobro do valor do contrato anterior.