Qualquer jogador experiente de Football Manager sabe: deixar para negociar contrato com um jogador do seu time no último ano, especialmente nos últimos seis meses, é pedir para ter problema. Quando o vínculo está para terminar, os empresários ficam ainda mais gananciosos, porque chegam propostas de outros clubes. Se for um bom jogador então, aí que não pode deixar acontecer mesmo. Se deixar para negociar em cima da hora, é comum vermos exigências de salário com a ressalva: “Estamos negociando com clube X, Y e Z”. É um alerta, como se dizendo: “Se você não cumprir a minha exigência, outro pode cumprir”. É uma lição básica de negociação, mas parece que Paulo Nobre, um empresário experiente e presidente do Palmeiras, nunca jogou FM e não aprendeu essa lição básica. Viu o principal jogador do seu time, Alan Kardec, ficar a poucos meses do fim do contrato de empréstimo, sem qualquer definição. Pior ainda: viu um time rival entrar no negócio e conseguir um acordo. De quem é a culpa por tudo isso?

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Na entrevista coletiva que deu nesta segunda-feira, Nobre defendeu uma política de gastos com responsabilidade e acusou o São Paulo de falta de ética na negociação. O tricolor teria atravessado o negócio e, por isso, convencendo o jogador a não ficar no clube alviverde. Segundo o dirigente, o Palmeiras ainda tinha dois meses para negociar com o atacante antes da prioridade que o clube tem expirar. É verdade. A prioridade tem prazo até o fim do contrato de empréstimo, no dia 30 de junho. Só que nada impede que um outro clube negocie com o Benfica antes disso, faça uma proposta e espere o contrato de empréstimo acabar para contar com o jogador. Não tem nada de antiético nisso.

Prioridade, é bom lembrar, não é exclusividade. A prioridade de compra obriga o Benfica a aceitar qualquer proposta do Palmeiras que seja igual ou maior do que a proposta recebida de outro clube. Ou seja, se o São Paulo oferece € 4,5 milhões e o Benfica aceita, o Palmeiras é notificado e, se igualar a proposta, o clube português é obrigado a aceitar. A partir daí, a negociação é dos termos com o jogador, de contrato, premiação, luvas, etc. É disso que se trata a prioridade de compra.

O Palmeiras contratou o atacante Henrique, que estava na Portuguesa, e estava praticamente acertado com o Flamengo. Não foi para o clube carioca porque outro clube entrou na parada: o Palmeiras. O clube de Paulo Nobre entrou no negócio e levou o jogador, que aliás foi anunciado na manhã desta segunda-feira.

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O Benfica aceitou a proposta do São Paulo e, como o Palmeiras a igualou, aceitou também a do Palmeiras. O pai e empresário do jogador disse que Palmeiras e Alan Kardec já tinham chegado a um acordo de salário em R$ 220 mil mensais, além de bônus por produtividade, mas Paulo Nobre voltou atrás na proposta.  Queria pagar R$ 200 mil, diferente do que tinha sido acertado entre o diretor Brunoro e o jogador e seus representantes. Essa teria sido a gota d’água para que ele passasse a ouvir outras propostas, segundo o Kardec pai, que também é empresário. Sabemos que temos que desconfiar sempre da palavra dos representantes. Já o presidente alviverde afirma que o acerto estava muito próximo quando o São Paulo entrou na negociação e, por isso, disse que o time do Morumbi foi antiético.

O Palmeiras sabia que o empréstimo de Alan Kardec se encerraria em junho. No Football Manager, seria motivo de extrema preocupação começar o ano com seu principal jogador só com seis meses de contrato. É preciso dar um jeito. Vender alguns jogadores que têm salários altos e não estão jogando, enxugando a folha salarial e tentando erguer recursos para contratar, enfim, o seu principal jogador, que pertence a outro clube. Deveria ser a prioridade máxima desde o fim de 2013 para resolver a questão. Não resolveu.

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Paulo Nobre tentar manter os gastos baixos no clube é excelente, mas é preciso entender o mercado que você está inserido. Não dá para levar até o último dia do contrato para renovar. Não dá para esperar que outros clubes esperem até o fim do contrato de empréstimo, em junho, para então fazer uma proposta. O Benfica quer definir a situação, o jogador também. O Palmeiras deveria querer mais do que ambos, porque o jogador é fundamental ao time.

Quem perde jogadores assim no Football Manager entende que não pode acontecer isso e faz tudo para nunca mais acontecer. Ainda mais se é o principal jogador do time. O São Paulo ofereceu um salário de R$ 350 mil a Kardec, o que seduziu o jogador. O pai de Kardec se tornou irredutível, então, e anunciou a Nobre que não havia mais chance de continuar no Palmeiras. Nobre diz que a relação com o São Paulo é péssima desde os anos 1940, lembrou que Carlos Miguel Aidar foi fundador do Clube dos 13 e ressaltou que os clubes são desunidos, o que seria uma hipocrisia, já que a entidade de clubes tentava unir os clubes. Nobre chamou a proposta do São Paulo a Kardec de assédio. Criticou Aidar por querer se vangloriar de um “passa moleque” e repetiu que a relação entre os dois clubes foi muito prejudicada.

A negociação do São Paulo não foi com o Palmeiras, porque o Palmeiras não é dono dos direitos do jogador. O dono é o Benfica e foi com o clube português que o São Paulo se acertou. Ofereceu salários maiores ao atacante – o que, aliás, é bem questionável, já que não parece que o jogador valha tanto assim e nem que seja tão essencial ao clube do Morumbi, mas isso é outra história. Contratar Kardec parece um capricho de Aidar, uma forma de mostrar serviço. Mas isso não torna a negociação antiética. O clube cumpriu os requisitos, negociou com o clube que tinha os direitos do jogador.

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O São Paulo poderia ser mais cortês e avisar o Palmeiras que entraria no negócio. Seria de bom tom, pela manutenção das boas relação com o clube. Até em respeito pelo Palmeiras. Mas, na prática, o Palmeiras não resolve nada em relação à transferência de Kardec. O São Paulo não teria o que negociar com o Palmeiras, porque o vínculo do jogador é com o Benfica. Com o Palmeiras era só um empréstimo prestes a terminar. Então, seria uma cortesia, uma forma de ser elegante. Não foi. Mas daí a ser antiético é uma enorme distância.

O Palmeiras e Paulo Nobre só tem a si mesmos para culpar por perder Kardec. Demorou a negociar, ficou tentando economizar o máximo que conseguia. É importante tentar economizar, mas o risco de perder o jogador tem que ser calculado. E perder um jogador fundamental para um rival é uma derrota maior do que o campo. É perder fora de campo também. É perder politicamente. É perder moralmente. É fazer o torcedor sentir a febre palmeirense, como descreveu Fabio Chiorino no Esporte Fino. O palmeirense, antes de tudo, tem que ser um forte para aguentar cada baque desse.

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