O que era prenunciado há dias, enfim, se consumou: Dunga será mesmo o novo técnico da seleção brasileira. Para quem esperava uma revolução conceitual após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, era utopia. Não deve ser o novo velho comandante do Brasil que irá realizar esse movimento – embora, a esperança é quem diz, ele ainda possa ter a capacidade de surpreender. O fato é que a Seleção fica bem mais presa ao passado do técnico do que a um futuro transformador.

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Neste primeiro dia, já dá para saber o que esperar de Dunga. Sim, as amarguras e as convicções inseparáveis estão no pacote. Porém, dá para pensar em alguns detalhes que, pelo menos, acabaram sendo minimamente positivos. Não, não dá para sonhar com uma Seleção de futebol solto, como o momento pedia. A realidade do técnico é outra. Mas, em um momento no qual o horizonte é completamente turvo, resta se apegar aos tais detalhes. Ou perder de vez o gosto pela Seleção.

Aquilo que foi bem e ainda dá uma ponta de esperança

A abertura (mesmo que limitada) para testar jogadores

Dunga tem os seus apegos. Mas, antes de fechar o seu grupo, dá para dizer que a Seleção realizou testes com vários jogadores. Muitos questionáveis, como Afonso Alves, e que impediram o time de ter um padrão em seu início. De qualquer forma, em um novo ciclo pensando na Copa de 2018, é importante que isso aconteça. Não da forma como o técnico muitas vezes coloca, preso a características e estilos que ele acredita como ideais, mas levando mesmo quem merecer uma chance na equipe nacional. A ver.

A classificação tranquila nas Eliminatórias

Se esse é o principal objetivo no momento, ainda mais considerando o bom momento das outras seleções sul-americanas, Dunga conseguiu cumpri-lo com tranquilidade em sua primeira passagem. Embora nem todos os resultados tenham sido maravilhosos, a Seleção conseguiu se firmar na campanha, especialmente na reta final, com vitórias marcantes sobre a Argentina e o Uruguai.

A forma como a seleção tratava os grandes jogos

Talvez algo que Dunga carregou desde os tempos de jogador. O discurso enérgico do treinador quase sempre teve seus reflexos nos principais jogos da seleção brasileira sob o seu comando. Por mais que a tática ou os jogadores não fossem os melhores, não faltava concentração. Os duelos contra a Argentina ajudam a ressaltar isso. O problema é que havia um limite sobre o qual nem sempre os jogadores tinham controle. Custou caro contra a Holanda.

O time tinha um estilo de jogo

Dunga tateou demais, mas em um determinado momento o time achou seu estilo. Aproveitando a presença de Kaká, Robinho e Luís Fabiano, os três em grande fase, o Brasil passou a ter um contra-ataque arrasador. Com base nele, a Seleção castigou todas as seleções que se aventuraram a tomar a iniciativa contra o Brasil. Tanto que conseguiu resultados impressionantes fora de casa, como vitórias por 3 a 0 sobre o Chile, 3 a 1 sobre a Argentina e 4 a 0 sobre o Uruguai, todas fora de casa, pelas Eliminatórias. É estranho pensar na seleção brasileira vivendo de contra-ataques, esperando o adversário tomar a iniciativa, mas havia uma estratégia. O que já era melhor que o Brasil de 2014.

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Mas as convicções que podem afundar outra vez a Seleção

…o time só tinha um estilo de jogo

Quando o adversário não dava esse contra-ataque ao Brasil, era um sofrimento. A falta de um plano B era tão gritante que a Seleção de Dunga não conseguiu sair do 0 a 0 em casa contra Bolívia, Colômbia e Venezuela pela dificuldade em abrir espaços. Na Copa, isso também se viu na desnecessariamente dura vitória sobre a Coreia do Norte por 2 a 1. A dificuldade de se adaptar ao adversário e às circunstâncias da partida será fatal em momentos decisivos.

O discurso de que o inimigo está ao lado e a confiança que vira soberba

Dunga nunca teve boas relações com a imprensa. E isso vem desde a Copa de 1990, chegando ao momento mais escancarado em seus palavrões durante a entrega da taça em 1994. O discurso contra o inimigo continuou o mesmo a partir de 2006. Em certo ponto, serve para fechar a seleção brasileira. Mas também acaba criando um ambiente de extremismo dentro da concentração que não necessariamente vai formar um grupo campeão – a forma como isso descambou no clima do time na Copa de 2010 é um sinal. Pior ainda é como o time se segurou às conquistas que não valiam muito, como a Copa das Confederações. Foi afogado pelo excesso de confiança, que pendeu para a soberba.

O apego excessivo aos fiéis escudeiros

Todo mundo se lembra da convocação para a Copa de 2010, não é? Por mais que Dunga abra espaço para testar jogadores, ele se apega demais àqueles que prestaram serviços a sua Seleção. Isso impediu que o Brasil levasse à África do Sul algo além dos homens de confiança do treinador, por mais que muitos deles estivessem em má fase. A dívida de gratidão costuma ser maior até que a de Felipão, como aconteceu em 2014.

As partidas excessivamente pragmáticas

O aproveitamento de Dunga em sua primeira passagem pela seleção foi ótimo, pelo menos nos números frios. Conquistar 76% dos pontos disputados é uma marca excelente. Não dá para esquecer, porém, como o Brasil foi pouco criativo em muitos desses jogos, dependendo da famosa bola vadia. O empate em 0 a 0 com a Bolívia no Maracanã, a virada sobre os Estados Unidos na final da Copa das Confederações, a vitória apertada sobre a Coreia do Norte na estreia da Copa… É difícil esperar grandes inovações táticas.